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Jornalismo internacional no Brasil: um problema de perspectiva

Pingou no meu twitter há pouco esta notícia: Produtores globais de vinho se unem para questionar protecionismo do Brasil. A leitura me levou a escrever aqui no blog.

O título já indica o que nos espera.  Ao ler a reportagem, a premissa é confirmada. Parece que estamos lendo um jornal europeu ou estadunidense. A perspectiva é sempre do que o Norte acha do posicionamento do Brasil, indicando que o país estaria exagerando, fazendo errado, etc., e o que as nações de cima pensam e o que vão agir para combater.

A reportagem não ouve o lado brasileiro, não aprofunda as razões das salvaguardas, só faz copy paste do que a agência do Norte escreveu sobre um assunto nosso. Alguém vai dizer que a matéria é assinada por um correspondente, não é de agência. Tanto pior: para quê ter um correspondente na Europa com uma visão de lá e não do ponto de vista do Brasil? O jornalista vive há tanto tempo lá que deve ter perdido a conexão com a realidade brasileira, vendo as coisas muito mais com os olhos de lá do que daqui. Visão não quer dizer defender o Brasil, mas compreender a perspectiva tupiniquim, coisa que não houve no texto.

Independentemente de quem produziu, o que estou discutindo aqui é que o jornal produziu um conteúdo que não possui jornalismo na sua raiz, embora tenha todas as técnicas sobrepostas ali. Mesmo dizendo, breve e parcamente, os motivos brasileiros, a reportagem mais parece de uma assessoria do Norte, ao escrever sob o olhar dos interesses econômicos dos países produtores de vinho e que estariam sendo prejudicados pela atitude brasileira de desejar proteger o seu próprio mercado.

Enfim: se o Brasil e o SUL em geral tivessem agências de notícias que produzissem seu próprio conteúdo, que não tivessem a perspectiva das elites na sua linha editorial e fossem preferencialmente populares – tudo muito difícil, pois quem detém o poder e o dinheiro, detém a informação, caso da elite atual - duvido que porcarias europeizadas como essa saíssem por aqui. Mas a grande imprensa, representando sua elite, segue comprando o que o Norte oferece, como se aquilo fosse mais importante do que o que é feito aqui.

Enquanto essa mentalidade pequena e discriminatória não mudar, jornalismo internacional de notícias não existirá no Brasil. Só assessoria do Itamaraty, a partir do jornalismo declaratório, formal e ritual em Brasília (e que um CQC outro dia quebrou o tal rito protocolar de puxação de saco e saiu escorraçado do lugar por jornalistas “horrorizados”), ou assessoria do Norte, baseada em cobertura de agências de notícias que falam inglês e de correspondentes e perspectivas editoriais elitizadas, europeizadas e atrasadas.

O que salva são as análises e artigos de muitos estudiosos – e poucos jornalistas – que se dignificam a ir mais a fundo do que o raso jornalismo internacional vai. Jornalismo de foco internacional não pode ficar na borda do fato, precisa mergulhar, compreender e esmiuçar para ser entendido em toda a sua complexidade.

Em uma sala de aula…

Li no perfil de uma amiga no Facebook, que é professora no Rio de Janeiro, a seguinte mensagem. Pasmem, é real:

“E ontem, antes da prova, a turma me pediu licença, se levantou e orou, com as mãos no coração, pedindo que Deus ajudasse na prova. Deixei, enfim. Afinal, fé é fé, não é? Logo depois, a turma inteira quis colar. Acho que a “fé” não valeu”.

A molecada precisa de umas aulas de ética, coerência… Não dá pra para aliar duas coisas dessa forma, pedir ajuda divina e colar na prova. Cada vez menos as pessoas recebem educação em casa, as referências se limitam à escola, que não dá conta de tantos “filhos”. Aí, ao invés de aprenderem com os pais e terem o complemento com os professores, são educados pela rua, que não diferencia certo e errado… dá nisso e em coisas bem piores.

E enquanto nos indignamos com Cachoeiras da vida, jogamos no bicho – e os jornais, hipócritas, publicam e dizem que é uma forma de vigilância, quando se beneficiam da publicação de algo contra a lei. Enquanto xingamos o prefeito ou vereador de nossa cidade pelo não cumprimento da promessa de corredores de ônibus (paulistanos sabem do que falo), não cumprimos a promessa de levar nosso filho a um passeio, ou de amar e estar realmente junto da pessoa amada quando ela precisa, de realmente procurar ser melhor a cada dia e não apenas no primeiro dia do ano, quando prometemos mundos e fundos, meio inebriados pelo álcool ou pelos fogos de artifício da “festa da virada”. De que adianta reclamar dos corruptos de Brasília, se vira e mexe tiramos vantagens dos outros no dia-a-dia, se sacaneamos os velhos, as crianças, se viramos as costas a quem pede uma ajuda na rua. Que merda de sociedade e mundo estamos criando? Cada vez menos acredito naquele papo cristão de que o ser humano é bondoso e que sua humanidade pende para a preocupação e amor com o próximo. Cada vez mais vejo que o ser humano age de acordo com os seus interesses, independentemente do que isso vai causar ao próximo.

Voltando ao cerne do post. Enquanto as pessoas treparem sem pensar nas consequências de ter um filho e enquanto não cuidarem da educação deles, jogando o papel prum professor que é surrado, humilhado, mal pago e sugado pelo Estado e não tem condições de educar tanta gente ao mesmo tempo, o cenário só tende a piorar…

Olha, não tive uma infância gloriosa, fantástica, com todos os meus desejos atendidos. Mas uma coisa, primordial, eu tive e vou levar para todo o sempre graças a meus pais: educação, saber distinguir o que é certo e o que não é, saber observar as pessoas e saber quem está comigo mesmo e quem quer me prejudicar, e a buscar sempre o melhor, sem fazer coisas erradas – e para os religiosos, não fui educado em igreja nenhuma, apesar de ter tido embasamento católico em boa parte da vida, mas nada assíduo. Esse tipo de educação de valores, de ética, não se oferece numa sala de aula, muito menos não se vende em uma loja de departamentos ou de internet.

A cidade e suas cores…

Ciudad de Leste - 19.12.2011

Ciudad del Este - 19.12.2011

Eu ia colocar uma foto de Puerto Iguazu e continuar o passeio, mas vi essa foto e decidi publicá-la. Gosto muito dela, é bem colorida por causa das cores das bandeiras cobrindo o comércio ambulante de Ciudad del Este. É uma variedade de coisas, artigos, cores, pessoas, odores, que mostra como a cidade paraguaia é uma mistura de tudo que torna esse local tão popular, em que pobres e metidos a ricos a visitam em busca de “precitos”. Um calor infernal faz nessa época do ano na região e essa cobertura de tecido ajudava a amenizar a elevada temperatura.

Estávamos lá no dia seguinte que o Olimpia foi campeão paraguaio. Por isso, muitas pessoas vestiam a camiseta do clube com orgulho. Queria ter comprado uma, mas só encontrei dos camelôs, desisti. Pelo pouco que vi, é uma cidade maluca, desordenada, mas legal. Gostaria de voltar lá para ir além-fronteira e tentar conhecer um pouco mais da realidade desse povo que vive em função do comércio com os brasileiros. Até amanhã e boa semana!

Um passeio pelo mundo livre…

Ciudad de Leste - 19.12.2011

Ciudad del Este - 19.12.2011

No final do ano passado fui para Foz do Iguaçu conhecer as suas famosas cataratas e tudo o que cerca esta cidade e sua Tríplice Fronteira, separando Brasil, Argentina e Paraguai. No primeiro dia já fomos para Ciudad del Este conhecer o que gira bastante a economia por ali, além do turista no lado brasileiro-argentino, o comércio de eletrônicos no terreno paraguaio. Essa rua, apesar de ser inclinada, lembra a Rua 25 de Março, em São Paulo. Com camelôs pelas calçadas e até nas ruas, fica difícil caminhar por ali para alcançar as lojas de departamentos grandiosas indicadas pelos turistas.

Muita sujeira no chão. Muitos carros e motos circulam pela região. É preciso tomar um pouco de cuidado, mas não é um lugar violento ou hostil como os guias de turismo acabam fazer parecer. Comprei remédio pra dor de cabeça em uma farmácia, um salgadinho de um camelô, e basta trocar meia dúzia de palavras, em espanhol ou em português mesmo, que as pessoas lhe atendem, são prestativas. Isso na rua. Nas lojas o pessoal fala português e só falta estender um tapete vermelho, afinal, tu poderá fazer uma mega compra e…

A aduana, enfim, a fronteira, é um processo meio chatinho, de fila de ônibus, carros, caminhões e longa espera. Em um segundo dia que fui até lá, voltei a pé e aí tudo parece mais fácil, a travessia e a imigração,a té porque o volume de compras era pequeno: não viajei pra fazer muamba. Mas bem que umas garrafas de vinho e de outras bebidas valeu e muito a pena trazer de lá.

Nas próximas semanas, aos sábados e domingos, irei colocar mais algumas fotos desta belíssima viagem. Das melhores que eu já fiz. Até amanhã.

