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Curiosidades sobre o livro – Parte II

Segue mais um texto da série que estou produzindo sobre o projeto do livro Face Leste: revisitando a cidade, que escrevi para o pessoal da Bonita produções e que está em fase de finalização.

Post publicado originalmente em: http://bonitaproducoes.wordpress.com/2011/12/06/curiosidades-sobre-o-livro-parte-ii/.

Como prometido, estamos de volta com a segunda parte das curiosidades sobre os bairros que fazem parte do livro Face Leste: revisitando a cidade, que a Bonita Produções está fazendo em parceria com a Associação Cultural Beato José de Anchieta e a Prefeitura de São Paulo. Também faz parte do projeto um documentário audiovisual, que estaremos abordando aqui neste espaço em breve.

Se na semana passada o texto tratou de alguns dos bairros mais antigos da Zona Leste, hoje trazemos informações de alguns bairros mais recentes, mas que tiveram importância. São os casos de Itaquera e Guaianases, que tem uma presença maior de povoamento no fim do século XIX, e foram importantes para o contexto de crescimento de São Paulo por fornecerem matéria-prima para a construção civil por meio de suas pedreiras e suas olarias. Outro fator que possibilitou o desenvolvimento desses bairros até então longínquos foi a extensão da linha do trem que se dirigiu rumo ao Rio de Janeiro, cortando toda a Zona Leste.

Mas esses bairros – assim como Ermelino Matarazzo, São Miguel Paulista, Itaim Paulista, São Mateus, Aricanduva e toda a face leste da cidade – acabaram por ter um aumento da população a partir da segunda onda de urbanização e industrialização vivida por São Paulo, a partir dos anos 40 (mas que se intensificou nos anos 50 e 60 e se consolidou a partir dos 70), que impulsionou São Paulo em direção a uma grande metrópole e trouxe diversos de migrantes de várias regiões brasileiras para a capital paulista.

São Miguel Paulista e seus vizinhos viveram isso de forma mais presente com o complexo industrial da Nitro Química, que empregou milhares de funcionários e motivou vários mineiros, paranaenses, baianos, pernambucanos, e muitos outros, a rumarem ao desconhecido. Ermelino Matarazzo surgiu no entorno de uma fábrica de celofane do Conde Francisco Matarazzo. São Mateus surgiu a partir de um sonho de um italiano de criar uma região de nobre na Zona Leste, mas cresceu em torno do desenvolvimento da indústria automobilística do ABC e do pólo petroquímico de Mauá.

E com tanta gente migrando para essas áreas, faltou moradia para tanta gente, não é a toa que os movimentos populares de grande relevância na época se destinavam à luta por moradia, em um contexto de luta pela redemocratização do país, entre o fim dos anos 70 e boa parte dos 80, ainda sob a ditadura militar.

Nesse período foram criados os conjuntos habitacionais que foram insuficientes para adequar a gritante demanda por casas. Itaquera e Guaianases foram os locais que mais receberam casas e apartamentos da COHAB – parte de Guaianases que recebeu as construções foi transformada em Cidade Tiradentes posteriormente. Já o CDHU implantou imóveis no Itaim Paulista, principalmente, além de São Miguel e outras localidades.

Como foi possível perceber, a história da Zona Leste está ligada à história da migração dos brasileiros rumo às capitais e à luta por moradia. Mas é muito mais que isso, como o livro propôs pretende revelar. Há muitas histórias para contar, aqui é apenas um aperitivo do que queremos mostrar com o livro, na expectativa de que todos possam saborear as histórias, curiosidades e “causos” da face leste da cidade que a fazem ser esse verdadeiro – e rico – caldeirão de diversidade.

Curiosidades sobre o livro – Parte I

Segue mais um texto da série que estou produzindo sobre o projeto do livro Face Leste: revisitando a cidade, que escrevi para o pessoal da Bonita produções e que está em fase de finalização. Em breve, quando eu tiver informações sobre o lançamento, divulgo aqui. Por enquanto, conheça um pouquinho mais sobre a história do livro!

Post publicado originalmente em: http://bonitaproducoes.wordpress.com/2011/12/02/curiosidades-sobre-o-livro-parte-i/.

Hoje a gente traz no Blog da Bonita a primeira parte de um texto com algumas curiosidades sobre os bairros selecionados para o livro Face Leste: revisitando a cidade. A cada pesquisa iniciada, a cada leitura concluída, as informações iam brotando aos borbotões, e sendo agregadas ao material anterior, indicando um mundo gigantesco de histórias e possibildiades de abordagem para cada capítulo-bairro. E cada bairro, claro, com sua peculiaridade, revelando que a Zona Leste possui um mosaico complexo e heterogêneo, modificando um pouco o cenário cinza e único de pobreza e abandono, comum quando se faz comentários sobre a região. Mas, além de produzir uma diversidade social e cultural ricas, a Zona Leste também tem muita história.

A mais antiga delas remete aos primórdios da colonização brasileira e da fundação de São Paulo, ainda Vila de Piratininga. São Miguel Paulista foi um dos primeiros aldeamentos da cidade, e teve no seu fundador o valioso personagem religioso, o Beato José de Anchieta, partícipe da fundação de São Paulo. O aldeamento de São Miguel de Ururaí era estratégico no século XVI, principalmente por proteger a Vila de Piratininga dos ataques dos franceses, auxiliados pelos índios Tamoios, que vinham do Litoral Norte e ameaçavam atacar via Mogi das Cruzes.

