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Posts Etiquetados ‘cotidiano’

Não é uma certeza

Vontade de rumar à Rodoviária, olhar o primeiro destino, comprar a passagem e ir embora daqui… E só voltar quando sentir falta. Más já criei tantas raízes aqui, há tantos impeditivos reais que inibem a subversão para uma irrealidade que, hoje, faz mais sentido a mim. E só o faz simplesmente porque é uma outra possibilidade, não por ser uma certeza. Na verdade, se fosse uma certeza, não seria uma opção. Pois o que agrada não é o certo ou o real, é a possibilidade, a expectativa, a esperança.

Mas meu desejo de sair, ver coisas, conhecer lugares, cores, cheiros, sabores, luta fortemente contra a compulsória inércia de minha atualidade. As dificuldades materiais, as escolhas realizadas, os caminhos que me trouxeram até o que não sou hoje insistem em pesar contra qualquer mudança. Apenas sobra a inveja e a impossibilidade de assimilar o sucesso dos outros; o próprio fracasso.

A música instrumental se repete centenas de vezes no computador, como as horas, que se repetem em dias, semanas… inertes. A levada de cordas de violão e guitarras, sem batida, é harmoniosa e, ao mesmo tempo, marcial, insistente, como os acontecimentos da vida que parecem se repetir como uma farsa, um engodo, sem motivo para comemorar.

A espera de um fim de semana que amenize a solidão intelectual e me faça esquecer do vazio diário dos já distantes dias úteis. Até que chega o dia em que se percebe que tudo que faz, come, bebe, se diverte ou se ocupa é uma fuga de uma realidade imóvel e não desejada. Lá se vai a certeza passear em outros campos, deixando a dúvida em seu lugar.

A música se aproxima do seu fim, mais uma vez. Um som angelical de teclado toca fundo a alma, alegra e entristece ao mesmo tempo, mas não aplaca a dor e as lágrimas que brotam de um beco sem saída, ou da penumbra de um quarto. A única certeza é a repetição deste minuto no minuto seguinte, com a incerteza certa de uma resposta aguardada, adiada, abandonada. E o que fica é apenas uma vontade grande, intangível, incomensurável, ainda maior que a frustração de uma vida que abandonou a si própria; cansou de si mesma.

14.03.2012

PS: Recomenda-se ler o texto ao som de “O Passeio da Boa Vista”, da Legião Urbana, canção ouvida durante a concepção destas mal traçadas linhas.

PT e a Social-Democracia – Parte IX – Final

E para encerrar a publicação do livro-ensaio “O PT e a Social-Democracia: de um programa de ruptura à administração do capitalismo”, escrito por mim em 2004 como trabalho de conclusão do curso de Jornalismo – saiba mais sobre esse projeto clicando aqui –, publico dois anexos que acho interessantes, pois são relatos de um encontro do PT em Mogi das Cruzes que teve a presença de José Genoino, que mandava muito a época, em uma reunião que declarava interferência do diretório nacional do PT sobre a escolha do candidato do partido na cidade. Mostra bem como o PT atua de forma ditatorial dentro de suas entranhas para impor os interesses do grupo majoritário.

O outro texto é um relato sobre os meus dias em Brasília, quando tive a oportunidade de entrevistar algumas pessoas, conhecer outras e tomar vários “nãos”  É bacana para conhecer um pouco dos bastidores da produção jornalística e me lembra com satisfação e nostalgia daqueles três dias assustadores na capital federal. Boa leitura e fim de papo sobre o PT. Foi um prazer trazer esse assunto à tona e espero que ajude as pessoas a entender melhor o contexto que envolve o partido e a ter discernimento na hora de votar ou mesmo de cobrar os seus eleitos. E que a gente possa fazer algo para realmente mudar esse estado de coisas, que melhorou um pouco, mas, como o livro mostrou, preferiu-se administrar o capitalismo e ceder às suas ordens do que buscar uma nova alternativa e lutar por ela. Até a próxima!

Anexo 04: Mogi das Cruzes[1]

 

Para entender a questão das alianças dentro do PT, como em um partido qualquer, mostraremos um caso a seguir ocorrido no PT de Mogi das Cruzes, região metropolitana de São Paulo, que pretendia lançar candidatura própria na cidade, mas foi impedida pelo Diretório Nacional do partido, na pessoa do Presidente Nacional do PT, José Genoino Neto, para dar lugar a uma aliança PT-PL, solicitada por este segundo partido, que é aliado nacional do PT e tem no presidente da legenda, Waldemar da Costa Neto, um morador de Mogi das Cruzes, com interesse na eleição de um representante do PL.

Ele alegou à época que cedeu três capitais (Porto Alegre, São Paulo e Recife) para o PT e desejava uma compensação com o apoio do PT ao PL em Mogi. “Abri mão de muita coisa em respeito á aliança nacional que temos com o PT. Em Porto Alegre, por exemplo, o Diretório Municipal queria ir com o PDT, mas eu interferi para que fechássemos com o PT, desconsiderando, inclusive um apelo pessoal de Leonel Brizola”, disse Costa Neto para o Diário de Mogi.

No dia 22 de junho, o jornal Diário de Mogi publicou uma reportagem de nome “PT nacional insiste em aliança”, que dá conta sobre uma resolução do PT nacional recomendando que o Diretório Municipal do PT de Mogi das Cruzes fizesse a aliança com o PL, retirando a candidatura própria do sindicalista Iduigues Ferreira Martins, que havia sido confirmada na convenção municipal do domingo anterior (20). Pedia também que o PT local conversasse com seus aliados PV, PC do B e PSB para unir forças junto ao PL. No dia 19 Genoino já tinha ido até Mogi para fazer um apelo aos petistas da região que desistissem da candidatura própria, movendo forças para eleger o deputado estadual Luís Carlos Gondim, do PL, para prefeito.

A resolução citada foi lançada após a reunião ocorrida na segunda (21) na sede da Executiva nacional, na Sé, região central de São Paulo, em que estipulou-se que uma comissão especial seria criada para acompanhar a aliança com o PL em Mogi, formada por: Genoino, pelo líder do PT na Câmara Federal, Arlindo Chinaglia, pelo secretário nacional de Formação Política, Joaquim Soriano e pelo secretário nacional de Mobilização, Francisco Campos.

Leia abaixo a “Resolução da Comissão Executiva Nacional” na íntegra, publicada no Diário de Mogi em 22/06/2004.

“A Executiva Nacional do Partido dos Trabalhadores (PT) decide:

1 – O Diretório Municipal do PT de Mogi das Cruzes deve fazer aliança com o Partido Liberal (PL), retirando a candidatura própria e abrir entendimentos com o PV, PC do B e PSB para compor a coligação com o PL.

2 – Propor a realização de uma plenária municipal do PT para encaminhar a posição da Executiva nacional.

3 – A Executiva Nacional através de uma comissão instituída no dia de hoje acompanhará a implementação desta resolução.

4 – A tática eleitoral em Mogi das Cruzes está sob responsabilidade da Executiva Nacional para todos os encaminhamentos.

São Paulo, 21 de junho de 2004.

Comissão Executiva Nacional do Partido dos Trabalhadores”

Em entrevista publicada no Diário de Mogi em 23 de junho de 2004, Genoino diz que a resolução “é uma decisão política para o fortalecimento do Partido dos Trabalhadores”. Ele leva em consideração o apoio do PL em cidade “muito importantes” como as colocadas acima e outras como Guarulhos e Araraquara e por isso, recomenda que o PT se alie ao PL. “Precisamos reconhecer o apoio que recebemos do Valdemar (Costa Neto) em outras cidades. O deputado fez um grande esforço para convencer seus correligionários a abrir mão de suas pretensões pessoais para compor e ajudar o Partido dos Trabalhadores. Agora é a nossa vez de retribuir. A política é assim.”, afirmou.

Genoino chega a colocar na entrevista que essa aliança não enfraquece o Tt, pois pode fazer uma “ampla chapa de esquerda”, para derrotar o PSDB que hoje governa a cidade”. “Precisamos superar certas divergências em nome da tática nacional adotada pelo Partido dos Trabalhadores, que governa o Brasil”, reforçou. O repórter perguntou se havia alguma possibilidade de intervenção no PT de Mogi, caso o diretório municipal não acate as recomendações do Diretório Nacional, eis que Genoino respondeu: “Nada é impossível, embora a questão não esteja posta na agenda. Vou lutar até o último minuto para viabilizar a aliança com o PL. Iremos esgotar as vias amigáveis e, antes que elas cheguem ao fim, aposto no bom senso do PT de Mogi das Cruzes e no apoio do Diretório Municipal à nossa tática nacional”, concluiu.

Já Iduigues Ferreira Martins, candidato pelo PT em Mogi das Cruzes, considerou não abrir mão de sua candidatura para favorecer o PL, alegando que o pleito foi conquistado de “forma democrática, como manda o Estatuto do partido”. Iduigues afirma que Mogi também é importante e questiona a relevância do PL para a vitória nas eleições. Iduigues não acreditava numa possível intervenção, principalmente após as reuniões com a Comissão Executiva Nacional e a posição reforçada dos correligionários de Mogi contra a aliança.