PT e a Social-Democracia – Parte II

Mais um dia, mais um post da série publicada aqui neste espaço do livro-ensaio “O PT e a Social-Democracia: de um programa de ruptura à administração do capitalismo”, escrito por mim em 2004 como trabalho de conclusão do curso de Jornalismo – saiba mais sobre esse livro clicando aqui.

Hoje é a continuação, e parte final, do primeiro capítulo, que trata sobre as experiências de gestão socialista em governos capitalistas. Após o debate das primeiras tentativas de implantar o socialismo por meio de revoluções, neste post você vai encontrar um histórico sobre a mudança de direcionamento dos partidos socialistas (ou, mais precisamente, social-democratas, apesar de serem compostos, no início, majoritariamente por socialistas, ainda que socialistas amenos, ou seja, que não levavam a ideia da ruptura capitalista como a única e radical opção), buscando a atenuação dos problemas sociais por meio de programas que melhorem a vida das pessoas, sem precisar transformar radicalmente o sistema, o Estado, ou seja, por meio de reformas. Esse modelo vigoraria na Europa , e até nos Estados Unidos, ainda que de forma diferente, dos anos 30, pós o crash na bolsa dos EUA em 1929, até a crise do petróleo nos anos 70, o que vai abrir espaço para uma forma de pensar e governar, o neoliberalismo, que vai obter supremacia até o começo do século passado, ainda que viva moribunda na União Europeia.

Bem, vamos ao texto. Aqui é importante notar como os partidos social-democratas – sempre fugindo do estigma socialista – vão modificar o programa socialista em prol de manterem-se no poder e fazer reformas pontuais, sem mexer nos problemas estruturais advindos do capitalismo. É um prato cheio para entender, mais à frente, as opções do PT nas disputas internas, nos seus documentos, nas eleições e mandatos eletivos. Enfim, a história é uma repetição de eventos aterrorizante, já dizia, com outras palavras, claro, Karl Marx.

 

A Social-Democracia e as Alternativas Econômicas

Mesmo com a Segunda Internacional dizimada os países continuavam cedendo espaço para a administração de partidos social-democratas que tentavam alternativas para conter os movimentos conservadores que voltavam a tona após a destruição proporcionada na Europa após o fim da Primeira Guerra.

Porém, um duro golpe iria abater a economia do mundo e retrair ainda mais a luta dos partidos social-democratas e sua base operária: a Grande Depressão[1]. Ela ocorreu com a quebra da bolsa de valores nos Estados Unidos, que produziu um efeito dominó em todas as economias pelo mundo e colocava em cheque o capitalismo. Nesse momento, pensou-se ser possível a retomada do socialismo. No entanto, esse momento de crise aguda introduziu, em contrapartida, o avanço do nazismo e fascismo em partes consideráveis da Europa, representados na Alemanha e Itália, respectivamente.

A contradição também abateu-se sobre as teorias de Bernstein. Se Marx colocou que o período seguinte era pró-revoluções e ocorrera estabilidade na Europa, as previsões de Bernstein sobre calmaria no mundo capitalista caíram por terra de forma clamorosa: duas grandes guerras, uma revolução comunista, a ascensão do nazi-fascimo e o grande crash na economia mundial mostraram que o capitalismo estava mais do que nunca aberto a variações crises econômicas dramáticas.

Era preciso, portanto, localizar saídas que fizessem a economia retomar seu crescimento. Em 1933, o presidente dos Estados Unidos, Franklin Roosevelt, iniciou um plano de políticas públicas – que ficaram conhecidas como o New Deal – incentivando a realização de obras (como a construção de barragens para represas, estradas, viadutos, etc.) em diversas partes do país, para empregar milhares de pessoas que passavam fome, fazendo com que elas tivessem renda para voltar a consumir e fazer girar a economia norte-americana para frente.

O economista inglês Jonh Keynes[2] teorizou essa relação do aquecimento da economia com as pessoas tendo dinheiro para consumir e fazer as empresas produzirem mais e realimentar a produção interna, gerando lucro para maiores investimentos. A teoria do pleno-emprego, acrescidas por outras benesses aos trabalhadores, foi muito difundida nesse período e prevaleceu em quase toda a Europa após a Segunda Guerra, como veremos mais a frente.

A Experiência Sueca

A Suécia foi um dos países que implantou uma forma mais humanizada do capitalismo e teve um dos melhores resultados, elogiados até hoje por teóricos brasileiros, como José Luís Fiori[3]. Ele afirmou que a social democracia sueca criou um caso quase único de “invenção de um novo caminho”, indo no rumo oposta da “ortodoxia da época”. “Em coalizão com o Partido Agrário, eles conseguiram tirar a Suécia da recessão entre 1933 e 1938, inventando o que seria um consenso quase universal até o início da era neoliberal: o Estado de bem-estar e as políticas ativas no campo macroeconômico”, constatou Fiori.

A Suécia, assim como todo o mundo, passava por momentos lentos de sua economia, agravados pela Grande Depressão de 1929. O Partido Liberal entrava em crise e abria-se em racha entre os “Prohibitionist Liberals” e os “Urban Liberals” (que se reuniram somente em 1934, para tentar aplastrar o crescimento socialista do partido social-democrata), colocando a ala conservadora dos partidos suecos em grave crise política.

Sem alternativas para superar os entraves econômicos e o desemprego os conservadores perderam terreno para o Partido Social Democrata Sueco que, em 1932, venceu as eleições e se viu na obrigação de implantar um programa que suprisse as necessidades da população que apoiava nos socialistas suecos como uma esperança de mudança nos rumos de sua nação. Mas o partido conduziu a Suécia a uma direção socialista? Não era essa a intenção, pelo menos o pensamento imediato dos social-democratas suecos que necessitavam urgentemente de um programa específico que reduzisse o desemprego e acalmasse a atmosfera para restaurar o mercado de trabalho.

Foi o que fizeram os social-democratas: elaboraram um novo e austero programa econômico, priorizando a geração de empregos e no aumento de tarifas de importação e do déficit financeiro. O programa buscava revitalizar os negócios locais e garantir uma expansão econômica, através das políticas públicas para o mercado de trabalho. Isso gerou uma equidade maior entre as pessoas que se sentiam mais próximas uma das outras em condições de desenvolver e conseguir trabalho, pois estavam e tinham condições para permanecerem no mesmo nível que as outras, como atesta Hadenius (1997)[4].

Mesmo com a vitória, o partido social-democrata não possuía a maioria no Parlamento, fato que fez as negociações iniciarem para que o programa fosse implantado sem maiores atropelos. Como dito há pouco, três partidos não-socialistas tentaram formar uma coalizão de oposição ao novo governo fato que acabou fracassando. Isso abriu espaço para o partido social-democrata fazer uma aliança com o Partido Agrário, que aceitou o programa do partido dirigente focado combate ao desemprego, verificando-se uma revisão na questão dos preços colocados nos produtos agrícolas.

Essa aliança – que garantiu a maioria do Parlamento aos social-democratas – ficou conhecida como “red-green” na Suécia, pelo fato da união entre socialistas e agricultores, fato ocorrido também em outros países escandinavos como Finlândia, Noruega e Dinamarca, aponta Hadenius (1997). Essa aliança se apresentou bastante satisfatória, pois os fazendeiros necessitavam de um governo ativo par a retomada da economia, pois eles mesmos haviam tomado muito prejuízo com a Depressão de 29.

O “programa anti-Depressão” como era conhecido teve diversas influências do economista britânico Jonh Maynard Keynes e sua teoria do pleno-emprego, foco central do programa social-democrata sueco. Hadenius aponta essa questão com muita propriedade, apesar o clima de crise que a Suécia ainda vivia, principalmente política. “Por exemplo, o governo iniciou um projeto de construção de estradas em que o desempregado ganhou o trabalho comparável a esses no mercado regular. Depois, o governo teve uma chance para implementar outras reformas” (Hadenius, 1997, p. 47 – tradução nossa).

Em 1934, o governo subsidiou famílias para a construção de casas populares e um sistema especial de seguro-desemprego, além de liberar para a pensão um aumento substancial. Diversas reformas no campo social foram introduzidas durante o período. Nas eleições de 1936, uma coalizão mais profunda entre o Partido Social-Democrata e o Agrário se estabeleceu, convidando, inclusive o líder deste último para fazer parte da liderança junto ao Parlamento. Isso proporcionou uma ampla maioria dentro do mesmo. Em 1938, a crise petrificava entre as empresas que queriam um pacto de paz no mercado de trabalho, pedindo inclusive intervenção do governo neste aspecto, por meio dos partidos de oposição conservadores.

Esse “arranjo” não fez sucumbir o crescimento econômico sueco que, com seu welfare state[5], ou, Estado de Bem-Estar, considerado deveras avançado e “impossível” ser concebido para os capitalistas da época fez uma revolução trabalhista na Suécia. Este proporcionou crescimento econômico e trabalho a seus cidadãos, com garantias de renda e desenvolvimento para todos, por conta de um programa de reformas um tanto audacioso que conseguiu garantir uma certa equidade enquanto os Social-Democratas estiveram com o programa no governo. Aliás, foi em 1938, quando essa aliança com os liberais, unida com as preocupações do avanço nazista na Europa e a eminente Segunda Guerra Mundial[6] a avistar suas frontes, fez os social-democratas sucumbirem perante os conservadores, tanto o eleitorado quanto os partidos.