Outra região antiga da Zona Leste é a da Penha, que surgiu a partir do fervor religioso em torno de Nossa Senhora da Penha, que foi a origem e o motor do bairro. As extensas procissões de fiéis até a região para venerar a santa proporcionou a formação do bairro que hoje é bastante tradicional na Zona Leste e até já foi sede do governo da antiga província de São Paulo, durante a revolução de 1924, quando o então governador Carlos de Campos se refugiou no bairro ante os ataques dos tenentes revoltosos. E até uma visita do então imperador Dom Pedro II no final do século XIX é fato de orgulho para seus moradores.

Esse período também foi marcante por conta da crescente imigração estrangeira, que trouxe italianos, portugueses, espanhois, japoneses e toda a sorte de imigrantes que vinham com o sonho de prosperar na farta terra brasileira. Muitos foram trabalhar na lavoura de café no interior paulista, em regiões como Jundiaí, e eram levados até lá de trem a partir do desembarque no Porto de Santos. E um dos pontos de recrutamento de imigrantes era na Hospedaria dos Imigrantes do Brás, que motivou o crescimento deste bairro, da Mooca, Vila Prudente e Pari na Zona Leste, além do Ipiranga, Lapa, Barra Funda, Bom Retiro, as regiões em torno da linha férrea, que receberam várias indústrias, em que muitos imigrantes que não se acostumavam com a lavoura acabavam por trabalhar.

Por agregar tantos operários, esses bairros também foram fontes de reivindicação por melhorias nas condições de trabalho e salário, sendo símbolo a Greve de 1917, que teve início na Mooca e produziu diversos progressos nas leis que foram formuladas nos anos seguintes, principalmente no governo Getúlio Vargas.

Uma peculiaridade interessante está na Vila Prudente ter sido fundada por uma família de italianos, que desejavam instalar uma grande fábrica de chocolate e confeitos e forjaram um bairro para fazer seu negócio dar certo.

Apesar da história do Tatuapé remontar ao século XVII, o bairro também abrigou indústrias, embora em um período posterior, o que propiciou um melhor desenvolvimento tecnológico, empresas mais avançadas e maiores. Isso vai proporcionar, anos mais tarde, uma condição especial na construção de empreendimentos imobiliários para muitas das famílias ricas e tradicionais do bairro, aproveitando os imensos galpões vazios das antigas fábricas, o que vai dar elevar o padrão de moradia e de moradores no Tatuapé em anos mais recentes.

Na semana que vem, a segunda parte desse texto repleto de curiosidades sobre os bairros da Zona Leste paulistana. Até lá.

Face Leste: o processo de criação do livro

Olá!

Estou aqui mais uma vez para divulgar o meu trabalho no projeto Face Leste: revisitando a cidade. O post de hoje detalha o processo de produção do livro. Está bem bacana, garanto! Aproveite a leitura!

Post publicado originalmente em: http://bonitaproducoes.wordpress.com/2011/11/30/face-leste-o-processo-de-criacao-do-livro/.

Vamos continuar a falar aqui no Blog da Bonita sobre o projeto Face Leste: revisitando a cidade. Hoje vamos abordar um pouquinho como se deu a produção do livro. Em conversa com a Associação Cultural Beato José de Anchieta, surgiu um pedido para que o livro contemplasse o maior número de obras e informações que servissem de base para estudantes, pesquisadores e quem mais almejasse conhecer sobre a região, servindo como uma compilação de histórias, livros e personagens da Zona Leste.

Ou seja, mais que um desejo, encaramos como uma necessidade quando se fala sobre a Zona Leste, tão pouco conhecida, refletida e com sua história contada em fragmentos, que agora estão reunidos em um resumo de alguns de seus principais bairros e com referências bibliográficas de vários trabalhos de pesquisa, livros, dissertações de mestrado e teses de doutorado.

Com esta missão na cabeça, começamos as pesquisas. A internet é uma ótima ferramenta para iniciar qualquer busca. Ela indica os caminhos, aponta os autores, as pessoas, as entidades, enfim, quem possa ajudar a responder nossos questionamentos e angústias quanto a qualquer tema. Mas é preciso ir além. De posse de muitos nomes de acadêmicos e estudiosos em geral, a meta seguinte é ir atrás dos livros, das dissertações e teses armazenadas nas universidades. E aqui vai um elogio à USP e à PUC-SP que detém um arsenal gigantesco e rico de obras. A leitura desse material proporcionou a composição de um mosaico rico de informações e abriu muitas possibilidades de abordagem em cada um dos 13 capítulos, que corresponde aos 13 bairros contemplados no livro.

Essa pesquisa inicial – mistura de internet com leituras das fontes diretas – que levou cerca de um mês indicou, consequentemente, as fontes que seriam entrevistadas para compor o debate dentro do livro. Pois como nossa meta era abordar o texto sob o estilo de uma revista, mais solto, sem as amarras da teorização acadêmica, privilegiaria, além dos livros e pesquisas, entrevistas com os autores desses trabalhos, para ir além da obra acadêmica e tentar entender particularidades a respeito de cada bairro.