“Não há como decretar intervenção sem desrespeitar o Estatuto do Partido. Essa possibilidade só pode acontecer caso não se cumpram as regras internas e nós a cumprimos rigorosamente,”  falou,a creditando na sua força de segurar o diretório local nessa oposição á direção nacional: “Claro que tenho força. Já defendi minha posição na frente do próprio presidente do partido, no sábado passado, e vencemos por unanimidade”, encerrou.

No dia seguinte (24/06) a matéria “PT quer convencer filiados” aparece o deputado federal Ivan Valente a criticar uma possível intervenção no PT de Mogi das Cruzes. “Caso ocorra uma intervenção, o Genoino estará estuprando o Estatuto do Partido dos Trabalhadores. Será uma violação á soberania da cidade”, disse. Valente concordou com a posição do diretório municipal em resistir a pressão: “A relação que eles querem impor em Mogi é puramente fisiológica. O ‘seu’ Valdemar Costa Neto é malufista e não merece crédito”, afirmou. A presidente municipal do partido, Ana Maria de Paula, disse à época que resistiria ao assédio, creditando a culpa a Costa Neto e não a Genoino: “Esse negócio de querer impor sua vontade goela abaixo dos outros é um jeito ultrapassado de fazer política. Vamos lutar até onde tivermos forças”, bradou.

Na matéria “Novo não. E Genoino deve intervir” publicada em 27 de junho (domingo) abordava a plenária ocorrida no dia anterior em Mogi para decidir a questão. Os 150 filiados ratificaram a decisão do diretório municipal, mesmo com Genoino presente tentando convencê-los do contrário, alegando que a questão das alianças é resolvida pelo PT de forma nacional: “É preciso compreender que o PL está nos apoiando em 22 capitais de Estado onde somos cabeça de chapa. Portanto, é legítimo que eles queiram algo em troca. Peço esse sacrifício para vocês, olhando olho no olho”, discursou.

O jornalista que vos escreve esteve presente a plenária e viu um Genoino muito vaiado em diversas passagens, com a platéia indignada e criticando a aliança com o Costa Neto, “cuja família domina esta cidade há mais de quatro décadas”, como disse a presidente municipal Ana Maria de Paula. O debate esquentou com as críticas de Ivan Valente e os argumentos políticos de Genoino sobre a discussão ser em torno apenas de projetos, idéias e objetivos. Iduigues criticou a decisão do PT nacional a respeito, dizendo: “Genoino, respeito muito a sua biografia. Admiro a sua luta no combate à ditadura e suas prisões em nome da democracia. Lembre-se entretanto, que as suas digitais ficarão impressas nesse golpe que o partido vai sofrer caso haja intervenção”, lamentou.

Não deu outra. Na matéria publicada em 29 de junho (terça-feira)o Diário de Mogi fala da intervenção executada pelo PT nacional em Mogi das Cruzes. A Executiva Nacional se reuniu no dia anterior e decidiu, por 10 votos a 2, que o PT local desista da candidatura própria e se alie ao PL. Genoino declara à reportagem do jornal que a decisão faz parte de um acordo entre os partidos: “Apesar de uma divergência com o Diretório Municipal em Mogi, nós fizemos reuniões para que os companheiros fizessem o acordo com o PL. Como isso não foi possível, a Executiva tomou essa decisão e vai tomar todas as medidas estatutárias para apoiar o PL”.

A resolução apresentada pela Executiva apela para o artigo 147 do Estatuto do PT, que garante às instâncias superiores anular os resultados e atos deliberados nas convenções. Isso porque, a decisão do referendo de Mogi à candidatura de Iduigues foi feito no dia 20. No dia 1º de julho saiu uma nota no Diário de Mogi que traz o advogado do Diretório Estadual do PT em São Paulo, reafirmando essa postura, já que Iduigues havia dito no dia anterior que sua candidatura estava mantida. O advogado Hélio Silveira enviou uma retificação de ata à Justiça eleitoral para retirar a candidatura de Iduigues e colocar no lugar a aliança com o PL: “Já está tudo acertado e não há mais o que falar. O PT de Mogi vai se coligar com o PL porque assim decidiu a direção nacional do partido”, justificou. Quanto as punições aos membros do diretório mogiano por tentarem manter suas posições, Silveira explicou: A senhora Ana Paula e o senhor Iduigues irão arcar com as conseqüências desse ato. Quais conseqüências? Serão desautorizados”, encerrou.

Anexo 05: Relatos de Brasília[2]

A viagem só foi confirmada na sexta-feira dia 10, com alterações nos horários das entrevistas: dia 14 às 11h00, com o deputado Babá e no dia 15 às 12h00, com a deputada Luciana Genro. Eram essas únicas confirmações, além das promessas de assessores para falar com a senadora Heloísa Helena e com o senador Eduardo Suplicy. Dia 13 é a data da viagem. Depois de trabalhar o dia todo com a cabeça longe, preocupado em o que perguntar aos entrevistados, bate 16h00 no relógio. É hora de partir para a rodoviária.

Minha mãe aguarda na rodoviária do Tietê para entregar as malas e me acompanhar até o ponto de partida. A expectativa toma conta e às 17h30 o ônibus parte. Uma alegria imensa toma conta de mim em meio ao trânsito da Marginal Tietê. Durante a viagem, leituras para me interar do assunto, além de aprontar a pauta da primeira entrevista numa folha de caderno, entre os solavancos das estradas brasileiras. Por sorte a poltrona vizinha estava solitária e tive um pouco mais de “folga”.

Um cheiro terrível vinha do banheiro do ônibus e impedia a concentração e o sono, mas tudo bem, o céu está repleto de estrelas… Após 14 horas de viagem e três paradas em Pirassununga (SP), Uberaba (MG) e Catalão (GO) chegamos em Brasília (DF) com uma ansiedade enorme saída pela minha boca. Por sorte uma amiga mineira que mora na cidade me buscou na “Rodoferroviária” (o local possui este nome pois abriga também uma ferroviária, esta, abandonada) e me levou a pensão de Dona Ira, uma senhora muito simpática, que me acolheu por três dias em sua casa. Após banho, café da manhã e troca de roupa eu estava transformado: Do jeans, da blusa de moletom e do tênis ficaram a  calça e camisa sociais, blazer e gravata, todos pretos.

Eram 10h00 quando resolvi me encaminhar até a Esplanada dos Ministérios. Sem problemas para achar o ônibus, a dificuldade foi encontrar o Anexo III, onde está localizado o gabinete do deputado Babá, o primeiro da lista. São vários prédios e anexos, o que dificulta localizá-lo. Cheguei no gabinete cedo e me pediram para aguardar um instante. “Pode entrar”, disse Flaviana, uma das secretarias. Encontro Silvia, a assessora mais próxima do deputado e o próprio, de camisa azul clara e indefectível bigode. Silvia nos deixa a sós e assim, fico frente a frente com o homem.

Um início tímido: algumas palavras e olhar sério dele e começamos, enfim. A conversa fluiu em mais de uma hora, com Babá muito solícito e falante, respondendo a todos os questionamentos, abordando a história do partido, foi um daqueles bate-papos longos e gostosos, com o interlocutor falando e o receptor apreciando as informações ouvidas. Após esse tempo todo a assessora Silvia aparece e pede para encerrarmos, peço mais 15 minutos. Ela faz cara feia, eu peço 10 e ela autoriza. Voltamos a entrevista, faço mais umas três perguntas e dou a conversa por encerrada. “Tem mais pergunta aí?”, diz Babá, olhando para o meu caderno de anotações. “Até tem algumas aqui”, respondo timidamente. “Pois então faça rapaz”, ordena Babá. Com isso, ficamos mais uns 10 minutos além do tempo permitido e mais umas 5 perguntas foram realizadas e a entrevista termina num clima amistoso. Saí de lá com a sensação de dever cumprido. Mas a batalha apenas começava.

Babá informou de uma reunião de setores de esquerda da CUT e outros movimentos sindicais, para debater as reformas sindicais e universitárias. Eu estava morrendo de fome, sem lugar para comer na Esplanada (só fui descobrir uma lanchonete no Senado Federal no 2º dia) e rumei para o auditório. Liguei para Antônio Jacinto, um dos assessores da senadora Heloísa que me confirmou que ela estaria lá. Antes, falei com Rosa, assessora do senador Suplicy, para ver a possibilidade de uma entrevista: “Vem aqui lá pelas 14h30 que ele deve passar por aqui nesse horário”, afirmou. Cheguei ao auditório e vi Babá, Genro, José Maria e Ivan Valente (“minha chance”, pensei), mas nada de Heloísa. Confundi-a com uma mulher, mas deu tempo de evitar a gafe de chamá-la.