 

A Era do Ouro[7]

A Europa foi arrasada por duas grandes guerras mundiais realizadas em seu terreno num intervalo de 30 anos e pouca perspectiva se avistava para suas nações. Com o fim da Segunda Guerra o mundo se dividiu em duas grandes potências, URSS e EUA, com o triunfo de duas formas de governo antagônicas e intragáveis entre si: o comunismo por parte dos soviéticos, e capitalismo, pelo lado estadunidense.

O primeiro surgira anos antes como a opção de superação do capitalismo, auto-julgando-se como uma forma mais justa de sociedade. Isso assustava a hegemonia do segundo que procurava suplantar o crescimento soviético – principalmente no Leste Europeu, onde dominava, seja pelo ideal ou pela força os países vizinhos. A idéia foi dar um aspecto menos injusto do capitalismo, abrindo espaço às reivindicações da classe operária e colocando o Estado como principal agente regulador da economia, para controlar as agruras do mercado e fazer crescer a economia sem deixar de beneficiar as empresas e, ao mesmo tempo, segurar as crescentes investidas do comunismo em todo o mundo, principalmente na América Latina, considerada desde sempre pelos EUA como seu próprio quintal.

Os partidos social-democratas, cada vez mais desfigurados de seu programa revolucionário, tomaram posse desse programa capitalista de Estado e implantaram muitas das ações experimentadas de forma pioneira pela Suécia da década de 30 e pelo New Deal estadunidense de Roosevelt, apostando principalmente, na tese do pleno-emprego de Keynes.

Essa época ficou conhecida como a Era do Ouro, pois esses países obtiveram crescimento suficiente ao adequar medidas que beneficiavam em parte os cidadãos, sem deixar de lado o lucro do capital. Isso não quer dizer que essas políticas keynesianas eram “a fada madrinha” da classe trabalhadora. Elas apenas amenizavam as desigualdades e traziam alguns benefícios, sem levar, porém, contentamento a todas as classes sociais. Isso porque, enquanto as melhorias vinham, os trabalhadores eram cada vez mais amarrados na estrutura estatal e não tinham espaço para desejar mudar o capitalismo de Estado que vigorara nesses tempos de reconstrução.

Enquanto os países cresciam e os investimentos e retornos se multiplicavam, essas práticas de “bem estar” puderam ser mantidas. Só que essa forma de manter o lucro como agente principal e move a economia numa ponta, entretanto, concedendo benefícios como seguro-desemprego e aposentadoria em larga escala fez com que os Estados quebrassem na primeira grave crise econômica que assolou o mundo pró-guerra.

A Queda do Welfare State

 

O fim do chamado welfare state ocorreu em 1973, por conta da crise do petróleo, que levou a primeira grande tormenta do modelo capitalista pós-guerra. Essa derrocada se deu por conta da combinação de baixas taxas de crescimento com o aumento da inflação, colocando os países em uma profunda recessão.

Esse deslize fez com que uma perspectiva neoliberal que se aventava desde seus formuladores de Mont Pélerin (Suíça) na década de 40 fosse retomada, agora com força total. Friedrich von Hayek e Milton Friedman[8] são considerados os teóricos mais significativos do início desse ressurgimento liberal, desde os tempos de Adam Smith[9]. A crise do petróleo era o que os neoliberais precisavam para trazer a tona o pensamento de uma política mercadológica mais “livre”, sem a intervenção do lobo mau, na visão deles: o Estado.

Mas o fator decisivo que desencadeou o neoliberalismo[10] no mundo foi a vitória na Europa e na América do Norte de governos de coalizão direita-conservadora. Isso ocorreu com a eleição de Margaret Thatcher[11] ao governo britânico, em 1979, e, também, com a vitória de Ronald Reagan[12] à presidência dos Estados Unidos, em 1980, e a derrota da social liberal por Helmut Kohl[13] na Alemanha, em 1982. Essa reviravolta da direta foi importante para o início da consolidação do modelo neoliberal nas principais potências do mundo.

No caso de Thatcher, a Grã-Bretanha implantou de forma mais avassaladora as propostas neoliberais. Isso aconteceu com a privatização de todas as empresas de serviços públicos, a desregulação dos mercados, bem como com a quase ditatorial briga com os sindicatos, tirando quase todos os benefícios adquiridos por lei pelos trabalhadores. Isso ocorre porque, na visão dos adeptos da teoria neoliberal, o dinheiro usado para benefícios deixava de ser aplicado no mercado, imobilizando a economia local e entravando o crescimento do país.

A entrada deste modelo de governo na América Latina se deu a partir de 1973, mais precisamente no regime militar chileno, governado por Augusto Pinochet[14]. O Chile foi utilizado como uma espécie de laboratório para a implantação dessa corrente. Mas foi em meados dos anos 80 que esse fenômeno se generalizou no continente. Segundo Fiori[15] tudo ocorreu em silêncio, em meio a renegociação das dívidas externas sul-americanas, no momento em que a comunidade financeira internacional apresentou aos devedores as suas novas condições: um conjunto de políticas e reformas que repetiam o que foi proposto por Hayek, na década de 40.

O mais interessante de perceber isso tudo, é que essa alteração na América do Sul não se deu por imposição, nem por conspiração. De acordo ainda com Fiori, essa “metamorfose” nas políticas econômicas ocorreu por uma verdadeira revolução cultural entre os acadêmicos e intelectuais do hemisfério sul. O aspecto original dos sul-americanos foi que o ataque ao modelo desenvolvimentista foi conduzido pelas mesmas forças que o sustentaram autoritariamente e que dele se beneficiaram durante meio século. Isso quer dizer que os mesmos que voltaram-se contra o modelo político atual, são os mesmos que foram a favor dele durante décadas passadas.

O Exemplo Espanhol de Felipe González

Aquém (além) da alternativa neoliberal estava a Espanha que vivia a derrocada da ditadura fascista de Francisco Franco[16], após a morte deste em 1975, após quase 40 anos de processo ditatorial. A Espanha iniciou um caminho de transição com a coração a rei para Juan Carlos, que indicou o político conservador Adolfo Suárez como seu primeiro-ministro. Suárez conclamou todos os partidos para estabelecer um acordo que fosse respeitado para a criação da Constituição espanhola (que ocorreu em 1978), garantindo as bases para esses intentos. Este ficou conhecido como o Pacto de Moncloa, por ter sido realizado no palácio da Moncloa, em Madri.

Com isso o Partido Socialista e Operário Espanhol (PSOE) aproveitava os vazios e crescia, tendo na figura de Felipe González[17] seu líder, que levou o partido a uma moderação cada vez maior, fazendo parte da chamada ala “renovadora” do partido. Este mostrava os caminhos que o partido deveria seguir, abandonando pouco a pouco o programa de inspiração marxista, posicionando-se com a democracia social da Alemanha. “Ninguém desconhece que Felipe González ascendeu ao poder com a reorganização da social-democracia européia que, nos anos 70, sob a batuta alemã, redesenhou os partidos socialistas ‘mediterrâneos’”, disse Fiori[18].

Tanto essa mudança de trajetória interna do partido é verdade que Felipe González era contra a entrada da Espanha na organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Após as eleições ele, pessoalmente, durante um plebiscito a respeito do assunto, tomou as rédeas em favor da entrada da Espanha na OTAN, pois González afirmava só existir esta alternativa para o país.

O PSOE venceu as eleições gerais em 1982 com maioria absoluta, tendo em González seu novo chefe de governo. Ele foi eleito por 4 vezes, tendo ficado no poder por 14 anos. Segundo Fiori o governo esteve sempre apoiado “por um verdadeiro rolo compressor parlamentar, majoritário e absolutamente disciplinado, que lhe permitiu aprovação automática no Congresso de todos os seus projetos e reformas”, escreveu em seu artigo “Lições Espanholas[19]”. Ele estabeleceu o controle de conselhos do Estado, Judiciário, de Contas, entre outros e também do Banco de Espanha. Seu programa apontava para uma estratégia político-econômica keynesiana, de acordo com Fiori no artigo, unido a uma planificação de estabilidade econômica e a defesa de um crescimento econômico estruturado, voltados para o aumento do emprego e da equidade social.

Fiori coloca que uma idéia de distinção para a proposta neoliberal estava na vontade de levar o Pacto de Moncloa para além-palácio e transformar aquele pacto entre elites políticas e econômicas num verdadeiro pacto social para o partido conseguir governar sem problemas, tudo sobre a tutela e pró-atividade do Estado em controlar e verificar tudo. Ocorre que a política econômica austera promovia o aprofundamento do desemprego, mesmo com alguns avanços.

A União Geral dos Trabalhadores (UGT) resolve romper com o governo e a agitação socialista obriga González a convocar eleições antecipadas, em que ele vence novamente, mas agora por pequena margem. Em 1993, o PSOE saiu enfraquecido das eleições parlamentares[20], sendo obrigado a fazer alianças com partidos conservadores nacionais basco e catalão. Até chegar em 1996 quando os conservadores do Partido Popular espanhol (PP), encabeçado por José Maria Aznar López, venceu as eleições e encerrou uma hegemonia de ideário socialista e práxis neoliberal que durou quatorze anos seguidos.