A internet nos auxiliou também na busca por protagonistas ou moradores simples desses bairros, para trazer um aspecto mais íntimo, mais pessoal sobre essas regiões, procurando aproximar a história do bairro com o cotidiano e a história de vida das pessoas que vivem na região. Em contato com entidades locais encontramos líderes comunitários, membros de movimentos sociais, donas de casa, aposentados, enfim, pessoas envolvidas com a comunidade e também pessoas simples, todas com uma visão bastante peculiar sobre o lugar onde vivem. Talvez uma coisa que pode-se dizer que é semelhante na boa parte dos bairros é a história de imigração, que é o cerne da história da Zona Leste. Tanto imigrantes estrangeiros quanto os migrantes nordestinos, mineiros, paranaenses, do interior paulista, etc. É o que simboliza uma terra que foi sendo ocupada com o decorrer do século XX e com o desenvolvimento e crescimento da urbanização na cidade de São Paulo e pelas capitais de todo o Brasil.

A fase seguinte foi a da realização das entrevistas com os pesquisadores e com os moradores dos bairros, um processo que durou cerca de dois meses e foi o período mais prazeroso do projeto: conhecer pessoas, suas histórias, visitar os bairros e vivenciar a experiência de perto, estando próximo, além de debater teorias, compreender o fenômeno que transformou a Zona Leste no gigante que ela é hoje. As entrevistas ajudaram a compreender também a Zona Leste do ponto de vista teórico, acadêmico, por meio de um ponto de vista compartilhado por vários pesquisadores nos seus trabalhos e nas entrevistas colhidas, o que possibilitou uma ampla Introdução focando nas raízes, causas e conseqüências do porque que a Zona Leste se desenvolveu para a forma como conhecemos hoje.

Com tudo isso em mãos, mais um período de quase dois meses para reunir todo o material colhido desde a pesquisa, refletir bastante e começar a dar forma ao livro, escrevendo, escrevendo e escrevendo, na tentativa de passar ao máximo o sentimento que representa cada um dos bairros citados no livro, sem deixar de colocá-los no contexto da Zona Leste, em que cada região teve uma importância ímpar para o crescimento da Face Leste da cidade. O resultado está na gráfica e em breve será compartilhado com todos e esperamos que todos gostem, pois foi um trabalho árduo mas satisfatório, que ensinou muito a todos os envolvidos e será uma etapa de nossas vidas inesquecível.

Volte aqui mais vezes, pois em breve traremos mais informações sobre o livro e mais curiosidades sobre os bairros presentes no livro. Até a próxima!

Prazer, meu nome é Face Leste

Olá pessoal.

Gostaria de divulgar o meu trabalho mais recente, que me consome este semestre, que foi a produção do livro Face Leste: revisitando a cidade. Nele eu fui responsável pela pesquisa, entrevistas e pelo texto. Um projeto muito legal e que em breve será lançado. Eu fiz um post no blog da Bonita Produções, que é a empresa responsável pelo projeto (e que me contratou para o projeto) e parceria com a Associação Cultural Beato José de Anchieta e a Prefeitura de São Paulo. E nele eu explico o trabalho, destrincho um pouco sobre o livro e o documentário que também faz parte do pacote, como uma prévia dos próximos posts que serão publicados lá no blog. E sempre que eu publicar algo lá, eu também postarei aqui. Em breve, mais novidades!

Post publicado originalmente em: http://bonitaproducoes.wordpress.com/.

Bonita Produções, em parceria com a Associação Cultural Beato José de Anchieta e a Prefeitura do Município de São Paulo, executa o projeto Face Leste: revisitando a cidade, que desembocará em um livro e em um documentário audiovisual. Enquanto o livro tem como objetivo contar a história oficial da Zona Leste por meio de alguns bairros, mesclada com depoimentos de seus moradores que ajudaram a construir essa história, o documentário pretende contar as emoções, sensações, vivências e percepções exclusivamente dos moradores que demonstram toda a sua particularidade, demonstrando porque a Zona Leste é uma região tão especial e peculiar dentro de São Paulo.

Esse projeto dá prosseguimento ao Guia Cultural e Turístico da Zona Leste de São Paulo, produzido pela Associação em 2010 e que procurou destacar as principais atividades culturais e de lazer, além dos equipamentos públicos da região, mostrando às pessoas o que a Zona Leste tem a oferecer.

Em decorrência disto, o projeto do livro Face Leste: revisitando a cidade procurou seguir com os mesmos distritos escolhidos no Guia. Sendo assim, temos entre os locais abordados no livro: Aricanduva, Brás, Cidade Tiradentes, Ermelino Matarazzo, Guaianases, Itaim Paulista, Itaquera, Mooca, Penha, São Mateus, São Miguel Paulista, Tatuapé e Vila Prudente. Enquanto isso, o documentário preocupou-se em focar menos na quantidade dos bairros e mais na exploração de pessoas que pudessem demonstrar toda a sua identificação e enraizamento com a Zona Leste, em qualquer região que seja.

Ambos os frutos do projeto estão em fase de finalização: enquanto o livro está sendo impresso na gráfica, o vídeo está em edição final e recebe os últimos retoques para estar pronto para a exibição em um evento de lançamento que ainda terá a sua data confirmada. Tão logo o dia esteja tudo certo, a gente publica aqui no Blog da Bonita e divulga em nossas redes sociais. Em breve, mais novidades aqui no Blog sobre este projeto, com curiosidades sobre as histórias e a pesquisa de campo, observações sobre o processo de criação e desenvolvimento, tanto do livro quanto do vídeo! Muita coisa boa vem por aí!

Feira do livro da USP na internet

Aqui vai uma dica para os estudantes e amantes dos livros, principalmente os de reflexão política.

A tradicional Feira do Livro da USP, com obras literárias com grande desconto, que costuma acontecer em novembro foi adiada para os dias 14, 15 e 16 de dezembro e, este ano, acontecerá na Poli, e não na FFLCH.