Assisti o debate por uma hora, até me cansar e ver valente sair. Dirigi-me até ele que me atendeu, dizendo, porém, ser impossível falar naquele momento, pedindo para conversar com a assessoria que talvez arrumassem um horário à noite. Já estava perdido mesmo resolvi conversar com o Zé Maria, que estava sentado numa ponta do salão, prestando atenção no discurso dos sindicalistas. Ele aceitou conceder uma entrevista e assim, trocamos telefones e marcamos a conversa posterior para São Paulo. Ufa! Algo positivo, enfim.

Heloísa não apareceu na reunião e resolvi ir atrás do Suplicy. Depois de esperar uma hora o senador apareceu: sujeito alto e sério avistando no corredor. O interceptei antes que entrasse, pois tinha reunião com uns senhores que entraram logo antes dele. Expliquei o que desejava e ele nem sabia que eu existia, pois a assessora dele, Rosa Wasem, não teve tempo de falar sobre meu trabalho: “Não consigo falar com ele desde hoje cedo”, desculpou-se. Ele aceitou conversar, mas não naquele momento, pois ele tinha compromisso no Congresso e no dia seguinte viajaria à Barcelona, podendo dar certeza de conversa no dia 27, após sua volta de viagem (fiz contato por telefone duas vezes, sem retorno de contato): “Mesmo assim, passe aqui amanhã à tarde que a gente tenta ver um horário”, disse o senador.

Feito isso resolvi passar no gabinete da senadora Heloísa para deixar algum recado para seu assessor. Passei também na liderança do Governo no Senado que era ao lado para tentar falar com o senador Mercadante. Recebi um atencioso “te ligo amanhã” de um de seus assessores, o Fábio Gramer, e me retirei daquele lugar repleto de jornalistas sentados no chão em meio a câmeras e luzes, aguardando alguma “bomba” vinda do governo naquele período morno de esforço concentrado no Congresso Nacional em que nada acontecia, nenhum projeto polêmico era votado (era época da votação da Lei de Biossegurança que tratava dos transgênicos e foi adiada na época por falta de quórum).

Na volta dei de cara com a senadora Heloísa: “Será que é ela mesmo?”, desacreditei. Com uma blusa branca e curta, calça jeans e tênis e rabo de cavalo no cabelo… só podia ser ela! Heloísa estava ao celular e conversava, eu dei um “olá” para ela e resolvi acompanhá-la na caminhada. Quando ela desligou eu me apresentei e pedi uma conversa, prontamente respondido por ela: “Me liga neste celular aqui que eu retorno para você a ligação. Mas deixa recado que aí eu retorno”, falou. Saí feliz de lá, apesar da fome, eram 16h00. Passei na Casa Civil para tentar conversar com o assessor Ralph Lima que negou uma entrevista com o ministro José Dirceu, mas fui impedido de entrar no local. “Ele está numa reunião e como você não tem horário marcado ele não vai falar com você”, respondeu um dos cinco brutamontes que fica na porta, após entrar em contato com a sala do assessor.

Resolvi sentar num banco atrás da Esplanada e aguardar o horário de tentar uma entrevista com o deputado Valente, como seu assessor Marcos havia me dito por telefone. O Sol batia forte àquela hora e eu me sentia morto de cansaço, faminto, mas feliz. Fui até o gabinete de Valente, mas nada obtive de positivo: “Passa amanhã que talvez consigamos um espaço na agenda, mas ele viaja amanhã a tarde, vai ser difícil”, reconheceu o assessor. Fim do dia, hora de voltar para a pensão.

Segundo Dia. Resolvi ler o jornal Correio Braziliense do dia e fiquei aprontando a pauta de entrevista com Luciana Genro, pois o dia já me parecia folgado. Acabei chegando atrasado na entrevista com a deputada. A entrevista transcorreu tranqüilamente, com toda a normalidade desejável. Mesmo assim, talvez por eu não ter acordado bem, não estava num bom dia, só sei que não me sentia à vontade como no dia anterior. Mesmo assim, a deputada propiciou falas importantes ao meu trabalho.

Saí de lá sem chance de falar com Valente e Suplicy, pois ambos estariam para viajar e não teriam tempo para uma entrevista. Resolvi ligar para as assessorias de Heloísa e Mercadante, mas, na primeira o assessor José Antônio alegou problemas pessoais da senadora e o segundo assessor alegou “agenda lotada” de Mercadante, passando o contato de São Paulo para tentar um possível contato com sua assessoria paulistana (fiz também dois contatos, sem sucesso no retorno). No meio disso tudo passava pelas plenária da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, onde percebemos quem governa para quem.

Já sem muito espaço e entusiasmo o dia acabou só restava esperar a quinta-feira à noite para pegar o ônibus rumo de volta à São Paulo. Já sem esperança alguma na quinta, recebi novos “não” das assessorias, resolvi conhecer o shopping e a catedral locais e juntar material par ao livro, já que estava sem dinheiro até para almoçar. Era o fim da jornada à Brasília, repleta de alegrias, frustrações e resignações, como é a profissão de jornalista, satisfatória, no final das contas.


[1] Este relato sobre o processo de intervenção da Executiva Nacional do PT sobre o diretório municipal do PT de Mogi das Cruzes serve como compreensão da tática eleitoral do PT nacional e suas atitudes em prol de seu projeto político.

[2] Este relato é um lazer no meio de um livro teórico e serve como Diário de Bordo de Brasília, bem como perceber a tentativa de contato com parlamentares no Congresso Nacional. O texto faz parte, também, da compreensão de como é o jornalismo, razão deste trabalho.

Glauco, Geraldão e nossa desumanidade

Como você pode ver, caro leitor, esta semana dei folga para o blog. Falta de assunto, indisposição para escrever e muito trabalho no mestrado foram algumas das razões para este breve hiato.

Mas há pouco tive uma vontade súbita de escrever. Pena que a motivação é inversa à razão desse post. Hoje morreu o cartunista Glauco, autor de várias tirinhas da Folha de S. Paulo, onde ficou mais conhecido pelo público em geral, com Geraldão, Geraldinho, Casal Neura, Dona Marta, Netão, Zé do Apocalipse, e muitos outros. Se destacou ao lado de Laerte e Angeli no conturbado período de abertura política do Brasil, vivendo resquícios de ditadura e de censura, mas soube driblar tudo isso com um humor crítico, inteligente e sagaz.

Não posso ir além. O que está acima eu li hoje na internet. A verdade é que nunca fui muito ligado em ler quadrinhos (mesmo gostando de muitos personagens) e como eu parei há tempos de ler o jornal em seu estado físico, deixei de acompanhar as tradicionais tirinhas dos jornais. Mas conhecia a maioria dos personagens do Glauco. E os adorava. Todos têm um traço (único do Glauco) que remete na minha cabeça os anos 80, e, consequentemente, à minha infância. Mas achava meio absurdo o Geraldão com tudo aquilo nas mãos, cabeça, até pés – minha racionalidade me impede muitas vezes de ver a beleza no absurdo, na poesia, é terível, eu sei. Mesmo assim, gostava demais quando tinha a oportunidade de ler.

Acontece que pelo meu desinteresse crônico por quadrinhos fez com que eu nunca me preocupasse a quem era o autor daquilo. Devo ter visto aqui e ali, mas nunca guardei o nome. Desafortunadamente, hoje descobri quem é. Era. De uma forma trágica, péssima. A morte de Glauco, da maneira estúpida como foi, seja por uma tentativa frustrada de sequestro, assalto ou por uma morte imbecil causada por um conhecido da família, apenas revela a forma futil e desprezível com que nós tratamos nossa própria humanidade, há muito transformada em desumanidade.

A cada hora que passa deste dia 12 de março a ficha vai caindo, caindo, caindo… E tudo vai desabando… Ficando mais feio, triste, chato.

Tudo o que dá neste momento é para prestar homenagens a um grande cartunista, que alegrou milhares de pessoas, sem deixar de criticar o que lhe incomodava, de forma leve, sutil, alegre. E desejar, mais uma vez, que nosso desapego por nós mesmos e pelo próximo seja substituído, algum dia, por alguma coisa que deixamos perdido em algum buraco do tempo.

Vale a pena visitar o Blog Universo HQ, que faz uma homenagem linda, tocando e emocionante. Para ver, clique aqui.

O site do Glauco também é uma forma de conhecer mais seu trabalho e rir um pouco com sseus personagens eternizados por seus desenhos. Clique aqui.

A luta não mais continua, companheiros

Aqui vai um conto escrito em 2003, na redação do curso de jornalismo da Unicsul, escrito à toque de caixa, pois foi solicitado para ser entregue na mesma aula. Ou seja, 50 minutos para escrever um conto relacionando com algum autor ou obra favoritos. Já na época eu não lia quase nada e só me veio à cabeça Karl Marx e seu “Manifesto Comunista”, feito em parceria com Friedrich Engels. Portanto, peço a gentileza que relevem prováveis erros infantis. Mas vale pelo fervor juvenil, inexistente nos dias de hoje, talvez por causa ddessa desesperança de que trata o próprio conto, escrito já há sete anos. Boa leitura e até a próxima.

