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Quando a escola é impotente…

Essa semana eu assisti ao filme francês “Entre os Muros da Escola”, após indicação da professora Cremilda Medina, da USP. Ela sugeriu a todos os alunos, pois a película trata sobre a falência da educação no seu formato atual, comparando com uma notícia que havia saído no dia sobre a bonificação em dinheiro aos professores do Estado de São Paulo  que apresentassem melhor desempenho em sala de aula, numa avaliação do ensino – sob o ponto de vista dela que eu compartilho – totalmente mecanicista, racionalista e positivista, que quer quantificar o total de conhecimento adquirido, como se isso fosse possível. E todos esses adjetivos, negativos, são pontos em que a professora tem criticado em seu trabalho acadêmico de mais de 30 anos e eu tenho tomado contato aos poucos, crendo ser bastante interessante para aplicar na minha pesquisa acadêmica, mas também no observar o mundo de uma outra forma.

O filme se passa numa escola de ensino fundamental em Paris, em particular uma classe de sétima série, e mostra a dificuldade diária de um professor de francês em “dar” aula para jovens que estão mais interessados em outras linguagens e formas de pensamento, demonstrando como está desgastada a tradicional forma de aprendizado.

E com um ingrediente ainda mais potencialmente explosivo no caso europeu: as diferentes nacionalidades e culturas que convivem, às vezes com dificuldade, dentro da classe. São chineses, antilhanos, malinenses, marroquinos, turcos, franceses, com suas tradições e peculiaridades, convivendo com góticos, tímidos, revoltados, rappers, preguiçosos, bocudos e personalidades de toda a sorte e singularidade. Cada um com sua gíria e forma de expressar, tanto na linguagem falada, quanto na corporal, numa sintonia totalmente distinta da do professor, que se esforça para tentar compreendê-los, mas se estressa, erra, sofre, com esse mundo diverso, disperso e difícil de se relacionar.

Guardei dois momentos que mostram, a meu ver, claramente isso. E chocam. O primeiro é quando o professor tentar ensinar o presente dooindicativo de um verbo e uma aluna pergunta porque se chama “indicativo”. Ele tenta explicar e começa a falar do presente do subjuntivo, um tanto quanto difícil e pouco usado. E é exatamente o questionamento de um dos alunos: “Isso é linguagem de fresco, não se fala assim nas ruas”.

O outro momento, já no fim do filme, quando o professor pergunta a todos o que eles aprenderam no ano, um deles comenta um experimento de Química e o professor indaga porque o aluno achou importante: “E porquê não seria? Se eu aprendi na escola, é porque deve ser importante”. Será mesmo?

Outro ponto muito forte é a estrutura rígida e autoritária, dita como autoridade, tanto do diretor para com os professores, quanto dos professores para com os alunos, a fachada democrática dos conselhos de classe, proibição disso, daquilo, quase não podendo respirar. Que jovem vai querer passar sua vida ali?

Infelizmente, essa realidade é bem semelhante, e até pior, no Brasil. Se não temos o componente cultural no sentido de países, temos a mistura entre regiões, a pobreza extrema como fator excludente e o (às vezes consequente) incentivo ao trabalho jovem, como impedidores de progressão escolar. Mas temos também a mesma falta de interesse, as mesmas disciplinas rígidas, estagnadas no século XIX, sem conecção com o terceiro milênio, as novas tecnologias, com as outras oportunidades de aprendizado, aproximando ao que se vive nos dias de hoje.

Enfim, mais do que ler minhas impressões, vale a pena assistir ao filme, ainda em cartaz em diversos cinemas de São Paulo e que, creio eu, deve estar em vários cinemas “intelectuais” brasileiros. Uma pena que uma película indicada ao último Oscar como melhor filme estrangeiro, que retrata tão bem a realidade escolar (não só na França), não esteja espalhada em todos os cinemas.

Para saber mais sobre o filme, indico aqui uma entrevista que o diretor de “Entre os Muros da Escola” concedeu ao UOL.

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