Devido a esse adiamento, duas editoras resolveram adiantar a feira uspiana nos seus próprios sites. A Boitempo e a Alameda Editorial estão vendendo livros com 50% de desconto.

Para mais informações, é só acessar os sites da Boitempo e da Alameda.

Cartas

Aqui vai um conto meia boca escrito, acho, que em 2006. Não revisei,  nem o li por completo, vai como foi concebido à época, um período distante…

Cartas

Quando o medo aprisiona a mente de um louco…

Esta era a décima carta que Maurício das Flores escrevia para algum amigo distante com quem havia perdido o contato. Mais folhas eram escritas a esmo, já que ele não tinha a menor pretensão de enviá-las. Tinha medo. Engraçado, pois o medo da solidão o fazia passar horas na internet enviando emails, conversando com pessoas desconhecidas nos bate-papos da vida, sem falar nas já citadas cartas. Tudo feito para espantar a frígida escuridão que, à noite, enegrecia a janela de sua casa.

E era esse mesmo medo, agora apontado para outro lado, que o fazia não enviar as cartas a seus amigos mais íntimos, com quem desenrolou anos de amizade e cumplicidade. Esse outro lado era a simples vergonha de se expor e alguém rir de algum pensamento ou palavra má colocada, das lágrimas borradas nas letras azul-bic. Anos e anos de vivência e agora isto, o medo. Simples, único, presente, forte, machucando cada centímetro do coração e da mente do escritor de cartas, como um vento cortante que fere o fraco sistema imunológico de alguém gripado.

Seu pequeno quarto é o ambiente em que permanece quase a totalidade do tempo. Uma cama de solteiro no canto esquerdo, a escrivaninha no lado oposto, defronte da janela, para poder observar as árvores, pássaros, pessoas, carros, passando pela rua onde mora. No sentido da porta, uma televisão 14 polegadas velha e um cômodo de quatro gavetas para guardar suas roupas surradas pelo tempo e não substituídas pela falta de dinheiro. Acima do cômodo um som com tocador de CD, já um tanto fora de moda perante a atual tecnologia de mp3 e ipod.

Mas é na escrivaninha de madeira que escrevia suas cartas para afastar o tédio dos dias longos e o medo das noites intermináveis. Madeira maciça, velha, caindo aos pedaços e, mesmo assim, recebia o peso do microcomputador. Este era de bom porte, claro, afinal, é sua principal ferramenta de trabalho, além de sua mente para pensar e mãos para digitar no teclado as idéias. E o micro precisa de uma capacidade adequada para agüentar as quase 168 horas semanais ligado ininterruptamente. Sim, pois das 24 horas de cada dia, Maurício fica acordado pelo menos 18 horas. Vai dormir apenas às 6 da manhã, para acordar lá pelas 11, meio-dia no máximo.

Ah, esqueci de contar: ele é escritor, aposentado forçosamente devido à sua pouca adequação ao mercado. Na verdade, ele nunca teve nada publicado, que lhe frustra até os dias de hoje. Deu aulas durante alguns anos, até ser aposentado por invalidez, aos 30, quando sofreu uma série de crises nervosas que quase o mataram. Hoje, aos 35 anos, vive do resto do INSS e de alguns bicos de tradutor e revisor que costuma fazer em casa. Sua saúde está em farrapos, debilitada por problemas respiratórios que degeneram seu organismo.

Apesar de tudo isso, “seu Flores”, como o jornaleiro costuma chamá-lo, gosta de acompanhar o noticiário pelo rádio e televisão, apesar de não ler jornais, “para não perder a paciência com as mentiras que eles publicam”, resmunga sempre, com razão. Livros, ele tem poucos, até pela pouca verba, mas já leu bem mais que hoje, quando tinha vontade e vigor físico de sair de casa em direção à biblioteca situada na região central da cidade.

Mas seu convívio mesmo é com os escritos políticos, poéticos, sobre o cotidiano, além das cartas… Ah, essas cartas já tomam um espaço significativo no seu quarto: desde quando se aposentou juntou duas caixas de sapato com folhas escritas para os poucos parentes distantes que possui, amigos, ex-namoradas, colegas da internet, pessoas por quem se apaixonava, mas nunca tinha coragem de dizer. Enfim, as cartas tomavam um longo tempo de sua parca vida.

E ele tinha medo. Medo de alguém ler aqueles textos pessoais demais para serem enviados a alguém. Ali, toda a sua decepção em relação ao mundo, a dor de viver em solidão por tanto tempo, o reclame das visitas cada vez mais exíguas de seus amigos, o amor que deixou de sentir há muito e ainda o preocupa, etc. Tudo que envolvia seus sentimentos era tema das cartas.

Mas ele tinha medo. O medo nada mais era do que confirmar a frustração de sua vida não ter um sentido (que tão poucos buscam para si, pois preferem saborear a monotonia do dia-a-dia), não ter valido a pena, não ter feito tudo o que desejava fazer, transformar o que desejava, amar e ser amado como ele sempre viu nos cinemas. Comédias românticas que só servem para iludir a cabeça dos jovens a acreditar que no fim das contas a mocinha da história vai aceitá-los e ambos viverão juntos e felizes para sempre.