Ele caminha desolado por entre as ruas. Parece não acreditar em tudo que seus saltados olhos vêem. Os pingos batem em seu casaco preto e surrado, fazendo pesar a roupa permeável. De repente um susto. Algo passa apressado, quase a derrubá-lo. Era um garoto entregador de frangos que estava atrasado em sua missão. O bom velhinho não entendia o porquê de tanta pressa. Mesmo que temesse que um dia isso viria a acontecer, não imaginava que seria tão devastador.

Após duas horas caminhando comigo pela cidade, vagando totalmente sem destino pelos becos, favelas, bolsas de valores, centros empresariais, e tudo o mais que significava a vitória–derrota acachapante do capitalismo canibalesco, ele parou. Avistou um grupo de meninos nus, saindo de um barraco feito de madeira velha e podre. Olhou em volta e avistou putas, padres, bêbados, comerciantes e táxis. Inclinou sua cabeça para o chão e fez sinal de negativo com a mesma. De repente disse: “porque aceitei este convite?”. Nosso autor se referia a minha solicitação para trazê-lo de seu profundo, clássico e tranqüilo descanso para conferir o que acontecia depois de quase duzentos anos de luta por uma vida mais justa e igualitária. “É o fim”, dizia ele. “E eu que pensei que o capitalismo teria fim um dia, derrotado pelo socialismo, que faria a transição para um sistema único e para todos, estou vendo exatamente o contrário: o triunfo do capital sobre as pessoas”.

Finalmente Karl Marx sentia, depois de mais de um século, o fracasso. Nada do que escrevera antes, nem o “Manifesto Comunista”, com seu amigo Engels, nem com a Gazeta Renana, jornal onde relatou suas opiniões e posições durante anos. Muito menos sua principal obra, “O Capital”, em que a crítica, embasada em argumentos claros e transparentes deixava urgente a necessidade de uma atitude que alterasse o quadro tenebroso que ele vivia na época e que, na entrada do novo milênio ele não imaginava encontrar. Nem a Revolução Russa com Lênin, nem Cuba com Che Guevara, nem nada que se tentou após a vida de Marx resultou em pleno êxito. Agora tudo se baseia no neoliberalismo, na abertura de das economias, no lucro levado as últimas conseqüências, na mais-valia, detectada por nosso pensador, como a fonte para a desigualdade de renda e exploração de mão de obra. Os meios de produção totalmente nas mãos de quem ele sempre combateu, com teses que servem de base até hoje na História da Humanidade.

Apesar de muitos chamarem-no de ultrapassado, velho e arcaico, suas idéias ainda fervilham nos pensamentos de muitos admiradores de seus escritos. O problema é, como mostrou-se ao autor, que seus “seguidores” se perderam em seus textos e esqueceram de agir, se perdendo em palavras e situações inúteis, destruindo toda a possibilidade de um caminho melhor, contra aquilo que se criou com Hayek e seu livro, “O Caminho da Servidão”. O definitivo socialismo científico criado por Marx não mais satisfaz os hipócritas social-democratas que não desejam perder de vista seu capital. Os atuais esquerdistas se perdem na corrupção conservadora da direita, e calam-se ou enturmam-se com as conspirações vindas da burguesia. Quem pretende mudar comove-se com tudo que vê, mas nada faz para alterar esse modus vivendi.

Para Marx restaram as lágrimas e o pessimismo, a constatação da deturpação de tudo que ele criara e direcionara no passado. Foi a verificação de um fim para aquilo que convencionou chamar de marxismo. O começo do fim está nas mãos do capitalismo neo liberal-canibal, que está fazendo bem o trabalho, quebrando todas as correntes de resistência. Muito diferente do que Marx idealizou na “ditadura do proletariado”, onde o povo tomaria o poder e mandaria nas ações e rumos do governo. Sem políticos escabrosos, nem empresários oportunistas, apenas o povo e sua comuna, como em um mês de 1848 em Paris. Mas isso tudo era longínquo e efêmero em demasia, como sua estada, que chegara ao fim. A contemplação do fracasso da humanidade que amargara Marx profundamente neste dia, encerrava-se. Chegara a hora de partir de volta para casa. O momento era de despedida e desprendimento, mas com uma ponta de esperança. Talvez, um dia, isso chegue a tal ponto destrutivo, que as pessoas poderiam pensar em viver para si no todo e não somente para si e seu lucro.

Cartas

Aqui vai um conto meia boca escrito, acho, que em 2006. Não revisei,  nem o li por completo, vai como foi concebido à época, um período distante…

Cartas

Quando o medo aprisiona a mente de um louco…

Esta era a décima carta que Maurício das Flores escrevia para algum amigo distante com quem havia perdido o contato. Mais folhas eram escritas a esmo, já que ele não tinha a menor pretensão de enviá-las. Tinha medo. Engraçado, pois o medo da solidão o fazia passar horas na internet enviando emails, conversando com pessoas desconhecidas nos bate-papos da vida, sem falar nas já citadas cartas. Tudo feito para espantar a frígida escuridão que, à noite, enegrecia a janela de sua casa.

E era esse mesmo medo, agora apontado para outro lado, que o fazia não enviar as cartas a seus amigos mais íntimos, com quem desenrolou anos de amizade e cumplicidade. Esse outro lado era a simples vergonha de se expor e alguém rir de algum pensamento ou palavra má colocada, das lágrimas borradas nas letras azul-bic. Anos e anos de vivência e agora isto, o medo. Simples, único, presente, forte, machucando cada centímetro do coração e da mente do escritor de cartas, como um vento cortante que fere o fraco sistema imunológico de alguém gripado.

Seu pequeno quarto é o ambiente em que permanece quase a totalidade do tempo. Uma cama de solteiro no canto esquerdo, a escrivaninha no lado oposto, defronte da janela, para poder observar as árvores, pássaros, pessoas, carros, passando pela rua onde mora. No sentido da porta, uma televisão 14 polegadas velha e um cômodo de quatro gavetas para guardar suas roupas surradas pelo tempo e não substituídas pela falta de dinheiro. Acima do cômodo um som com tocador de CD, já um tanto fora de moda perante a atual tecnologia de mp3 e ipod.

Mas é na escrivaninha de madeira que escrevia suas cartas para afastar o tédio dos dias longos e o medo das noites intermináveis. Madeira maciça, velha, caindo aos pedaços e, mesmo assim, recebia o peso do microcomputador. Este era de bom porte, claro, afinal, é sua principal ferramenta de trabalho, além de sua mente para pensar e mãos para digitar no teclado as idéias. E o micro precisa de uma capacidade adequada para agüentar as quase 168 horas semanais ligado ininterruptamente. Sim, pois das 24 horas de cada dia, Maurício fica acordado pelo menos 18 horas. Vai dormir apenas às 6 da manhã, para acordar lá pelas 11, meio-dia no máximo.

Ah, esqueci de contar: ele é escritor, aposentado forçosamente devido à sua pouca adequação ao mercado. Na verdade, ele nunca teve nada publicado, que lhe frustra até os dias de hoje. Deu aulas durante alguns anos, até ser aposentado por invalidez, aos 30, quando sofreu uma série de crises nervosas que quase o mataram. Hoje, aos 35 anos, vive do resto do INSS e de alguns bicos de tradutor e revisor que costuma fazer em casa. Sua saúde está em farrapos, debilitada por problemas respiratórios que degeneram seu organismo.

Apesar de tudo isso, “seu Flores”, como o jornaleiro costuma chamá-lo, gosta de acompanhar o noticiário pelo rádio e televisão, apesar de não ler jornais, “para não perder a paciência com as mentiras que eles publicam”, resmunga sempre, com razão. Livros, ele tem poucos, até pela pouca verba, mas já leu bem mais que hoje, quando tinha vontade e vigor físico de sair de casa em direção à biblioteca situada na região central da cidade.

Mas seu convívio mesmo é com os escritos políticos, poéticos, sobre o cotidiano, além das cartas… Ah, essas cartas já tomam um espaço significativo no seu quarto: desde quando se aposentou juntou duas caixas de sapato com folhas escritas para os poucos parentes distantes que possui, amigos, ex-namoradas, colegas da internet, pessoas por quem se apaixonava, mas nunca tinha coragem de dizer. Enfim, as cartas tomavam um longo tempo de sua parca vida.

E ele tinha medo. Medo de alguém ler aqueles textos pessoais demais para serem enviados a alguém. Ali, toda a sua decepção em relação ao mundo, a dor de viver em solidão por tanto tempo, o reclame das visitas cada vez mais exíguas de seus amigos, o amor que deixou de sentir há muito e ainda o preocupa, etc. Tudo que envolvia seus sentimentos era tema das cartas.

Mas ele tinha medo. O medo nada mais era do que confirmar a frustração de sua vida não ter um sentido (que tão poucos buscam para si, pois preferem saborear a monotonia do dia-a-dia), não ter valido a pena, não ter feito tudo o que desejava fazer, transformar o que desejava, amar e ser amado como ele sempre viu nos cinemas. Comédias românticas que só servem para iludir a cabeça dos jovens a acreditar que no fim das contas a mocinha da história vai aceitá-los e ambos viverão juntos e felizes para sempre.