González entrou no governo prometendo 800 mil empregos e após o fim do primeiro mandato haviam no país 740 mil novos desempregados (Fiori, 2003), além do Conselho Econômico Social não ter sido regulamentado pelos socialistas, já que constava na Constituição de 1978. Fiori aponta que “as estratégias de controle ou arrocho social e de disciplinamento do mundo do trabalho, implementada pelos socialistas espanhóis, não passara, de fato, pela ‘concertação social’ e sim pela força da lei e do desemprego, como preconizava o modelo neoliberal” (Fiori, 2003).

O controle da inflação a qualquer preço, através de um aperto fiscal duro e cada vez mais “apertado”, entre outras políticas neoliberais, deixando de aplicar todo o programa – se não socialista, ao menos inferior no quesito crueldade com o trabalhador – apresentou um balanço de 7 anos de recessão ou baixo crescimento (1982-1985/1991-1996) e 4 anos de crescimento acentuado (1986-1990), segundo Fiori (2003).

Fiori mostra alguns dados que comprovam a mediocridade do governo “socialista” de Felipe González: Durante os 14 anos de gestão o gasto social do governo aumentou de 19,42% para 21,37% do Produto Interno Bruto (PIB). Na distribuição de renda a questão permaneceu pouco alterada: os 10% das famílias mais pobres aumentaram seus ganhos em apenas 0,44%, enquanto que os 10% de renda mais elevada perderam somente 1,20%. A participação salarial no PIB caiu de 51,2% para 46,1% e a taxa de desemprego atingiu 24% da população economicamente ativa em períodos de maior crise, contra os 15%  quando da entrada do PSOE no governo.

Um raciocínio que pode explicar esse posicionamento dúbio de discurso, programa e atitude no governo está no que Fiori trabalha sobre a dúvida dos socialistas sobre qual projeto seguir dentro do capitalismo e o que viria realmente a ser uma gestão socialista dentro do capitalismo. Os partidos socialistas da década de 80 “abandonaram a idéia de um capitalismo organizado e de planejamento estratégico, e adotaram um programa de tipo neoliberal de gestão do capitalismo”.

A diferença para o caso de Thatcher era que os socialistas gozavam da confiança de seu eleitorado de que poderiam fazer as reformas devidas e trazer o povo a uma melhor condição, fato que acabou não ocorrendo, pois, como diz Fiori, em tempos de credibilidade que a Espanha viveu durante os 14 anos o  PSOE vivia pregando a falta de credibilidade ante ao baixo crescimento nacional, ficando provado que uma política ortodoxa não abre canto para um crescimento sustentado. O espectro neoliberal só vestia roupa vermelha, mas usava plenamente suas ferramentas  neoliberais no governo espanhol, assim como em outros países europeus da época e também ocorre hoje com um gigante dos trópicos do hemisfério Sul.

O Neoliberalismo no Brasil

No Brasil, o modelo neoliberal teve início por volta de 1992 com o ex-presidente cassado, Fernando Collor de Mello. O processo ocorreu lento, mas foi  o bastante para que o então ministro da Fazenda do governo Itamar Franco[21], Fernando Henrique Cardoso[22], iniciasse de vez a instauração das políticas neoliberais, ao implantar o Plano Real. Na verdade, como afirma José Fiori, o Real não foi criado para eleger Fernando Henrique e sim o sociólogo foi concebido à presidência para viabilizar a volta definitiva da coalizão direita-conservadora ao comando total do país.

Na verdade, tudo começou em 1989, a partir de uma reunião em Washington entre acadêmicos e economistas estadunidense, funcionários do governo, do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI). Dessa reunião saiu um documento, criado pelo economista John Williamson, denominado pelo mesmo de Consenso de Washington. Neste, segundo Célia Chaim[23] rezam as seguintes “recomendações”: disciplina fiscal, reforma tributária, taxas de juros positivas, determinadas pelo mercado, câmbio competitivo, desenvolvimento de políticas comerciais liberais, maior abertura ao investimento estrangeiro, privatização, profunda desregulamentação, proteção à propriedade privada.

Esse “pacote” consistia em uma estratégia de homogeneização das políticas econômicas nacionais operadas em alguns casos, diretamente pelos funcionários daqueles bancos. Essa homogeneização aconteceu, pois, em sendo um consenso, as mesmas medidas deviam ser aplicadas em todos os países, desrespeitando as características de cada nação, povo. Tanto que esse “consenso” foi condicionado a todos os que deviam ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e Banco Mundial – supervisores da implantação dessa política. Isso quer dizer que, em muitos casos, as dívidas foram renegociadas ou atenuadas, pois determinado governo aceitou servilmente a implantação desse modelo em seu território. Esse fato ocorreu não apenas no Brasil, mas em toda a América Latina, menos Cuba, por conta da resistência de Fidel Castro e do povo cubano à tirania dos EUA.

O problema mais grave é que apesar de ter parecido uma imposição, o governo FHC, bem como seus aliados, optaram deliberadamente por essa política, condicionando-a como a única forma de fazer o país crescer. Claro que isso não foi explícito, até mesmo porque FHC nunca admitiu ser um neoliberal e seu partido possui a alcunha de Partido Social Democrata Brasileiro (PSDB). Mas a maneira encontrada para atrelar a retomada do crescimento a um novo projeto foi a saída pela tangente com o Plano Real e um programa nada social-democrata, que proporcionou uma bolha de crescimento por determinado tempo. O problema é que esta bolha acabou levando o país a um buraco negro sem perspectiva, transformando a população em pagadora dessa situação.

Após a posse de FHC na presidência do Brasil, em 1995, uma das primeiras medidas dele foi convencer a todos que as reformas constitucionais seriam condição sine qua non para a estabilização da moeda e, conseqüente retomada do crescimento do país. Só que as reformas passariam de qualquer forma pelo Congresso Nacional, portanto, esse “alarde” criado pelo presidente se deu mais por alguma justificativa eleitoral, já que seu projeto dos cinco dedos (saúde, educação, emprego, habitação e segurança) para o Brasil caiu no esquecimento depois da vitória na primeira eleição.

A segunda medida tomada foi manter o controle da moeda e da inflação, que na verdade tornou-se algo a ser feito durante todo o governo. Porém, Fiori diz que essa maneira de tentar estabilizar a moeda gerou uma “concentração grande de riqueza no país”, levando “a maioria da população à pobreza” (Fiori, 1998). Esse tornou-se um problema difícil de ser solucionado, pois Fernando Henrique – bem como a maioria dos presidentes da América Latina – foi eleito por conta dessa estabilização em forma de bolha que transformou as economias em reféns da especulação mundial, onde um bilhão de dólares pode passear de uma noite para outra por dois locais distantes no mundo.

Com isso, o mesmo é coagido pelas economias estrangeiras em nome da salvação dos bancos, da economia, em detrimento do povo, para conseguir manter o país em situação favorável a investimentos. Fato que acaba por não ocorrer, pois o investidor tem garantias a curto prazo de manter o capital no país, o que faz o governo apertar ainda mais o ajuste fiscal, como está sendo feito hoje, no governo petista.

A cada renegociação da dívida externa, o FMI e o Banco Mundial impunham as condições, mais que conhecidas, para a cessão de novos empréstimos: manutenção da inflação baixa, taxas de juros altas, preservando sempre os investidores e a economia internacional. E assim se procederam as privatizações das empresas de telecomunicações, da Vale do Rio Doce, da Companhia Siderúrgica Nacional, mantendo essas medidas que já vinham sendo feitas por longos anos.

Porém, nada mudou, pois as vendas não alteraram o grave quadro que amarrou e mantém amarrado o Brasil, bem como todos os países atualmente, impedindo os mesmos de tomar alguma decisão que não prejudicassem a si mesmos e ao mercado. Isso cria a chamada ditadura do mercado, atrelando tudo as necessidades do mercado internacional, relegando a população à segundo plano. No entanto, mesmo quando esses governos obtiveram tal ajuda do FMI e se estabilizaram, estas economias “reformadas” atravessaram profundas recessões, perdas significativas de massa salarial e aumento geométrico do desemprego, os famosos “custos sociais” da estabilização.

A seguir, vamos conhecer um pouco mais sobre as teorias que germinaram todo esse debate e essa evolução dos partidos social-democratas sobre sua origem, e que, ao longo do tempo foram adequando seu programa para atender as necessidades do capitalismo, optando por administrá-lo. Ao mesmo tempo, abandonando os objetivos de ruptura com este sistema e a criação de uma nova sociedade, a  sociedade socialista.


[1] A Grande Depressão refere-se a um grave período de crise econômica que o mundo viveu por alguns anos, após a quebra da Bolsa de Valores de Nova York, ocorrida em 1929.

[2] John Maynard Keynes foi um dos teóricos que mais influenciaram as políticas capitalistas do século XX. Entre suas principais obras está o livro “Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”, de 1936. Esse tipo de política ficou conhecida como políticas keynesianistas ou keynesianismo.

[3] Trecho retirado de entrevista concedida por Fiori à Folha de São Paulo, em 10/05/2004.

[4] HADENIUS, Stig. Swedish Politics During the 20th Century: Conflict and Consensus. Trelleborg: Swedish Institute, 1997.

[5] O chamado Estado de Bem-Estar tomou conta da maioria dos países europeus após a Segunda Guerra Mundial. O Estado passa a ter maior importância e ação dentro do sistema capitalista, regulando os mercados, protegendo os cidadãos através de seguro-desemprego e outros direitos sociais (como educação, saúde, transportes, previdência) passam a ser priorizados.

