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Lembranças de um tempo perdido

Sentado embaixo do bloco, Hélio aproveita-se do frescor de uma sombra, protegendo-se do ensurdecedor calor do meio-dia. Não há viv’alma no corredor do condomínio. O domingo fala alto em seu silêncio. Todos recolhidos em seus apartamentos, assistindo televisão, no preparo espiritual para o almoço familiar, tão tradicional naquele (e em vários) suburbano bairro.

Um carro passa e traz algum som para aquele vazio sonoro. Hélio permanece sentado, agora, a olhar seu celular, como que esperando alguma mensagem ou ligação. Sente o tédio invadir suas entranhas, a total falta de perspectiva para aquele domingo, em que achava que seria repleto de atividades, mas tudo não passou de sonho desfeito, expectativa frustrada, ilusão, enfim.

Faziam duas horas que Hélio observava o parco movimento da rua de longe, já que o bloco onde mora, apesar de ser o mais próximo do portão, ainda tem um uma distância considerável para a calçada. Via pouca coisa, mas quase nada havia para ver. Os personagens eram raros: uma senhora carregando um carrinho de feira com legumes, verduras e frutas amassadas; um jovem rindo; duas crianças correndo. De resto, carros estacionados, prédios iguais, monumentais, com suas venezianas de alumínio e suas antenas antigas.

Aquele domingo estava sendo realmente um desperdício. Depois de ir para a escola a semana toda, aguentar aqueles professores chatos, as brincadeiras idiotas de colegas que desejava distância, a falta que fazia aquele amor não-correspondido, Hélio acreditava merecer uma compensação. Já tinha passado o sábado na companhia dos avós noutro bairro, fazendo a visita mensal obrigatória, que até gostava por alguns momentos, mas que trazia uma sensação ruim que preferia evitar sempre que possível. E tudo que ganhara naquele domingo era uma entendiante preguiça, que tinha tudo a ver a sua falta do que fazer.

Foi obrigado a acordar cedo naquele domingo, depois que sua mãe começou a preparar o almoço, ainda às 8h da manhã. “Por que ela começava tão cedo?”, costumava indagar. Resignado, depois da xícara de leite com chocolate e um pão murcho com manteiga, foi para a sala, pegou o controle remoto e mudou de canal por 30 vezes, até se cansar e ligar o som. Encontrou uma rádio com uma música agradável a seus ouvidos, aumentou o volume, mas foi repreendido por um berro assustador vindo do banheiro: era seu pai, que reclamara do tipo de música. “Que porra de barulheira é essa?”, xingava, mais que perguntava.

Cansado daquilo, foi para seu quarto arrumar a cama, discutiu, para variar, com sua irmã, deu uma olhada em algumas coisas da escola e, de saco cheio, saiu do apartamento. Após um tempo nas escadas, que, apesar de serem fechadas em vidro e guardarem uma umidade interessante para aquele dia calorento, se encheu daquilo e foi para o banco embaixo da entrada do bloco, onde costuma ficar pensando na vida, ou em absolutamente nada.

Gostava de observar os prédios vizinhos, o muro que a cada ano crescia, para evitar a entrada dos moradores do morro ao lado, que aumentava em proporção igual. Pouco havia para ser visto além da favela de alvenaria erguida ali ao longo dos anos. O sol brilhava forte no chão de cimento, quase a cegá-lo.

Procurava o prédio da rua vizinha, que sobe à esquerda diagonalmente. Costuma causar-lhe boa impressão aqueles prédios bem cuidados, com sua área bem cercada por grades (cada vez menos) simples, em cima de barrancos verdes de mato alto, que Hélio chegou a circular quando era pequeno e a proteção ainda era pouca. Dava pra ver até sua escola, pelo menos o pátio imponente, o condomínio onde moram alguns colegas de classe, um pedaço da parte alta da igreja e sua cruz e aquele céu azul com pedaços desfigurados de nuvens brancas, dissipadas naquele clima ácidamente quente.

Mesmo com essa paisagem que costumava a lhe agradar, cansara de ficar ali. Já passava da uma da tarde e o sol forte impedia qualquer pessoa de ficar muito tempo fora de casa, mesmo que as ávores ou a sombras dos prédios ajudassem. Ameaçou gritar, chorar, mas preferiu continuar inerte, sem nada fazer, muito menos pensar. Até que sua mãe gritou: “Hélio, vem almoçar!”. E ele partiu para a sequência de deu martírio dominical: almoçar junto de sua família.

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Uma melancolia incide sobre seu coração hoje, uma saudade de respirar aquele ambiente novamente. Mesmo que tenha sofrido muito e não haver vontade nenhuma de viver mais ali. No entanto, é perceptível sua simpatia por aquele lugar, que o ajudou a formar quem hoje é e a buscar engrandecer-se em outros campos hoje em dia.

Afinal de contas, coisas boas aconteceram ali e prevalecem atualamente na matemática da vida, que soma o lado bom e subtrai as decepções. E multiplica, cada vez mais, a volta para seu passado (a partir de uma forma concreta, isto é, daquilo que restou dele: ruas, prédios, árvores, lembranças), para reencontrar pessoas e amigos que o fazem viver momentos felizes novamente e proporcionam um hiato de suspiro, um verdadeiro respiro nesses dias tão tumultuado, incertos e solitários. E para um dia calorento como esse, depois de tantos anos, tudo o que resta são lembranças.

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  1. 15/12/2009 às 9:17 PM

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