Esse tipo de ficção devia ser banido da humanidade, ponderava ele, apesar de que, em cada ato vivido nas telonas, em cada personagem com problemas de relacionamento e, por conseqüência, solitário no seu caminho, Maurício sempre viu um pouco de si. Talvez por isso, ele dizia aquele tipo de coisa, pois, apesar de tudo, gostava de ver que, ao menos no filme, o rapaz que tinha um pouco de seu temperamento alcançava o objetivo e ficava com a garota.

Medo. Sempre presente, desde a infância, quando evitou a todo custo andar de skate em pé, já que sua mãe dizia ser “perigoso demais”. Medo na adolescência, de chamar as meninas para sair, de ser motivo de chacota dos colegas de sala, de sair para beber e fazer alguma bobagem, afinal, não tinha muito controle (e nem queria ter) frente à bebida. Medo no primeiro emprego, de conversar com os outros, de errar em alguma atividade. Até medo de morrer ele já tivera.

Mas agora, frente a seu estado de saúde definhando, nem ligava mais para isso. Nem mais medo de perder seu amor, quando foi abandonado e sentiu o gosto amargo de ter sido preterido, nojo que nunca deixou sua boca, seu corpo, sua alma. E nesse momento, do que poderia ter medo? Não era mais criança para ser ameaçado pelas barras da saia da mãe, não era mais jovem para ser motivo de chacota da sala nem de sair com as meninas ou beber, já que este último nem podia mais. Não trabalhava e só esperava o tempo que os problemas respiratórios agravassem. Então, o que temer?

“Tudo”, pensava Maurício. De ser motivo de chacota dos vizinhos do prédio, dos conhecidos e amigos da internet, de alguém desprovido de bom senso que fosse até a casa dele e visse seu estado deplorável. Das cartas. Sim, ele tinha medo das cartas. Na verdade a culpa não era delas, mas sim do que ele expôs ali. Sua vida estava escrita naquelas páginas – algumas até amareladas pelo tempo – como se fossem uma autobiografia. Nem a escuridão o atormentava mais. Apenas a solidão o afetava mais que o medo de suas cartas.

Talvez por isso que, um dia, Maurício resolveu enfrentar o problema e foi até a caixa de sapatos. Estava disposto a pegar carta por carta, folha por folha, e lê-las todas, com o objetivo de enviar aos seus devidos destinatários. A idéia fixa já estava na mente dele e nada poderia demovê-lo: ia mandar a todos para que seu ego de escritor fosse finalmente realizado. Ele pretendia se matar após a limpeza das caixas, sem antes avisar a todos com uma carta de despedida trágica e lamuriosa sobre suas intenções, para que os amigos, parentes e outros, realizassem, após a sua morte, sua vontade de publicar o conteúdo das correspondências.

E começou. Primeiro foram as cartas endereçadas ao amigo Rafael, que sumira há uns dois anos. Casou, arrumou emprego em outra cidade e esqueceu todo mundo. Olhou aquelas confissões e achou tão fora de propósito que desejou rasgá-las todas, mas sentiu que o motivo histórico do período em que o texto foi escrito o obrigava a mantê-las vivas. Separou todas as cartas do amigo sumido e fez um texto novo, explicando o que se tratava e o motivo daquelas mensagens tão antigas estarem sendo enviadas com tanto atraso.

A próxima da lista foi Marisa, uma ex-namorada com quem só conversava esparsamente pela internet, mas sem assuntos muito profundos. Cartas a ela havia umas doze, todas enraivecidas, logo após o período da separação, quando a moça decidiu seguir seu caminho sozinha. Hoje está casada e nem se importa, como antes, com as opiniões de Maurício. Nosso escritor leu um a um os textos e fez o mesmo procedimento: escreveu uma correspondência nova, contando que havia escrito tudo aquilo em outros tempos, mas que agora não sentia nenhum ódio e que desejava a ela toda a felicidade do mundo, avisando apenas que queria que Marisa guardasse aquele material como parte da lembrança da união dos dois, omitindo, claro, seu objetivo final.

Teve também Adriana, uma velha amiga, daquelas que a pessoa tem mais como irmã do que como amiga. Residente de outro estado, essa foi praticamente a única que Maurício manteve contato, seja por carta ou email, durante todos os últimos e longos 5 anos. O relacionamento de amizade entre ambos nunca foi abalado, mesmo pelo tempo e distância. A falta de comunicação por alguns meses logo era retomada por um dos lados. Mesmo assim, Maurício deixou de enviar vários escritos, no eterno medo de se expor demais, o que no caso era um tanto exagerado. Ambos tinham um amor incondicional pelo outro, que transpassava qualquer barreira egoísta. O respeito e a amizade sempre estiveram acima de tudo entre eles.

E, com explicações e textos antigos, dezenas de colegas, amigos, conhecidos eram presenteados. Mensagens de incentivo, de felicitação por aniversários e outras datas comemorativas, desabafos, confissões, xingamentos, notícias, tudo estava naquelas caixas de sapatos guardados há anos e só agora vinham à tona, já um tanto sem porquê. Até que chegaram as cartas de Alissa. O grande amor da vida de Maurício que nunca foi correspondido. Na verdade, ela nunca soube realmente se ele gostava ou não dela. Eles até tiveram algum contato mais próximo durante a faculdade, mas os caminhos foram rumados a portos diferentes.

Maurício nunca escondeu a frustração de ter perdido algo que nunca teve. Sua falta de ação perante a garota, a timidez, o medo de tomar um “não”, tudo confluiu para o fracasso que ele sempre tentou apagar de sua mente. Porém, naquele segundo, a caixa de sapato mostrava o passado de forma inexorável na sua frente, apontando uma interrogação para o futuro. O medo de enviar e mesmo ler aquelas cartas vinha com maior vigor. Maurício jogou as folhas no chão e foi para a cozinha. Abriu a geladeira e tomou uma garrafa de água gelada quase num gole só. Ao pôr a garrafa em cima da pia sentiu o exagero e tossiu tanto que caiu no chão e quase desmaiou.

Depois de passar algumas horas no sofá da sala, assistindo televisão e evitando o encontro crucial para se libertar de toda aquela dor, Maurício tomou coragem e voltou para o quarto. Já eram onze e meia da noite. E Maurício leu as correspondências de Alissa repletas de borrões, lamentos e paixão. Sim, pois, apesar de todo o recato desse sentimento, o amor que Maurício nutria pela garota era intenso e profundo.

Interessante que, com o passar das páginas, ele começou a ver que tudo aquilo não passava de bobagem e aqueles sentimentos não iriam fazer sentido para Alissa, como já não faziam para ele. Talvez esse conformismo oportunista de jogar para o outro a responsabilidade da ação – ou da falta dela – tenha salvado a vida de Maurício, que resolveu enviar todo o conteúdo para seu amor platônico, mas sem temer a reação dela. Seu medo, por fim, terminara. E, portanto, a razão para o suicídio também. E graças a um ato que aliou a coragem do envio das cartas com uma razão bastante covarde: a de achar tudo aquilo perda de tempo, só para sufocar uma paixão reprimida. Mas enfim, daqui por diante, Maurício pode viver seus últimos dias de vida em paz. Nossa existência é muito irônica mesmo.

Cotidiano de Alguém Sozinho

São onze horas da noite e Júlio se despede de seu último amigo na faculdade, encaminhando-se para o ponto de ônibus, à espera do circular que o levará até sua residência. Ah, que saudades de casa! Depois de trabalhar o dia inteiro em outra cidade e ocupar o tempo noturno com mais trabalhos e reuniões na universidade, agora Júlio se reencontraria com seu descanso: sua acolhedora e confortável cama.

O jovem rapaz sentia-se cada dia mais exausto, com menos forças e ânimo para seguir em frente com seus objetivos. Andava também confuso, é verdade, perdido em pensamentos e amores frustrados. Mas naquela hora tudo que Júlio pensava era em seu simpático beliche, com o colchão de espuma sobre o estrado de madeira velha e barulhenta. Sim, à medida que ele se remexia na cama a madeira “estralava” num ruído chato, irritando seu velho pai no outro quarto. Mas o costume era tanto que só em dias muito irritados para Júlio xingar aquele velho estrado e almejar uma cama de casal em seu pequeno quarto de solteiro.

Após longos minutos aguardando a condução, pois dois coletivos passaram batido pelo ponto, não ligando para o braço estendido do menino, finalmente um ônibus parou para recolhê-lo rumo a seu destino. Momentos dispersos no interior do veículo: reflexões duras sobre o andamento de seus projetos de vida e sérias dúvidas quanto ao amor que desejava atormentavam-lhe a mente enquanto o motorista corria livre pela Avenida São Miguel.

Na descida do ponto final, Júlio lembrou de uma canção que há muito não saia de sua cabeça e que naquele dia a ouvira uma dezena de vezes em seu trabalho, enquanto cumpria suas obrigações no emprego. Era uma música de uma banda que acabou no final da década passada, que falava de sangue, lágrimas, desesperanças, dor, mas no fundo, no fundo, ela retratava o amor, mesmo sendo por uma pessoa que tinha ido embora. Júlio pensou, penou aquela poesia, louco de vontade de chegar em casa e ligar seu antigo som para ouvi-la novamente.