[6] Com a ascensão da Alemanha nazista e a vontade de seu líder Adolf Hitler em expandir os domínios territoriais de sua nação como sendo a única raça – a ariana – a ter o direito de sobreviver são algumas das bases para uma nova guerra em escala mundial. Contando com o apoio da Itália e do Japão, o chamado Eixo lutou contra as forças aliadas, compostas pela Inglaterra, França, União Soviética e, posteriormente, os Estados Unidos.

[7] A Era de Ouro remete ao período citado na nota 19 sobre o Estado de Bem-Estar Social em que o capitalismo viveu seus anos mais rentáveis e com mais justiça social nos países desenvolvidos da Europa.

[8] Hayek e Friedman são considerados os pais do neoliberalismo por terem iniciado, principalmente Hayek com a obra O Caminho da Servidão, as formulações renovadas do pensamento liberal do século XX.

[9] O escocês Adam Smith formulou a teoria econômica e trouxe a luz de todos os fundamentos da economia pouco entendidos até aquele momento do século XVIII, quando Smith viveu. Suas teses formularam o pensamento liberal de toda uma geração, sendo ele o criador de tal teoria. Uma de suas importantes obras a respeito é A Riqueza das Nações, publicada em 1776.

[10] Teoria fundamentada na escola austríaca, de onde veio seu mais famoso teórico, Friedrich von Hayek na Inglaterra e Milton Friedman nos Estados Unidos. A idéia era combater as políticas sociais do Estado de Bem-Estar Social na Europa e da política do New Deal norte-americano. Com o sucesso dessas políticas até a década de 70 os neoliberais recolheram-se e somente voltaram à tona nesse período, e para ficar. Entre suas políticas principais está a desregulamentação da economia, desvinculando totalmente o Estado como intervencionista no mercado, deixando a cargo da “liberdade” destas instituições a rumarem a economia das nações.

[11] Margaret Thatcher foi primeira-ministra da Grã Bretanha entre 1979 e 1990.

[12] Ronald Reagan foi presidente dos EUA entre 1980 e 1989.

[13] Helmut Kohl foi chanceler na Alemanha entre 1982 e 1998.

[14] O General Pinochet comandou um gole de estado que derrubou o governo socialista de Salvador Allende em 1973 e implantou uma ditadura no Chile que durou até 1990 e serviu para a implantação do neoliberalismo na América Latina, sendo o primeiro país dessa região a adotar esse modelo econômico.

[15] FIORI, José Luís. Os Moedeiros Falsos. 4º edição. Petrópolis: Vozes, 1998.

[16] Durante a guerra civil espanhola (1936-1939) Franco foi fundamental para aplastrar os movimentos sociais que ascendiam para uma possibilidade socialista no país. Franco implantou uma ditadura fascista após o fim da guerra civil, recebendo o apoio de Hitler. A ditadura conhecida como “franquismo” durou quase 40 anos, encerrando somente quando de sua morte.

[17] Felipe González foi o líder do governo espanhol e do PSOE de 1982 até 1996, tendo surgido no seio do movimento socialista espanhol como a alternativa de construção de uma sociedade, enfim, socialista.

[18] FIORI, José Luís. Os Moedeiros Falsos. 4º edição. Petrópolis, Vozes, 1998.

[19] FIORI, José Luís. Sítio Desemprego Zero. “Lições Espanholas”. Rio de Janeiro. 01/05/2003.

[20] O partido atingiu somente 38,9% dos votos nas eleições daquele ano, conforme artigo O País, do Centro de Divulgação Científica e Cultural da Universidade de São Paulo (USP).

[21] Itamar Franco assumiu o governo brasileiro em 1992 após a renúncia do então presidente Fernando Collor de Mello, eleito em 1989 e derrubado por denúncias de corrupção e lavagem de dinheiro.

[22] Fernando Henrique Cardoso governou o Brasil por dois mandatos, entre 1995 e 2002.

[23] O artigo que consta tal opinião foi publicado na revista Isto É em 16/10/2002.

Rock Brasília

Ontem assisti o documentário “Rock Brasília – Era de Ouro”. Muuuuito bom! Legal a história sendo contada pelos caras que a construíram. As melhores participações foram do Dado Villa-Lobos (com uma desenvoltura poucas vezes vista), Renato Russo (Vladimir Carvalho parecer ter escolhido de propósito os trechos mais engraçados da entrevista para a MTV, tirando um pouco da carga negativa que paira sobre o Renato, um “poeta sofrido”), André Mueller, e o Phillipe Seabra, que foi até Patos de Minas, reconstituir o primeiro show da Legião Urbana, quando todos os integrantes da Plebe e da Legião foram presos ao final da apresentação. A história é muito engraçada.

Aliás, os melhores momentos foram os que procuraram reconstituir alguns momentos importantes da história daquele período, como o fatídico show da Legião Urbana de Brasília em 1988, que ocorreu um grande tumulto, brigas, invasão de palco, feridos*. Aliás, penso eu, e o biógrafo do Renato Russo atestou isso no documentário, que aquela apresentação foi um divisor de águas na carreira da banda. Ali eles tiveram a exata dimensão de que eles estavam grandes demais e o erro naquele dia foi não saberem disso e contar com uma estrutura falha e algumas atitudes de palco do Renato criticáveis, de enfrentamento com o público.

Outro aspecto interessante foi o de trazer os pais dos músicos para dar um contexto histórico ao documentário, falar do porquê aquelas famílias foram parar em Brasília, porque é importante inserir o surgimento daquele cenário dentro do contexto da criação de Brasília décadas atrás, que levou milhares de pessoas para morarem lá, tal e qual a canção “Faroeste Caboclo” indica. Inclusive, o filme tem esse mérito de sempre contextualizar os momentos e as ações daqueles jovens punks, que depois viraram artistas consagrados, e mais tarde viveriam a decadência de suas carreiras, com o momento político e econômico do país – tendo, claro, a ditadura militar como um elemento importante daquela ebulição rock. Sem teorizar muito, sem trazer sociólogos, antropólogos, historiadores. Tudo saído pela boca dos próprios músicos e de seus familiares, dando um pano de fundo interessante do momento que o país vivia.

No entanto, creio que o fato de não teorizar o documentário – e essa foi uma aposta do diretor, não torná-lo tão didático, nem definitivo -, o espectador precisa ter alguma bagagem cultural, algum conhecimento de história brasileira para entender algumas informações e conexões que o documentário faz por meio de seus entrevistados. Alguns momentos não são tão simples de compreender. Mas como todo brasileiro tem obrigação de conhecer a história de sua nação (ah, doce utopia), acho que isso não é um problema.

Tudo isso, apesar da concepção bem lado B do projeto, com microfone aparecendo, o entrevistador sendo personagem do documentário, surgindo o tempo todo, de costas ou falando diretamente para a câmera. Algumas cenas improvisadas, sem cortes. Enfim, a forma como o documentário é conduzido e produzido é fiel ao que ele retrata. Se o rock de Brasília surgiu naquela do “faça você mesmo”, o documentário é meio que uma extensão daquilo, com imagens de Super 8 e muita improvisação. Mas não acho que isso comprometa o produto final, apenas que, em uma análise mais técnica, realmente o processo deixa um pouquinho a desejar.

Um problema, um pouco mais sério, foi a tentativa frustrada de tentar contar a história das três principais bandas daquele cenário após-Brasília. Não creio que ele conseguiu, de forma satisfatória,  pontuar historicamente a história da Legião, Plebe e Capital. Como eu conheço mais a história da primeira banda, consegui compreender o resumo feito no filme. Mas a história que os entrevistados contaram nas outras duas bandas não formou um material compreensível em sua totalidade, ficaram alguns buracos. Por exemplo, o Dinho falava de determinado álbum, mas não se sabia de que ano ele falava e uma legenda resolveria isso facilmente. Só quem é fã pra saber a discografia de cabeça.

Mas, no geral, o filme cumpriu o seu papel de contar as raízes históricas do rock de Brasília, que precisava mesmo ser contada, de tão rica que foi e com reverberações que alcançam as pessoas até hoje. Foi um bom resumo da história do rock de Brasília, um documento arqueológico em muitas vezes, antropológico noutras.

* Corrigido 07.11.2011, as 12h23

Minha vida é andar por este país…

Em algum lugar do interior da Paraíba... abril de 2011

Nas minhas andanças pelo Brasil no projeto Rotary Brasil 2011, exibido na Rede Vida todos os sábados, às 21h30, até o dia 18 de junho, visitei dez Estados, mais de 40 cidades (sem contar aquelas que cruzamos pelo caminho) e conhecemos mais de 50 projetos, em uma maratona maluca de dois meses praticamente sem folga. Foi, pelo segundo ano, uma experiência bastante rica, tanto do ponto de vista profissional, quanto pessoal. Conheci realidades distintas, ações sociais bacanas, outras capengas, outras necessitando de mais ajuda.

Mas o mais legal mesmo é conhecer as pessoas, estar em lugares em que você sente realmente que o Brasil está mudando para melhor, mas que, por outro lado, falta muita coisa (mas muita mesmo) para que a o slogan do último governo seja a representação fiel da realidade. O Brasil ainda não é um país de todos, embora tenha hoje mais condições de lutar por um lugar ao sol.