Esse tipo de ficção devia ser banido da humanidade, ponderava ele, apesar de que, em cada ato vivido nas telonas, em cada personagem com problemas de relacionamento e, por conseqüência, solitário no seu caminho, Maurício sempre viu um pouco de si. Talvez por isso, ele dizia aquele tipo de coisa, pois, apesar de tudo, gostava de ver que, ao menos no filme, o rapaz que tinha um pouco de seu temperamento alcançava o objetivo e ficava com a garota.

Medo. Sempre presente, desde a infância, quando evitou a todo custo andar de skate em pé, já que sua mãe dizia ser “perigoso demais”. Medo na adolescência, de chamar as meninas para sair, de ser motivo de chacota dos colegas de sala, de sair para beber e fazer alguma bobagem, afinal, não tinha muito controle (e nem queria ter) frente à bebida. Medo no primeiro emprego, de conversar com os outros, de errar em alguma atividade. Até medo de morrer ele já tivera.

Mas agora, frente a seu estado de saúde definhando, nem ligava mais para isso. Nem mais medo de perder seu amor, quando foi abandonado e sentiu o gosto amargo de ter sido preterido, nojo que nunca deixou sua boca, seu corpo, sua alma. E nesse momento, do que poderia ter medo? Não era mais criança para ser ameaçado pelas barras da saia da mãe, não era mais jovem para ser motivo de chacota da sala nem de sair com as meninas ou beber, já que este último nem podia mais. Não trabalhava e só esperava o tempo que os problemas respiratórios agravassem. Então, o que temer?

“Tudo”, pensava Maurício. De ser motivo de chacota dos vizinhos do prédio, dos conhecidos e amigos da internet, de alguém desprovido de bom senso que fosse até a casa dele e visse seu estado deplorável. Das cartas. Sim, ele tinha medo das cartas. Na verdade a culpa não era delas, mas sim do que ele expôs ali. Sua vida estava escrita naquelas páginas – algumas até amareladas pelo tempo – como se fossem uma autobiografia. Nem a escuridão o atormentava mais. Apenas a solidão o afetava mais que o medo de suas cartas.

Talvez por isso que, um dia, Maurício resolveu enfrentar o problema e foi até a caixa de sapatos. Estava disposto a pegar carta por carta, folha por folha, e lê-las todas, com o objetivo de enviar aos seus devidos destinatários. A idéia fixa já estava na mente dele e nada poderia demovê-lo: ia mandar a todos para que seu ego de escritor fosse finalmente realizado. Ele pretendia se matar após a limpeza das caixas, sem antes avisar a todos com uma carta de despedida trágica e lamuriosa sobre suas intenções, para que os amigos, parentes e outros, realizassem, após a sua morte, sua vontade de publicar o conteúdo das correspondências.

E começou. Primeiro foram as cartas endereçadas ao amigo Rafael, que sumira há uns dois anos. Casou, arrumou emprego em outra cidade e esqueceu todo mundo. Olhou aquelas confissões e achou tão fora de propósito que desejou rasgá-las todas, mas sentiu que o motivo histórico do período em que o texto foi escrito o obrigava a mantê-las vivas. Separou todas as cartas do amigo sumido e fez um texto novo, explicando o que se tratava e o motivo daquelas mensagens tão antigas estarem sendo enviadas com tanto atraso.

A próxima da lista foi Marisa, uma ex-namorada com quem só conversava esparsamente pela internet, mas sem assuntos muito profundos. Cartas a ela havia umas doze, todas enraivecidas, logo após o período da separação, quando a moça decidiu seguir seu caminho sozinha. Hoje está casada e nem se importa, como antes, com as opiniões de Maurício. Nosso escritor leu um a um os textos e fez o mesmo procedimento: escreveu uma correspondência nova, contando que havia escrito tudo aquilo em outros tempos, mas que agora não sentia nenhum ódio e que desejava a ela toda a felicidade do mundo, avisando apenas que queria que Marisa guardasse aquele material como parte da lembrança da união dos dois, omitindo, claro, seu objetivo final.

Teve também Adriana, uma velha amiga, daquelas que a pessoa tem mais como irmã do que como amiga. Residente de outro estado, essa foi praticamente a única que Maurício manteve contato, seja por carta ou email, durante todos os últimos e longos 5 anos. O relacionamento de amizade entre ambos nunca foi abalado, mesmo pelo tempo e distância. A falta de comunicação por alguns meses logo era retomada por um dos lados. Mesmo assim, Maurício deixou de enviar vários escritos, no eterno medo de se expor demais, o que no caso era um tanto exagerado. Ambos tinham um amor incondicional pelo outro, que transpassava qualquer barreira egoísta. O respeito e a amizade sempre estiveram acima de tudo entre eles.

E, com explicações e textos antigos, dezenas de colegas, amigos, conhecidos eram presenteados. Mensagens de incentivo, de felicitação por aniversários e outras datas comemorativas, desabafos, confissões, xingamentos, notícias, tudo estava naquelas caixas de sapatos guardados há anos e só agora vinham à tona, já um tanto sem porquê. Até que chegaram as cartas de Alissa. O grande amor da vida de Maurício que nunca foi correspondido. Na verdade, ela nunca soube realmente se ele gostava ou não dela. Eles até tiveram algum contato mais próximo durante a faculdade, mas os caminhos foram rumados a portos diferentes.

Maurício nunca escondeu a frustração de ter perdido algo que nunca teve. Sua falta de ação perante a garota, a timidez, o medo de tomar um “não”, tudo confluiu para o fracasso que ele sempre tentou apagar de sua mente. Porém, naquele segundo, a caixa de sapato mostrava o passado de forma inexorável na sua frente, apontando uma interrogação para o futuro. O medo de enviar e mesmo ler aquelas cartas vinha com maior vigor. Maurício jogou as folhas no chão e foi para a cozinha. Abriu a geladeira e tomou uma garrafa de água gelada quase num gole só. Ao pôr a garrafa em cima da pia sentiu o exagero e tossiu tanto que caiu no chão e quase desmaiou.