No caminho de casa Júlio reparava nas luzes dos postes de iluminação, nas árvores escurecidas pelo manto negro da noite, os carros passando e ainda as poucas pessoas voltando para suas moradas já próximo da meia-noite. Ele relacionava tudo aquilo com os faróis que a letra da canção sinalizava, com as percepções vazias de um momento que ele mesmo desejava esquecer, mas que não podia evitar de relembrar. Sim, eram velhos momentos de seu coração novamente partido que entoavam forte dentro de sua alma.

Júlio saiu recentemente de uma decepção amorosa e busca no trabalho sua fonte da juventude, para recuperar-se enquanto o mundo parece roubar-lhe o chão. Aquela sagrada música o faz relembrar todos os dias dos tormentos e descaminhos vividos, os enganos, que naquele momento eram bons, o amor dado sem retorno e tudo aquilo que sempre pensou ser real. Até o momento em que tudo se foi no mesmo piscar de olhos que chegou para Júlio, e aquilo que o fazia forte o fez ruir completamente.

O que restou para ele foram a canção e as memórias de sua mente. “Cadê as chaves?”, pensa alto Júlio, enquanto procura o molho de chaves em sua bolsa rasgada. Entra no prédio, olha resignado a cor de salmão ridícula pintada na fachada do condomínio e percebe a Lua límpida e brilhante no céu, vista de longe por uma estrela ou planeta grande. Nem ele sabe o que é, mas acha bonito. Sobe os vinte e quatro lances de escada, até chegar em seu andar. Mas antes, olha pela janela da escada do seu bloco a paisagem bucólica de uma noite comum: prédios escuros, uma favela iluminada ao canto, escuridão e mais escuridão; apenas a Lua a iluminar “qualquer coisa que o valha”, como diz com raiva o rapaz.

Júlio adentra em sua casa. Todos estão dormindo, afinal, era muito tarde e todos acordam cedo em sua casa para trabalhar. De tão cansado, Júlio prefere deixar o banho para quando acordasse. Foi direto à cama, trocando de roupa já deitado e com a colcha em cima de seu corpo cansado. Percebeu que o controle do som estava jogado do outro lado do quarto e xingando aos montes resolveu pegá-lo para ligar o som. O mau humor corroía-lhe a pacata personalidade de alguém que não teve um bom dia.

Aproveitando que estava em pé, pegou o CD com a música e colocou em um volume baixo para não incomodar ninguém. Ouviu em respeitoso silêncio, até a primeira lágrima cair de seus pequeninos olhos pretos. A partir daí Júlio começou a cantar com maior força, até chegar no final da canção que pergunta: “aonde foi o seu coração?” O jovem perguntava para si mesmo o que tinha-lhe acontecido, mas preferia esquecer toda a dor e todas as garotas que amou. Júlio seguia agora seu caminho como sempre vivera, no final das contas, sozinho.

Um olá

Estou pensando em retomar este espaço, após o estrago da correria de fim de ano, as férias de começo de ano e as indefinições dos primeiros dias do ano.

A correria foi por conta da conclusão do relatório de qualificação da USP, finalizado realmente em janeiro com os acertos em um artigo que só conssegui deixar pra fazer em janeiro e a revisão final, após aprovação do orientador. E o sentimento ótimo.

As férias foram proveitosas. Passei a virada de ano em Mongaguá com amigos e depois uma partida para uma semana de descanso e lazer em Ubatuba com minha namorada. Foram ótimos momentos que eu fiquei com saudade e tristeza de tê-los deixados para trás.

E a indefinições dos primeiros dias do ano foram após a viagem, o relatório e a conclusão do último trabalho da última disciplina cursada em 2009, um verdadeiro parto escrever um texto sobre o “18 Brumário de Luis Bonaparte”, do bom e velho Marx. Entra fevereiro e o que resta? Nada, apenas indefinições. Aguardo para os detalhes finais da entrega do relatório, para ser examinado em breve. Enquanto isso, leio coisas chatas, desestimulantes.

As contas e seus preços aumentam, enquanto a verba rareia. Os dias passam e nada de uma renda entrar, sem novidades que indiquem tornar possível concluir meus dois objetivos profissionais para este ano. Tá ficando difícil acreditar. Privações e mais privações, é o que vejo no caminho. Não sei como isso é possível. Mas, no fundo, sempre é posssível chegar mais ao fundo…

Bem, após contar as novidades – algumas boas, muitas ruins – aviso que o espaço poderá ser atualizado com freqüência novamente. Vejamos o que conseguimos com isto aqui. Hasta!

Notas ao vento…

Olá pessoal.

Os dias têm estado atribulados, confusos, por vezes, difíceis. Mas, às vezes, também maravilhosos. Por isso esse vai e volta no blog. Mas hoje vamos às notinhas, pitacando coisas que pinçei na internet há pouco.

- Impressão minha ou hoje fez calor pacas? Esta terça foi corrida, chata, entendiante. Mas tive um momento de raio de sol, de lua cheia, então, acabou sendo um bom dia.

- Da Folha: “A crise econômica deve provocar em 2009 a primeira redução na carga tributária desde 2003, de acordo com previsões da Receita Federal divulgadas nesta terça-feira”. O número alcançou 35,8% do PIB. Enfim, só assim pra cair a carga tributária, né? Mas, afinal de contas, interessa a quem a redução do imposto que pode ir pra melhoras no país? Tá, muito dinheiro é desviado, mas como disse a nosssa ministra Dilma, o Brasil não é um país perfeito. Ironias à parte, se não for pro bolso de alguém, fica na mão de quem já tem, isso porque, quem paga imposto nesse país é o povo, alta tributação inexiste pra quem ganha muito. Então, concluo que esse debate serve só para alimentar jornal.

- Também da Folha: “Mesa do Senado anula 2º ato secreto; diretor diz que 99% devem continuar válidos”. Pô, quanta cretinice! Foram aprovados dezenas de atos secretos, a maioria será liberado, Sarney livrou a cara, vão ferrar só um laranja qualquer, e ainda a imprensa noticia? E ainda o povo finge ligar? Ninguém tá nem aí pras maracutaias de Brasília, só querem saber quem empurrou o Gentili do CQC, aí sim as pessoas se preocupam. O CQC faz um baita trabalho, mas as pessoas acham graça e não refletem praquilo. Então, pra quê? É duro ser jornalista nessa terra de ninguém.

- Eu não vi nada do “showneral” do Michael Jackson, a não ser alguns twitters, mas nem fiz questão de ler nada muito profundo, porque acho um saco tudo isso. Show póstumo? Enterro business? O cara morreu há dias e só enterram agora? Estadunidense arruma qualquer coisa para virar entretenimento. MJ foi um astro pop mesmo, merece todos os louros, mas pisar em cima de morto com festa e banquete parece-me o fim da picada.

- Golpe militar em Honduras. Os EUA adoram interferir no Iraque, Afeganistão, porque não mandam tropas para acabar com essa palhaçada da direita hondurenha? Nunca vi os EUA interferindo contr aum golpe, apenas criando-os. É o fim do mundo golpe de Estado em pleno século XXI, como disse Lula, mas porquê nenhum governante da América Latina faz algo efetivo? Onde está Hugo Chávez a essa hora? Obama, alguém viu? Lula? Nestor Kirchnér até foi pra lá com Rafael Correa, mas, alguém mais? OEA condena, todos criticam, mas, atuação efetiva, alguém? Se os Estados Unidos acham por bem intervir em país anti-Ocidente, o que dizer dum golpe de Estado? Hipocrisia! Soberania e autodeterminação dos povos fazem bem. O que não faz é golpe de Estado pra satisfazer interesses de empresários e militares imbecis e antidemocráticos! Só porque viram que perderiam nos plebiscitos, temendo a repetição de Venezuela, Bolívia e Equador, matam hondurenhos pró-Zelaya e impedem que o presidente eleito legitimamente pelo povo volte ao seu país.

- Fechando: hoje teve lua cheia no Ipiranga de novo. Tão grande, amarela, linda. Como é bom o amor. Apesar de tudo, a vida ainda é possível.

Noite Sem Fim para um Amor Sem Início

1º Ato —– Casa e Alma Vazias —–

A mente angustiada passeava pela casa deserta. Todos haviam saído para comemorar o novo ano que se adentrava. Mas aquela alma parecia penada, algo de outro mundo, vagando em vão, indo e voltando, como que se estivesse esperando o tempo morrer. O corpo disperso só se acalmava depois de sorver alguns bons goles de um wiskhy. O líquido descia pela garganta, queimando o esôfago, destruindo tudo o que via pela frente, fazendo o interlocutor de nossa história contorcer seu estômago, como se uma úlcera tivesse saltado naquele momento.