A rotina desses dois meses é massacrante: acorda cedo, grava um projeto, termina, almoça, corre pra outra cidade enquanto escreve o texto da primeira, chega na segunda cidade, grava, pega estrada, escreve a outra matéria, chega no hotel, termina de escrever tudo, come e dorme, tarde. Os fins de semana são de pouco descanso e arrumação de mala para mais estrada, carro, avião, confusão, encheção, estresse. Mas vale a pena. E é intenso desse jeito, mas dura pouco. Então, quando acaba, você sente a falta da adrenalina energizante e leva uns dias até se recuperar e acalmar o espírito para buscar uma nova rotina, já que se trata de um free-lancer.

Ao invés de retratar meu trabalho, busco com essas fotos mostrar coisas diferentes dessas viagens a lugares que, para os homens de cidade grande como eu – encerrados em seu habitat de concreto – são pitorescos, e que revelam cenários de um cotidiano mais simples e diverso do que estou acostumado. E é por isso que eu acho essas viagens divertidas, apesar dos contratempos e do pouco tempo para senti-las a fundo. Mas o pouco que tomo contato já vale e muito, agrega bem mais coisas positivas do que ficar trancado em casa tuitando sobre bobagens de algum site.

Quem quiser saber mais e ver fotos dos projetos sociais e das experiências nas cidades, basta acessar o flickr: flickr.com/photos/rotarybrasil. Tem também o twitter @programarotary. Bom domingo a todos.

No interior Pernambucano, uma churrascaria de Deus... abril de 2011

Amanhã, às 9 horas, entrevista coletiva do presidente para rádios comunitárias

Blog do Planalto transmitirá, nesta quinta-feira (2/12), a partir das 9 horas, a entrevista coletiva que o presidente Lula concederá a 10 emissoras de rádio comunitária no Palácio do Planalto, em Brasília (DF), num evento promovido pela Secretaria de Imprensa da Secom,Empresa Brasil de Comunicação (EBC) e pela Associação Brasileira de Rádios Comunitárias (Abraço).

A transmissão será ao vivo e terá sinal aberto para todas as emissoras de rádio do País. Você poderá acompanhar a entrevista aqui ou, se preferir, em seu próprio blog/página – basta copiar o código abaixo e colar no local desejado.

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Ajuda em pesquisa

Amigos,
Preciso da ajuda de vocês.
Preciso entrevistar leitores dos jornais escolhidos para a minha pesquisa de dissertação no Prolam/USP sobre as políticas exteriores de Brasil e Venezuela sob os governos de Hugo Chávez e Lula. Logo, preciso arrumar pessoas que leiam regularmente a Folha de S. Paulo.
Não precisa ser assinante, nem ler todo o santo dia. Mas o cara tem que acompanhar o jornal com certa regularidade. Não será uma amostra representativa, mas sim aleatória, só pra saber se a mensagem chega no leitor.
Se vocês puderem repassar isto para quem vocês conhecem e me indicar umas pessoas, agradeço muito.
É só mandar um e-mail apra: rodrigo.herrero@gmail.com.
Será uma entrevista aberta, não questionário fechado, mas é coisa simples, uns 15 minutos e tá ok.
Abraços!

Rodrigo Herrero

Entrevista com o marqueteiro da campanha da Dilma

Vale a pena ler esta extensa entrevista que João Santana concedeu à Folha de S. Paulo semana passada. É muito bom para entender os meandros da campanha eleitoral nestas eleições e conhecer um pouco mais de Dilma e de sua transformação, até a vitória nas eleições presidenciais de 2010.

João Santana: “Não subestimem Dilma Rousseff”

O responsável pelo marketing da campanha de Dilma Rousseff, em rara entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, comenta os aspectos principais e os momentos decisivos da batalha eleitoral pela Presidência da República, ressaltando os papeis do presidente Lula e da candidata. É material jornalístico de grande interesse, pelas informações que contém e por revelar o pensamento de um dos responsáveis diretos pela vitória.

Folha O sr. fez o marketing das duas últimas campanhas presidenciais vitoriosas no Brasil. Quais as diferenças e semelhanças?
João Santana – Foram campanhas profundamente dessemelhantes.

Destaco alguns dos pontos que tiveram em comum: o profundo desdém da oposição aos candidatos Lula e Dilma nas pré-campanhas; o susto que eles tomaram no início dos dois primeiros turnos com o crescimento rápido e vigoroso dos nossos dois candidatos; a falsa ilusão de vitória que eles criaram na passagem do primeiro para o segundo turno, e a desilusão e desfecho finais.

Entre os vários pontos de dessemelhança, eu gostaria de frisar apenas um, e que diz respeito diretamente à minha área: apesar das aparências, a campanha de 2010 foi de uma complexidade estratégica, e principalmente tática, imensamente maior do que a de 2006. Eu diria, até, que do ponto de vista do marketing, esta talvez tenha sido a campanha presidencial mais complexa dos últimos tempos no Brasil.

A percepção da oposição, então, segundo sua avaliação, foi equivocada?
Na pré-campanha de 2006, a oposição imaginou, erroneamente, que Lula estivesse destruído com o escândalo do mensalão. Imaginou que um discurso udenista, neurótico e tardio, pudesse influenciar amplas camadas da população na campanha. Não perceberam o incipiente, porém já vigoroso, movimento de ascensão social e de gratificação simbólica e material que vinha sendo produzido pelo governo Lula.

Na pré-campanha de 2010, houve um erro porque menosprezaram o valor pessoal e o potencial de crescimento de Dilma e, também, a capacidade de transferência de Lula. É o período da arrogante, equivocada e elitista ‘teoria do poste’.

O grande crescimento que Lula, em 2006, e Dilma, em 2010, tiveram no final das pré-campanhas, e especialmente no início do primeiro turno, deixou-os atordoados. Só se recuperaram um pouco quando foram favorecidos por fatores extracampanhas, o caso dos aloprados e o escândalo Erenice.

Por que Dilma não venceu no 1º turno? Lembro-me que as previsões internas eram de que ela teria de 56% a 57% dos votos…
Por vários fatores, alguns já facilmente percebidos e explicados. Outros que levarão ainda algum tempo para serem corretamente analisados. Começo indo na contramão da maioria dos analistas: o eleitorado brasileiro é, hoje, um dos mais maduros do mundo. E cada dia sabe jogar melhor.

Uma das provas desse amadurecimento é a consolidação, cada vez maior, da “cultura de segundo turno” nas eleições presidenciais. E ela atua, paradoxalmente, junto com a consolidação de um outro comportamento aparentemente antagônico: a consagração do princípio da reeleição. O de deixar um bom governo continuar, mas, ao mesmo tempo não aceitar passivamente tudo o que ele faz. Este conflito é uma forte demonstração de amadurecimento do eleitor brasileiro. No fundo é aquele maravilhoso conflito humano entre a reflexão e a decisão, entre a fé a descrença, entre a confiança e a suspeita, entre a entrega e a autodefesa.

Nas últimas eleições, parte do eleitorado tinha um fabuloso atalho, que era a candidatura Marina, para praticar o “voto de espera”, o voto reflexivo. E utilizou este ancoradouro, este auxílio luxuoso que era a candidatura Marina, para mandar alguns recados para os dois principais candidatos. Por essas e por outras razões houve segundo turno.

Que recados foram estes que os eleitores mandaram para Dilma e para Serra?
No nosso caso foi: “Olha, eu aprovo o governo de vocês, mas não concordo com tudo que acontece dentro dele; adoro o Lula mas quero conhecer melhor a Dilma”.

No caso do Serra: “Seja mais você mesmo, porque desse jeito aí você não me engana; mas afinal, qual é mesmo esse Brasil novo que você propõe?; me diga lá: você é candidato a prefeito, a pastor ou a presidente?”.

Os candidatos, no segundo turno, deram respostas eficientes a esses recados dos eleitores?
Nenhuma campanha, em nenhum lugar do mundo, responde a todas as perguntas, preenche todas dúvidas, nem atenua, completamente, os conflitos racionais e emocionais dos eleitores. Uma campanha será sempre um copo com água pela metade, meio vazio pra alguns, meio cheio pra outros.

No nosso caso, acho que respondemos algumas perguntas. A prova é que não apenas crescemos quantitativamente, como houve uma melhoria, mais que significativa, na percepção dos atributos da nossa candidata.

Em que se sustenta a tese de que essa foi a mais complexa campanha, estratégica e taticamente dos últimos tempos?

Por várias características atípicas, originais e exclusivas desta campanha. Para não me alongar muito, vou comentar apenas alguns fatores do nosso lado. Nós tínhamos um presidente, em final de mandato, com avaliação recorde, paixão popular sem limite e personalidade vulcânica.

Um caso único não só na história brasileira como mundial. Uma espécie de titã moderno.

Do outro lado, tínhamos uma candidata, escolhida por ele, que era uma pessoa de grande valor, enorme potencial, porém muitíssimo pouco conhecida.

Tínhamos o desafio de transformar em voto direto, e apaixonado, uma pessoa que chegava à primeira cena por força de uma escolha indireta, quase imperial. Tínhamos que transformar a força vulcânica de Lula em fator equilibrado de transferência de voto, com o risco permanente da transfusão virar overdose e aniquilar o receptor.