Depois de passar algumas horas no sofá da sala, assistindo televisão e evitando o encontro crucial para se libertar de toda aquela dor, Maurício tomou coragem e voltou para o quarto. Já eram onze e meia da noite. E Maurício leu as correspondências de Alissa repletas de borrões, lamentos e paixão. Sim, pois, apesar de todo o recato desse sentimento, o amor que Maurício nutria pela garota era intenso e profundo.

Interessante que, com o passar das páginas, ele começou a ver que tudo aquilo não passava de bobagem e aqueles sentimentos não iriam fazer sentido para Alissa, como já não faziam para ele. Talvez esse conformismo oportunista de jogar para o outro a responsabilidade da ação – ou da falta dela – tenha salvado a vida de Maurício, que resolveu enviar todo o conteúdo para seu amor platônico, mas sem temer a reação dela. Seu medo, por fim, terminara. E, portanto, a razão para o suicídio também. E graças a um ato que aliou a coragem do envio das cartas com uma razão bastante covarde: a de achar tudo aquilo perda de tempo, só para sufocar uma paixão reprimida. Mas enfim, daqui por diante, Maurício pode viver seus últimos dias de vida em paz. Nossa existência é muito irônica mesmo.

Novo, velho conto

Aproveitando a proximidade com as festas de fim de ano, aquui vai um conto que é mais um desabafo, uma reflexão sobre vários assuntos. Aproveitem, critiquem, debatam, leiam!

Ah, a propósito, o conto de ontem não foi o primeiro do ano, escrevi “Lembranças de um tempo perdido” esse ano direto no blog, portanto, não o tinha nos meus arquivos, logo, havia descartado-o. Mas, revisto o erro, vamos ao novo, velho conto!

Conto de pensamentos desconexos

Num feriado remoto, um jovem estudante vê o mundo desabar em sua cabeça

Mais um feriado idiota no calendário. A ausência de movimento num dia considerado santo, em que a falsidade puritana recobre as aparências de boa parte da população, enquanto você procura entender o real sentido para sua angústia.

O mais engraçado é que na segunda-feira você fica na expectativa de que a semana passe rápido para que o feriado chegue e você possa se livrar do cotidiano imbecil e agressivo dos dias chamados úteis, mas que você faz de tudo para que pareçam inúteis. Nada na cabeça, as tarefas parecem entediá-lo cada vez mais, enquanto nenhuma música lhe toca o coração como antigamente. Nenhum amor toca seu coração como antigamente. Nenhuma dor, nenhuma alegria faz sua vida se movimentar para um outro caminho, que não seja para frente, ou para trás, isso depende do estado de espírito.

A véspera da folga chega, mas não há planos do que fazer com esse dia a mais de descanso. E os eternos pedidos para um dia considerado inútil perdem sentido, pois não há lado nenhum para correr. O famigerado dia chega e o desânimo acomete de vez a alma do pobre coitado que não sabe mais o que pensar. O tédio domina suas ações e nada além do alienante cotidiano o move para algo satisfatório. A cabeça está vazia, o coração está vazio, tudo aquilo que sempre pensou é questionado por todos, e por si mesmo.

Seus ideais ligados ao passado querem sobreviver ao bombardeio do presente, mas sofrem com tamanha descrença, desunião e hipocrisia dos seres humanos. Nada mais do que falam se acredita ou vale para alguma coisa. Você diz: isso eu não faço. Mas basta alguém mandar você fazê-lo que tudo é esquecido. Por quê? E aí alguém diz que você também fará o mesmo um dia, pois quando você ficar velho, tua família, teu status, tuas obrigações o farão ser igual aos outros.

Mas se você não se enquadra ao que todos são, é taxado de bitolado, antiquado, alguém que não vai crescer. Contudo, o que significa crescer? As pessoas se esquecem que o que pode ser importante para um, pode não ser para outro. Se não fizermos algo para mudar, qual sentido fará nós estarmos aqui? Que algo é esse que trará alguma razão? Será que existe alguma razão para tudo isto?

O ser humano é de extrema mutação. Porém, o que ele pretende mudar é a si mesmo, enquanto o mundo que se espatifa em suas brincadeiras de guerra e de justiça. Quando alguém quiser fazer alguma coisa, que vá a rua e faça por si mesmo. Cadê aquele espírito jovem de união e desejo de um mundo melhor? Não se faz nada sozinho, mas também ninguém quer fazer, apenas aparecer.

O mundo é uma eterna briga entre o novo e o velho, entre o justo e o certo, entre o buscar e o esquecer, entre o ser e o agora. E você, nesse mundo caótico, vê as pessoas se dominarem por dizeres dos outros, crêem com uma fé cega em uma coisa que nunca viram ou sentiram de verdade, e pensa ser mais fácil isso do que se deparar com a vida como ela é, com a impossibilidade das coisas. É mais preferível ao ser humano culpar alguém, aceder a uma entidade superior que decide por nós, do que encarar o mundo de frente e perceber que somos todos culpados pelo que somos, e somente nós.