Passados mais alguns longos momentos daquela noite, que se iniciara eterna, eis que o telefone toca. Pessoas procuram por aquele que falava meio embargado. Não se sabe se por causa das lágrimas ou da garrafa de wiskhy que esvaziou-se desde o fim de tarde até o início daquela escuridão. Gilberto – o nosso sôfrego – respondeu que estava saindo, terminando de se arrumar. E despistou, desligando o telefone, quando perguntaram se algo lhe ocorrera.

As oito badaladas do relógio da sala registraram a hora em que Gilberto levantou-se, dispondo-se a andar até a porta, para ir a quem o havia ligado e incomodado seus momentos angustiosos de espera e solidão. Para ele, estar sozinho com sua agonia e seus devaneios era melhor e menos perigoso do que enfrentar o medo das possibilidades que a vida proporciona. Passo por passo, meio cambaleante, muito lentamente, Gilberto pôs-se a caminhar rumo ao destino que lhe reservara alguma surpresa naquela noite. Ou não. Apenas reservara algumas cervejas e vômitos, como já costumeiro.

Meia hora adiante, após parar em uma padaria para comprar cigarro e tomar uma dose de 51, eis que nosso “ilustre” personagem desta paródia comemorativa de fim de ano, um dos mais queridos do grupo, chega próximo ao recinto, antes porém, caindo ao meio fio. Alguns transeuntes o reconhecem e gritam o nome do dono da casa, pedindo para ver o que acontecera. À primeira vista, nada demais – todos já se acostumaram a ver o rapaz naquele estado pelo bairro –, mas acontece que dessa vez ele demorara um pouco mais a erguer-se. Quando os vizinhos começaram a dispersar, eis que o trôpego de camisa branca, já muito suja, pôs-se a levantar e saudou os amigos, desculpando-se pelo ato desleixado. Com isso, todos adentraram a casa com uma sensação de alívio e insegurança, pois a noite apenas estava começando e já se tinha péssimos episódios a relatar.

2º Ato —– A Angústia da Festa —–

Engraçado que a medida que os convidados iam chegando, Gilberto sorvia mais rapidamente as cervejas que lhe ofereciam. Isso demonstrava claros sinais de ansiedade e desespero que o rapaz sofria em seu canto escuro e depressivo do jardim. A festa começava a empolgar, o som dançante tocava alto, pondo muitas pessoas a requebrar-se. Gilberto não gostava de dançar. Na verdade, não sabia. Tentara, em vão, anos antes, nas poucas festas que ia com amigos, provocando total desastre nas pistas. Preferia, hoje, continuar tomando sua cerveja, fumando seu cigarro, sem ser notado por absolutamente ninguém. Isso, ninguém mesmo, nem os amigos que mais gostam dele. E não é nem por vergonha que estes amigos não se aproximam muito, e sim por saberem do auto-isolamento que Gilberto se propôs há alguns anos. Já foi muito conseguir fazer o jovem sair de casa e ir até José e Paulina, dois de seus melhores amigos e responsáveis pela confraternização da virada de ano.

Gilberto, muito arredio, não queria ir, até por motivos compreensíveis. Mas, por insistência dos dois, ele não pôde recusar pela décima vez o convite. Até por não visitar os colegas há uns 2 anos. Apenas quando José, à caminho do trabalho, passava para ver como estava o amigo-irmão. Ou os constantes telefonemas de Paulina, que se preocupava muito com a saúde dele, que andara muito debilitada nos últimos meses. Ele não sofria de mal nenhum, ao menos aparentemente. A não ser a bebida que consumia seu corpo vorazmente nos últimos meses. Mas isso era irreversível, Gilberto não iria largar um dos mais prazerosos vícios dele: a bebida. Amiga, fiel, protetora, boa ouvinte. Que consola, aquece, esquece, adormece, transcende, perde a consciência. Tudo aquilo que nosso personagem desejava quando seu coração apertava. Ainda mais no dia de hoje, com tanta expectativa e medo juntos, nada melhor que algumas cervejas e outras doses de wiskhy para manter o resquício de coragem restante a essa alma quase morta, ao menos socialmente.

Gilberto, José e Paulina tinham ainda outro amigo de longa data que já estava na festa quando nosso companheiro bêbado chegou: o Marcondes. Esse era um grande irmão para Gil – como os amigos costumam chamá-lo – , uma pessoa que sempre obteve auxílio. Contudo, acabou ajudando e muito o amigo, principalmente depois dos 22 anos, quando o agitado Gilberto mudou seu jeito de ser. Marcondes sofreu muito com o isolamento de seu mais fiel parceiro, tanto que acabou por se afastar também, como se tivesse criado uma barreira entre os dois, apesar do amor fraterno que ambos compartilhavam entre si.

Alguns até agora não estão entendendo o que esse cara totalmente insólito tem de ilustre e querido em uma festa de pessoas tão alegres e divertidas, enquanto o mesmo permanecia escondido entre as árvores, como se estivesse fugindo de algum fantasma? É que vocês não conheceram ele alguns anos antes. Jovial, alegre, otimista, divertido e até levemente bagunceiro, Gilberto encantava a todos com suas brincadeiras. Juntamente com José, Paulina, Marcondes, formavam um grupo de pessoas que sempre se mantiveram unidos, com uma amizade bastante sincera e forte, defendendo a todos com unhas e dentes. Até que seu protagonista principal sofreu um baque que lhe fez perpetrar pelos caminhos sem retorno da bebida e do recolhimento. Ninguém entende como isso aconteceu, mas sabem o porquê. Mas nunca chegaram a comentar, até para não piorar o estado do rapaz, que pareceria um menino, não fosse o auto-flagelo em que ele se condicionou a viver nos últimos anos.

3º Ato —– O Pesadelo —–

11 horas da noite. A alma de Gilberto começava a ficar aliviada. “Estou livre disso”, acreditava ele, urrando dentro de si palavras felizes de “viva”. Até que, com o som de uma palavra gritando o nome de Paulina no portão, um frio na espinha de Gilberto surgia, fazendo-o suar como se estivesse um calor de 40 graus, à sombra. No entanto, seu corpo ficara congelado, seu rosto pálido como o mais alvo dos brancos, ao passo que suas pernas amoleciam. Fez sentar-se em uma cadeira que estava a seu lado, enquanto, paralisado, fixava o olhar no céu longínquo, como querendo fugir daquela casa.

A pessoa que gritara o nome de Paulina no portão era a “causa” de todo o sofrimento e alteração de personalidade do jovem Gilberto. Marília era o nome dela. Já faziam alguns bons anos que os dois não se viam, como se fosse um pacto para que não houvessem conflitos. Também amigos de muito tempo, Marília fez parte do grupo, até o dia que Gilberto descobriu-se apaixonado por ela. Ah! Que momento de alegria ele viveu quando começou a sentir tais sentimentos belos. Passeava pelas calçadas vizinhas à sua casa com felicidade sem tamanho, cumprimentando a todos nas ruas, no auge de seus 18 anos de idade. Mesmo sem dizer para ela, o então menino Gil sentia-se feliz, apesar da angústia que lhe assombrava de vez enquando, por desejar algo mais do que sentir sozinho aquilo. Queria ela perto de si, sentindo a mesma paixão que ele.

E foi com esse desejo de união e todo esse amor que Gilberto escreveu uma carta a Marília. Nervoso, mas esperançoso, ele postou a carta no correio, contando os dias para chegar a seu destino. Não moravam longe um do outro, mas Gilberto não tinha coragem de levar a correspondência até a residência de sua amada. Passaram-se 3 dias e nenhuma resposta: nem por carta, nem por telefone. O rapaz começava a perder os sentidos de tanta ansiedade e nervosismo que eclodiam dentro de seu espírito. E foi assim durante semanas, meses, anos. Nenhuma resposta de Marília ao coração totalmente despedaçado de Gilberto, que, sem coragem de perguntar a sua algoz, resignou-se a destruir a própria vida, em protesto contra a mesma vida que não o permitia possuir o que desejava.

4º Ato —– A Desolação ——

Bom, voltando ao contexto atual, 7 longos anos depois, ambos iriam se reencontrar. Gilberto não imaginara esse dia há tempos, nem em suas mais profundas crises de loucura, que tinha de vez enquando. Agora, encontrava-se o rapaz completamente atordoado, olhando fixo para o nada, esperando a sua “morte” chegar. Marcondes percebeu o que estava por acontecer e foi “socorrer” o amigo. Gilberto não respondia nada, só olhava fixamente o céu, como que procurando alguma estrela que o escondesse àquele momento. José, que estava atrapalhado com seus convidados não pôde assistir ao amigo em precárias condições. Nem mesmo ele sabia da presença de Marília à festa, apenas Paulina. E o próprio Gilberto.

Aos passos que se seguiram quando as duas subiram as escadas, o coração daquele homem amargurado disparou de um tal modo que Marcondes ficou aflito, pois ele mesmo conseguia ouvir os batimentos sem pôr o ouvido no peito do amigo. Na virada para o espaço, eis que Marília avista o “preterido” Gilberto. Ela mesma fica um pouco aturdida, olhando para a amiga Paulina, cobrando o porque do não-aviso da presença do rapaz. Mas após esse momento de arrogância, Marília resolve evitar o ex-amigo, mais por vergonha do que pelo inicial desprezo.