Tínhamos a missão de fazer Dilma conhecida e ao mesmo tempo amada; uma personagem original, independente, de ideias próprias e, ao mesmo tempo, uma pessoa umbilicalmente ligada a Lula; uma pessoa capaz de continuar o governo Lula mas também capaz de inovar.

Tudo isso dentro de um curtíssimo prazo e dentro do cenário de uma das maiores, mais vibrantes e maravilhosamente mal construída democracias do mundo, que é a democracia brasileira. E que tem um dos modelos de propaganda eleitoral, ao mesmo tempo, mais permissivo e restritivo do mundo; um calendário eleitoral hipocritamente dos mais curtos, e, na prática, dos mais longos do mundo. Isso é dose. É um coquetel infernal.

O que mais facilitou e atrapalhou o trabalho?
Acho que o que mais nos ajudou foram as lendas equivocadas que a oposição, secundada por alguns setores da mídia, foi construindo sistematicamente. E se aferrando desesperadamente a elas, mesmo que os fatos fossem derrotando uma após outra.

No início, construíram quatro lendas eleitorais: que Lula não transferia voto, que Dilma ia ser péssima na TV, que Dilma ia ser um desastre nos debates e que Dilma, a qualquer momento, iria provocar uma gafe irremediável nas entrevistas. Nada disso ocorreu, muito pelo contrário.

Construíram, pelo menos, quatro lendas biográficas: que Dilma tinha um passado obscuro na luta armada, que era uma pessoa de currículo inconsistente, que teve um mau desempenho no governo Lula, e que o fato de ter tido câncer seria fatal para a candidatura. Nada disso se confirmou.

E construíram lendas políticas. As principais eram que Dilma não uniria o PT, não teria jogo de cintura para as negociações políticas e que não saberia dialogar com a base aliada. Outra vez, tudo foi por terra.

Ora, com tantas apostas equivocadas, o resultado não podia ser outro. Se você permitir, eu gostaria adiante de comentar sobre novas lendas equivocadas que já estão começando a construir em relação ao futuro governo Dilma.

Na fase final, a oposição apostou numa guerra moral e religiosa, no mundo da ética e dos valores. Isso não atrapalhou?
De forma irreversível, não. Acho, inclusive, que no final o feitiço virou mais contra o feiticeiro. As questões do aborto e da suposta blasfêmia foram apenas vírgulas que ajudaram a nos levar para o segundo turno. Repito, apenas vírgulas.

O caso Erenice foi o mais decisivo porque atuou, negativamente, de forma dupla: reacendeu a lembrança do mensalão e implodiu, temporariamente, a moldura mais simbólica que estávamos construindo da competência de Dilma, no caso a Casa Civil.

Por motivos óbvios, vínhamos ressaltando, com grande ênfase, a importância da Casa Civil. Na cabeça das pessoas, a Casa Civil estava se transformando numa espécie de gabinete paralelo da presidência. E o escândalo Erenice abalou, justamente, esse alicerce.

Voltando à questão da moral religiosa: como a oposição abusou da dose, provocou, no final, rejeição dos setores evangélicos que interpretaram o fato como jogada eleitoral e afastou segmentos do voto independente, principalmente de setores da classe média urbana, que se chocou com o falso moralismo e direitização da campanha de Serra.

Mas essa opção às vezes à direita da oposição, em certa medida, era algo esperado. Ou não?
Eu alertei sobre isso, inclusive, em um seminário interno da Folha que participei em maio. Este é um fenômeno que infelizmente vem acontecendo, na América Latina, com alguns setores desgarrados, que antes de autointitulavam de socialdemocratas e se inclinaram perigosamente para a direita.

Passaram a utilizar, em suas campanhas, um mix de técnicas do Partido Republicano americano, mais ferramentas da direita espanhola e de operadores antichavistas da Venezuela.

Eu me defrontei com este aparato na campanha que fiz para o presidente Mauricio Funes, em El Salvador. Fomos vítimas de uma das mais insidiosas e obscuras campanhas negativas. Mas vencemos. O ideário é o mesmo, os conceitos manipulados semelhantes, as técnicas de medo iguais. O que varia é a dosagem e os instrumentos.

Aqui a direitização ficou mais circunscrita a certos tabus morais e religiosos. Mas também trafegou, principalmente na internet, no obscurantismo político de pior extração. Quem estuda este fenômeno e viu um vídeo que circulou na internet, intitulado a ‘Dama de Vermelho’, sabe do que estou falando. Por sinal, este vídeo é uma réplica de alguns que foram produzidos contra Mauricio Funes, em El Salvador, e a favor da campanha de Felipe Calderón no México.

No início da entrevista, o sr. disse que iria comentar o que considera ‘novas lendas equivocadas’ projetadas para o governo Dilma. Do que se trata?
Eu acho necessário um humilde alerta: não subestimem Dilma Rousseff. Este alerta vale tanto para opositores como para apoiadores da nova presidente.

Dentro e fora do Brasil já começam a pipocar análises apressadas de que Dilma dificilmente preencherá o grande vazio sentimental e simbólico que será deixado por Lula. E que este será um problema intransponível para ela. Bobagem.

Não há dúvida de que a ausência de Lula deixa uma espécie de vazio oceânico. Lula é uma figura única, que uma nação precisa de séculos pra construir. Mas Dilma, em lugar de ser prejudicada por este vazio, será beneficiada por ele. Basta saber aproveitar –e acho que ela saberá– a oportunidade única e rara, que tem nas mãos, de se tornar conhecida e amada ao mesmo tempo.

É preciso também estar atento para o fato de que as paixões populares são múltiplas porque o povo não é politicamente monogâmico. O povo é, por natureza, sincretista e politicamente polígamo. E há na mitologia política e sentimental brasileira uma imensa cadeira vazia, que chamo metaforicamente de “cadeira da rainha”, e que poderá ser ocupada por Dilma.

A República brasileira não produziu uma única grande figura feminina, nem mesmo conjugal. Dilma tem tudo para ocupar esse espaço. O espaço metafórico da cadeira da rainha só foi parcialmente ocupado pela princesa Isabel. Para um homem sim, seria uma tarefa hercúlea suceder a Lula. Para uma mulher, não. Em especial, uma mulher como Dilma. Lula sabia disso e este talvez seja o conteúdo mais genial da sua escolha.

Quando ficou claro que haveria 2º turno? No dia?
No dia da apuração. Havia fortes indícios de perda de substância da nossa candidata, porém, os indicadores nos davam uma relativa segurança de que ganharíamos no primeiro turno.

Ao contrário da eleição de 2006, quando eu fui o primeiro a alertar o presidente Lula de que iríamos para o 2o turno, desta vez eu fui um dos últimos a admitir isso. Acompanhando a apuração no Alvorada, ao contrário de 2006, eu era um dos poucos que ainda acreditava que ainda ganharíamos por uma margem estreita.

A receita do 2º turno deste ano se assemelha à de 2006: acusar os tucanos de serem privatistas e contra o patrimônio nacional. Mas desta vez o efeito não foi tão forte como há quatro anos. Essa fórmula está perto do esgotamento?
É reducionismo dizer que a receita do segundo turno foi a de acusar os tucanos de privatistas. Se você rever os programas e comerciais, vai constatar que discutimos modelo de política econômica, políticas sociais, modelo de desenvolvimento, entre outros temas.

Fui o responsável pela introdução do tema privatizações em 2006. Na verdade, não estava muito apaixonado pela ideia de utilizá-lo outra vez nesta campanha. Inclusive porque, ao contrário de certos homens marketing, não gosto de repetir fórmulas. Mas havia um consenso, na cúpula da campanha, de que o tema ainda estava vivo. Meu convencimento final veio quando decidimos acoplá-lo, de forma mais que justa, ao futuro do pré-sal.

Essa abordagem sobre ‘tucanos privatistas X petistas defensores do patrimônio nacional’ não seria uma exploração indevida do imaginário popular?
Já falei sobre isso e não fui muito bem interpretado. Tucanos e petistas divergem, de fato, profundamente neste tema. A sociedade brasileira sempre acompanhou com o máximo de interesse, receio e com muita cautela essa discussão.

O debate continua vivo. Por que é manipulação reacender ou esquentar esse debate? A propaganda eleitoral brasileira é um espaço bastante democrático, e mais que apropriado para este tipo de discussão. Nela, cada um pode expor seu pontos de vista e estabelecer o contraditório. Com fatos e argumentos. Sem medo e sem timidez.

Por que o Vox Populi, contratado pela campanha de Dilma, não captou a queda nas pesquisas de maneira mais precisa?
Essa é uma pergunta que o instituto pode responder melhor do que eu.

Quando as pesquisas diárias (‘trackings’) começaram as ser feitas? E os grupos de análise qualitativa? Dilma assistiu a alguns desses grupos?
Os trackings começaram uma semana antes da propaganda eleitoral. Os grupos de pesquisas qualitativas começaram também nesse período, e eram quase diários.

No segundo turno, os grupos de qualis eram diários. Eram 12 grupos, distribuídos pelas várias regiões do país. Em São Paulo, eram sempre quatro grupos, variando entre capital e interior. Duas empresas faziam esse trabalho. Em São Paulo, a Oma Pesquisas. No restante do país, a Síntese. A candidata Dilma não assistiu aos grupos por falta de tempo e de interesse direto.