Porque quando você encara a vida de forma independente, você sente que nada faz sentido, que o certo e o errado são abstrações humanas de compreensão improvável. Nota, portanto, que sua vontade de fazer se perde no desejo de todos em deixar como está, pois o ser humano não é piedoso. E aí vem a depressão, o tédio, a raiva, a letargia, e você acredita ser um maluco doente que só resmunga, enquanto a vida corre a rédeas soltas lá fora, como sempre desejou que fosse realmente, mas que apenas aparenta ser, enquanto todos crêem ser livres.

* Escrito em 2005.

Em branco

Olá. Há muito não apareço por aqui. Mas hoje venho com algo diferente: o primeiro conto que escrevo esse ano, em meio a um mestrado que me conseome avassaladoramente. Espero que gostem. Até mais.

Em branco

Hugo Luiz enxerga a sua direita uma pilha de livros caindo da cadeira da cozinha que serve de apoio em seu quarto. Sem esboçar a menor reação, continua observando um a um os livros irem de encontro ao piso gelado: uma rajada de vento vinda da janela foi a responsável pela quebra da harmonia no quarto de Hugo Luiz.

Concentrado, olhos fixos para a tela do computador, aturdido, não foi capaz de fazer qualquer movimento. Sua preocupação é outra: a falta de inspiração que lhe aflige há dias, impingindo uma angústia enorme em si ao permanecer com olhar petrificado para a página em branco do editor de textos.

Mesmo assim, fugiu de sua tormenta mental e recolheu todos os livros de volta à cadeira. Mas se deteve em um em específico: um livro sobre política que falava sobre esperança, determinação, ação. Folheou um pouco, lembrou-se da parte da sua vida que estava atrelada àquelas páginas e se estremeceu com o que lhe vinha à memória. As crenças mais simples quando se é jovem e a vontade na ponta dos cascos não passava do que hoje é um conceito genérico de um teórico francês.

Hugo Luiz, num balançar rápido de cabeça para afastar tais pensamentos, voltou-se para sua tela em branco: já estava há quatro dias sem sair daquele quarto, sem idéias, sem perspectivas, sem o que preencher aquele espaço em branco. Desligara-se do mundo e, com ele o Msn permaneceu fechado, assim como o Google Talk e o Skype. O Orkut abria apenas para ver suas próprias fotos antigas de vez enquando, como que em um arroubo patético de querer voltar àqueles momentos e congelá-los para sempre, sem viver a dor cotidiana da rotina e da negação a amedrontar sua alma.

Apenas o Twitter continuava aberto, para prosseguir com o ritual insólito desta humanidade em saber o que se passa com a vida dos outros, o que as pessoas fazem, com quem saem, o que lêem, o que escrevem, como se já não bastasse cada um preocupar-se com a própria vida. Mas se ocupar do microcosmo do cotidiano de celebridades e pessoas comuns serve como uma ótima droga para narcotizar-nos enquanto esquecemo-nos das mazelas desta sociedade mal construída. De repente, um recado em “caixa alta”: “vou comprar o celular tal, tô super feliz”. Outro perfil transcreve o pronunciamento do presidente e “ainda bem que não há mais perfis on line, assim não me ocupo com essas baboseiras a cada aviso do programa”, alivia-se Hugo Luiz, pois até em seus momentos toda essa encheção chateia, entedia os viciados por desinformação.

Sentia-se deslocado, descolado de tudo aquilo. Esse sentimento de não-pertencimento fazia mal dentro de si. Não conseguia sentir-se parte nem de sua própria vida ou de seu corpo. Sentia-se despedaçado por dentro, como se tivesse tentado lutar tanto para sair dali e alcançar outro espaço que o preenchesse.

Após passear seus olhos cansados pelos perfis dos outros, Hugo Luiz volta para sua tela em branco para tentar dar seqüência à sua missão, apesar de não saber mais de onde buscar para preencher uma linha que seja daquilo. Ao mesmo tempo, uma ansiedade consome seu coração e mente, na espera de um e-mail que pode facilitar ou complicar sua vida. Enquanto não chega, a ansiedade transforma-se em uma angústia virulenta que quase o leva a uma depressão desesperada.

E entre e-mail e o editor de textos, entre uma agonia e outra, o tocador de música repete insistentemente a mesma voz, as mesmas notas, a mesma canção de 15 minutos durante toda a noite. O violão é repetitivo, a voz é aguda, a qualidade é baixa também por ser uma gravação ao vivo do que parece um bar. Há muita gritaria e conversação. Mesmo assim, a canção permanece vitoriosa no tocador, falando de uma garota má e de conversas de bar, da cidade, das ruas, de qualquer coisa que ele não entende.

De repente, o Twitter começa a infernizar com tantos avisos de mensagens novas. E, como forma de fuga, Hugo Luiz volta-se a todo o momento para a página do programa para saber quem escreveu o quê e porquê, como que em uma necessidade obsessiva de se desviar do que precisa fazer, mascarada por uma pseudo-preocupação em obter novas informações, alguma novidade, ou notícia importante sobre qualquer coisa.

O desespero é tanto que ele fecha o programa para tentar se concentrar no seu dilema. Muda a canção no tocador e finalmente obtém uma centelha de inspiração, alguma idéia passa por sua mente e ele a segura com todas as suas forças, fazendo daquilo seu momento máximo em dias. É uma música que fala de amor, mas não é isso que chama atenção. O que lhe importa é o retorno da sensibilidade e gana necessárias, por um instante, para voltar a escrever. E começa.

14 de dezembro de 2009.