Os momentos antes da meia-noite se seguiram em um clima pesado. Apesar de todos continuarem se divertindo, o “grupo” encontrava-se dividido. Marília, que permanecia sem olhar para Gilberto, não largava de Paulina, que, por sua vez não tirava os olhos de Gilberto, que já era assistido pelos amigos Marcondes e José. Este último conseguira desvencilhar-se dos parentes. As únicas palavras que Gilberto pronunciava, além de solicitar a José mais cerveja e wiskhy, eram: “és mais bela do que tudo no mundo”, com um ar tristonho, mas de certo modo entusiástico. Os amigos apenas aquiesciam suas palavras e atendiam seus pedidos de bebida.

5º Ato —– O Reencontro —–

Meia-Noite. A hora fatídica e certeira. O momento em que todos se cumprimentam, desejando felicidades e realizações para o ano recém nascido. Segundos em que os homens abrem as garrafas de champanhe para comemorar. Até as crianças tomavam um pouquinho. Gilberto gostava da bebida, mas nem podia beber mais, não agüentava. Todos se confraternizando. Até Gilberto se levantou e saiu do seu “canto escuro” para apertar a mão de alguns presentes à festa. Quando, em um movimento absorto, quase involuntário, Marília surge, com uma garrafa de champanhe, a frente de uma luz forte, que quase cegava Gilberto. Mesmo assim o rapaz conseguira ver quem era. Já sem mais o que fazer, resignou-se a dizer um “olá”, ao que se seguiu:

- Como você está Gil? – pergunta ela, como se não percebesse como estava o rapaz.

- Acho que você pode notar como estou, resmungou ele.

Mesmo com a seca e abrupta resposta, Marília avançou em sua tentativa de aproximação.

- Quer um pouco? – a garota ofereceu a Gilberto um gole de champanhe.

- Aceito.

- Feliz ano novo para você Gilberto.

- Obrigado. Para você também – resignou em responder Gil.

E assim começou um longo papo. O frescor do champanhe quebrou a vergonha de ambos, pondo-os a falar. Gilberto só queria saber o motivo do eterno silêncio de sua paixão de adolescente. Mas, as suas perguntas não teriam resposta num primeiro momento. Marília direcionou a conversa, inicialmente, a falar como foi sua vida nesses longos anos, dizendo que sentiu muito a falta do amigo Gil, e que ressentia muito ter se afastado da forma como aconteceu. Pedia-lhe desculpas (a essa altura Gilberto já “não acreditava” no que ouvia) pela omissão, comentando que havia adorado a carta recebida, mas que não sentia o amor recíproco que ele reservava a ela. Sentiu-se envergonhada, mas totalmente incapaz de dirigir-lhe a palavra, impedindo também que os amigos comentassem o assunto.

6º —– As Lágrimas do Adeus —–

Gilberto, já sem muito o que dizer, prostrou-se a chorar. Mas não a cair lágrimas como em sua residência, antes de ir para a festa, e sim a derramar água compulsivamente, como se fosse um rio que desaguava naquele instante. Marília, compungida de ternura consolou o “amigo”. Coberta de compaixão, a moça acariciou o rosto do rapaz, dizendo-lhe:

- Gil, eu gosto muito de você e não quero que fiques assim. Você sabe de tudo o que aconteceu comigo e eu começo a saber o que houve com você agora, então, eu te peço: pare de se destruir assim. Não chores mais, eu não mereço tanta atenção sua, tanto sofrimento de sua parte. Peço também que esqueça-me como alguém que amas, mas não como amiga. Isso eu quero preservar até a eternidade.

Com essas palavras cortantes a um coração já esfacelado, lá pelas 6 da manhã, o dia clareava. Só restavam os dois no lado de fora da casa, e enquanto o resto “grupo” tinha se recolhido a dormir, Gilberto se ergueu e decidiu ir embora. Marília questionou o porquê de ir aquela hora, ao que o Gilberto respondeu:

- Não há mais nada para fazer aqui. Depois dessa noite, nada mais será novidade para mim, nem o fim. Tudo que eu fiz comigo está feito e não pretendo mudar. Ao menos aspiro ser mais quem eu sou, sem me esconder na dor do passado de sua presença em meu coração. Não digo que vou esquecê-la, mas também não peça-me que ame outro alguém.

E assim, em passos meio esparsos e dispersos, mas firmes, Gilberto conduziu-se a rua, enquanto a Lua o saudava e o vento lhe assoprava um gostoso aroma de frio. Ao fundo, Marília enxugava as lágrimas, através de um sorriso triste, porém menos angustiado, assim como Gilberto após aquela passagem de ano, que marcaria fundo suas vidas pelo resto dos dias.

Escrito por volta de 2006.

Novidade em pílulas

Devido a falta de tempo, pensei uma alternativa para não deixar o site parado. Criei a categoria notas e aqui vou sempre dar alguns pitacos no que tem acontecido no nosso mundo. Não é nada original, mas pode ser engraçado e ácido, dependendo do humor do escriba. E, ao contrário do que pode parecer, eu não me contenho em escrever pouco, então vão ser pílulas tamanho família!

Realmente tá difícil ter tempo, tô em semana de prova, de desenvolvimento de artigo, de orientação com o professor, de trabalho, fica difícil desenvolver um texto longo. E eu tô com algumas idéias, algumas descobertas bem interessantes que gostaria de compartilhar aqui.

Enfim, enquanto isso não acontece, vamos de notas!

- Que frio fez hoje! Geou em várias partes do Brasil, bateu 4 graus em Parelheiros de madrugada, precisei me cobrir todo pra conseguir ficar dentro de casa. Mas não estamos no Alaska!

- Por outro lado: 18h no bairro do Ipiranga, zona sul de São Paulo. O céu escurecendo num azul tão intenso, visto por uma Lua que acompanhava o transeunte. É, o inverno também vale a pena.

- Futebol. O que deu em 51.800 são-paulinos para ir em um mero jogo de quarta rodada do Brasileiro no último domingo? Não vão só em jogo final, essas coisas que muitos tentam vender? Hummm, pensando bem, acho que foi a promoção de um quilo de alimento por um ingresso. Se fizessem isso mais vezes, possibilitariam o, literalmente, pobre torcedor tricolor a ir ao estádio. Ingresso no Brasil sempre vai ser caro, enquanto a população não tiver dinheiro.

- Mais uma das quatro linhas. Adriano falta ao primeiro treino. Alguma novidade? Quem o conhece que o contratou. E aguente os gols em campo e as mazelas fora dele. Não adianta reclamar agora.

- A última do esporte mais popular do Brasil. Escolhidas as 12 sedes para a Copa de 2014 no país, começa a segunda fase da gastança: maquetes, projetos, contratados, grana, investimentos, obras faraônicas. A pergunta que fica é: quem vai pagar a conta? Desconfio que seremos nós.

- A atuação da imprensa em relação ao acidente do Airbus da Airfrance no Oceano Atlântico é, mais uma vez, um jogo de empurra, pelo menos no canal aberto. Especula-se daqui, dali, erra-se, e joga-se a culpa no especialista, em Deus, no Romário, até no Zagalo. O Datena falando ontem de manhã que poderia ser terrorismo é de uma responsabilidade sem tamanho. Ainda bem que ele tem a consciência que tem aparecido mais na TV que o presidente venezuelano, Hugo Chávez.

- Outra relacionada ao acidente: por quê a sanha da imprensa em divulgar a lista dos passageiros? Bastava entrar no UOL desde ontem que você via: “Veja a lista de 36 passageiros a bordo do vôo da Airfrance”. Logo depois o número aumentava pra 53, mais tarde pra 76 e assim ia. Se nem a empresa francesa divulgou ainda, porquê esse desespero em expor as pessoas?

- Estranho o número de políticos de renome doentes, não? Dilma Russef e José Alencar com câncer, Roseana Sarney com aneurisma. Só falta o Serra aparecer com algum distúrbio. Bem, quem iria gostar era o Aécio Neves…

- Falando em política, a impressão que passa é que o Brasil (ou o PT) vai as mil maravilhas. Dilma chega pela primeira vez a um empate técnico com o Serra, pelo menos pelo CNT/Sensus, Obama chama o Lula de “o cara”, todo mundo quer uma foto com nosso presidente, elogios e mais elogios a atuação brasileira daqui e acolá, aprovação de Lula internamente cresce, brasileiros confiantes do papel brasileiro em conter a gripe suína. Lá fora e aqui a auto-estima com esse país lembra tempos não tão distantes, do “ninguém segura este país”. Só espero que não lembrem nada mais dessa época.

- Quando você lamenta um pacote de bolacha ou uma lata de cerveja comprada a mais no orçamento, é porque a grana tá definitivamente curta. É a crise! O jeito é se trancar em casa e esperar a bonança voltar.

- Pra fechar, algo acrítico, mas reflexivo, quem sabe: quando você faz algo sem esperar receber nada, você ganha em dobro.

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