La decadencia de los dragones

Mais um texto relacionado às leituras e aulas da professora Cremilda Medina, na USP.

Reflexões acerca do texto La decadencia de los dragones, de William Ospina

Achei interessante a relação entre os tempos antigos e os tempos modernos que William Ospina faz no texto La decadencia de los dragones, em que ele coloca que antigamente tinha-se o sonhar, o criar, o fantasiar, enfim, era algo mais comum, aproximando mito e religião ao cotidiano dos homens. Enquanto hoje o que impera é a ciência, a informação, a racionalidade, a comprovação dos dados, a impossibilidade de devanear pelas nuvens da imaginação e bebericar da fonte da inspiração da história oral, do descompromisso, “incongruentes” com a suposta verdade ou precisão dos fatos, dos acontecimentos, dos números, da vida.

Se antes o homem precisava cavalgar, andar, para encontrar novos povos, territórios, descobrir os mistérios dos monstros escondidos em florestas, agora basta tomar um avião para cruzar continentes; a fogueira de São João foi substituída pela confortante lareira artificial de casa em pleno país tropical. Parece que tudo ficou fácil demais, organizado demais, certinho demais, e basta que tudo isso exista para que sejamos felizes.

E o Boi-tatá, os deuses gregos, a mula sem cabeça, os coloridos dragões chineses que Ospina cita, são de uma época longínqua, amadora, em que “não éramos evoluídos”. Como se ter um carro veloz, um secador de cabelo e uma TV a cabo fosse sinal de progresso, ou mesmo de libertação, de felicidade. Poucas vezes se viu a humanidade tão perdida, sem norte, questionando seus valores, seus objetivos, seus produtos, suas metas. E distante de suas histórias que são o que chamam a atenção e emocionam: basta ver que os documentários e filmes de sucesso partem de histórias, de personagens, que tem relação carnal com o cotidiano humano. No entanto, a sanha de tecer panoramas e cenários, de ter certeza das coisas, de precisar ter aquela história como exata, joga-nos no abismo do engano, já que nada precisa ser preciso, pois nada é possível ser preciso.

E uma citação no livro que comenta a questão da literatura ser toda ficção chega a ser incoerente no mundo de hoje, pois, se as histórias são apenas histórias, porque relatos míticos, fantasiosos, são mal vistos, sendo empurrados ao mundo infantil, como somente as crianças possuíssem o direito de sonhar? Mas aí, quando elas crescerem, tudo aquilo terá sido tempo perdido, pois não compõem a realidade do mundo de hoje. Enfim, até que ponto o incentivo à fantasia é prejudicial à realidade? Mais, em contraponto: em que grau a realidade nos esvazia enquanto seres humanos?

Apesar de tudo isso, Ospina comenta que, mesmo com todo esse aparente ar anti-fantasia dos dois últimos séculos, grandes produções literárias realizadas no século XX, por exemplo, mostram que o ser humano não se desconectou deste mundo, apesar de tê-lo distanciado de sua práxis diária. O contato com as artes, outras culturas, com as fantasias, enfim, são as inspirações necessárias para todas as pessoas fugirem da massacrante rotina do cotidiano. E no caso do jornalista, escritor, acadêmico, são elementos importantes que arejam nossa mente na produção intelectual.

Reflexões

Olá.

Hoje publico um texto feito a partir de algumas leituras das aulas da professora Cremilda Medina. Claro, sempre ela para motivar que escrevamos coisas diferentes, que reflitamos mais que o costumeiro. Vou sentir saudade dessas instigantes aulas…

Reflexões acerca do texto de Sinval Medina “Riquezas e injustiças do Brasil”

O texto do Sinval Medina provoca quem produz, seja jornalista, escritor, acadêmico, pesquisador, estudante, a transcender as amarras cartesianas da precisão objetiva e sisuda do texto elaborado normalmente. Não que não haja objetividade ou seriedade no texto do escritor citado, tem até pelo tema ser bastante complexo, mas a forma é sem fôrmas, sem fórmulas, sem padrões pré-estabelecidos, dando vazão à intuição criadora, ao sorriso nas frases, brincando enquanto trata de assunto duro, sem ser jocoso ou inoportuno.

Isso fica claro quando ele lança mão de expressões como a formidável “onde o carro pega…” ou “…conversalhada fiada” (que o corretor ortográfico do editor de texto marca como inexistente ou como um erro), proporcionam momentos de descontração, sem tirar o foco quanto ao que pretende: refletir as mazelas de três países dentro de um único Brasil e o quê fazer quanto a isto. Porém, a partir de um texto solto, que não busca responder, explicar, mas sim perguntar, compreender. Ou, ainda menos, apenas levantar a discussão, também se colocando como um ser perdido diante do atual momento do capitalismo, em que a globalização parece inexorável, enquanto a alternativa socialista já não mais pode ser levada a sério.

Ao cunhar a Holambra, o Brasiguai (que se tornou real com os ciudadanos brasiguaios que pularam a fronteira rumo ao vizinho) e Periferistão (bela referência aos grotões tão malditos pela elite holambresa), Sinval Medina desafia nossas mentes a serem mais que manuais científicos, jornalísticos, acadêmicos. Ele nos impele a jogar no caldo intelectual de uma construção textual um pouco do tempero brasileiro, de nossa identidade e olhar próprios em relação ao que observamos e vivemos. Ele conclama, enfim, que sejamos mais que os normais. Menos bestas, mais bestiais. Mas sem sermos geniais, pois, como ele disse em conversa na aula passada, os gênios não existem.

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