Foi um erro a forma como Lula fez alguns comícios na parte final do 1º turno, falando em extirpar o DEM da política e dizendo que ‘a opinião pública somos nós’?
Como eu já disse, o presidente tem uma personalidade vulcânica. Sua intuição emocional faz com que ele acerte bastante, e às vezes cometa erros. Mas o saldo nesta e em outras campanhas sempre foi muito positivo.

Mas houve uma certa overdose de Lula no final do 1º turno, com ele aparecendo não de forma exaltada em comícios?
Na propaganda eleitoral, não. Desde o início, eu sabia que uma das coisas mais difíceis era a modulação da presença de Lula. Fiz um desenho estático que considero correto. Dividi a campanha com base nos 45 dias de TV e rádio em três fases iguais de 15 dias cada. A primeira, consistiu em colar bastante Lula a Dilma. Depois, seria preciso atenuar um pouco a presença dele no meio da campanha. E, por fim, voltar a colá-los fortemente no final.

Na primeira fase, era preciso mostrar aos eleitores que havia afinidade, respeito e confiança entre eles. Consumado isso em 15 dias, como eu esperava, com êxito, era então necessário reforçar a identidade própria de Dilma. Isso só seria possível se as pessoas conseguissem enxergá-la sem a sombra luminosa de Lula. Assim, os segundos 15 dias da campanha tiveram a troca da persona Lula pela intensificação da representação simbólica do governo Lula.

Só que no final dessa segunda fase ocorreu uma trágica coincidência: o escândalo Erenice.

E o que foi feito?
Fomos forçados a fazer uma reaproximação entre Lula e Dilma de emergência.

Mas Lula não se excedeu nos comícios?
De certa forma, sim. Mas isso é até explicável. A presença de um político no palanque permite certo tipo de arroubo que a propaganda eleitoral não comporta. Acontece que alguém quando está no palanque esquece que trechos editados de sua fala podem aparecer em telejornais de grande audiência.

Na passagem do 1º para o 2º turno, ele deu uma sumida. Por quê?
Foi por um período muito curto. Foi intencional por dois motivos. Primeiro, porque era necessário dar um certo refresco para a imagem do presidente por causa do uso excessivo em todas as campanhas em todas as unidades da Federação. Os candidatos em todos os níveis usaram e abusaram da imagem de Lula de forma excessiva e até irresponsável como nunca ocorrera antes.

Segundo, estávamos fazendo um reposicionamento estratégico, e antes que as transições conceituais ficassem claras, era importante preservar o nosso principal trunfo, que era o presidente. Foi uma operação tão delicada e corajosa que o próprio presidente Lula, na passagem do primeiro para o segundo turno, chegou a me questionar a respeito.

Muitos temeram a derrota nessa fase?
Temer a derrota é inerente a qualquer um envolvido em uma campanha. Sobretudo quando há uma quebra de expectativa, que foi o que ocorreu com a ida para o segundo turno.

De certa maneira, esse mesmo sentimento perpassou a campanha de 2006, no início daquele segundo turno.

Quando Dilma teve câncer, o que a área de marketing da pré-campanha fez?
Primeiro, foi um susto. Uma situação insólita. Iniciar uma campanha com uma candidata pouco conhecida e enfrentando um desafio dessa magnitude. Só havia então um caminho que era buscar o máximo de transparência. Todo o tratamento foi ampla e livremente noticiado pela mídia. Num caso como este não se pode, nem se deve inventar ou maquiar nada. A verdade é o melhor remédio. Até porque ela sempre prevalece.

A sua contratação ocorreu a partir de quando?
O PT me contratou para dar consultoria e fazer as propagandas partidárias em 2009.

Como Dilma reagiu à necessidade de fazer operação plástica no rosto e na região do pescoço, mudar o vestuário, treinar oratória, aceitar cabeleireiro e maquiadora sempre perto?
Variou. A decisão de fazer a operação plástica, por exemplo, foi dela. Como toda mulher, quando se trata de estética, ela gosta de ela mesma tomar iniciativa. Ou, pelo menos, de pensar que foi dela a decisão.

Por que Dilma tem dificuldade para falar em público, às vezes não completando um raciocínio?
Durante toda a sua vida, Dilma foi treinada mais para fazer do que para falar. Além disso, ela é daquelas pessoas que tem raciocínio mais rápido do que a verbalização. E algo ainda mais complexo: imagine uma pessoa que nunca foi candidata a nada inaugurando sua vida eleitoral sendo candidata a presidente de um país do tamanho do Brasil?

Tudo isso provoca um tipo de tensão e ansiedade que obviamente repercute na maneira de se comunicar. Porém, o mais surpreendente, é que Dilma superou todos esses obstáculos de maneira brilhante. O mérito maior é dela.

Como era sua equipe na campanha?
Tive a felicidade de formar um “dream team”. Cerca de 200 pessoas estiveram envolvidas. Alguns já trabalhavam comigo há muito anos como Eduardo Costa, meu braço direito e um dos grandes responsáveis pelo sucesso da campanha. Outros se reaproximaram e foram fundamentais como Marcelo Kértesz, Lô Politi e Giovani Lima, como diretores de vídeo. Sem falar da presença essencial de Mônica Moura, minha mulher e sócia.

Como presidente Lula interagiu com Dilma durante a campanha?
Em termos presenciais, o contato foi muito menor do que quando ela estava no governo.

Haveria alguma forma de o PSDB usar de maneira positiva, em nível nacional, a imagem de FHC em uma campanha presidencial?
Num período muito curto de campanha, seria muito difícil, quase impossível. Se eu estivesse no lugar de Luiz Gonzalez [publicitário da campanha de José Serra], que considero um dos melhores marqueteiros do Brasil, talvez eu fizesse o mesmo que ele fez.

O uso da imagem de FHC só seria viável eleitoralmente depois de um trabalho consistente ao longo de um período de vários anos. Seria preciso recuperar uma narrativa do governo tucano, que teve méritos, mas ficou com a imagem avariada por causa do final da administração FHC.

Creio ter havido um desleixo da parte do próprio Fernando Henrique, com uma atitude olímpica. Quem sabe, por vício acadêmico, ele esperava um resgate histórico que viesse apenas por gravidade. Mas, no seu caso, seria necessário mais do que isso. Ele e seu partido teriam de se esforçar para defender a imagem daquela administração, deixando de lado a timidez ou o medo que demonstram ter.

Teria sido possível neste ano eleger José Serra ou algum candidato de oposição? Com qual estratégia?
Muito improvável. A menos que cometêssemos alguns erros e a oposição milhões de acertos

Aécio Neves teria tido condições de vencer Dilma?
Poderia ter feito uma campanha mais bonita e mais vibrante do que Serra. Mas mesmo assim seria derrotado.

Como foi e com qual frequência se deu neste ano sua relação com o publicitário de Serra, Luiz González?
Sempre tivemos uma boa relação. Admiro o González tanto por sua competência como por seu caráter. E é sempre uma parada dura enfrentá-lo numa campanha. Nos falamos várias vezes durante esta campanha para negociarmos regras de debates e outros detalhes envolvendo participações dos nossos candidatos.

A negociação mais insólita foi quando liguei, pra ele, na véspera do Círio de Belém, sugerindo que abríssemos mão da propaganda eleitoral na TV no dia da festa, no Pará. Ele pediu pra consultar o Serra e topou. Tenho certeza que os paraenses gostaram muito desta atitude e Nossa Senhora de Nazaré, com certeza, abençoou os dois candidatos.

Esta eleição teve dez debates. Quais foram os mais úteis eleitoralmente? Os da Globo, pela alta audiência?
Todos foram importantes, mas nenhum decisivo.

Todos os debates foram engessados por regras impostas pelos candidatos e seus assessores. O que seria necessário para haver debates mais livres?
Os debates, como algumas regras da propaganda eleitoral, têm de ser revistos. O problema dos debates é que dependem da vontade dos candidatos. E vontade dos candidatos é a coisa mais difícil de administrar.

E no caso do horário eleitoral, o que pode ser feito?
Eu acho que a lei de propaganda eleitoral é uma das mais modernas do mundo. Porém, há situações anômalas que devem ser corrigidas. Por exemplo, a legislação sobre pré-campanha. Outra, a legislação do segundo turno.

No caso do segundo turno, como está concebido, é uma violência contra os candidatos, contra os partidos, contra os eleitores e contra as equipes que produzem os programas eleitorais. Deveria haver menos propaganda, mais debates obrigatórios, mais liberdade de entrevistas nos meios de comunicação eletrônicos e a eleição em si ser mais próxima da do primeiro turno.

Qual foi a importância da internet na campanha?

Ao contrário do que se fala, a internet teve um papel importante nesta eleição. Pena que tenha sido usada, muito fortemente, para veicular campanha negativa raivosa, anônima e, muitas vezes, criminosa. Isso terminou por diminuir muito a credibilidade do material que circulava na web. Mas a cada dia o papel da internet será maior nas eleições brasileiras. E isso é muito bom para a disputa eleitoral e para o avanço democrático.

Nos EUA, a web é usada na difusão de propaganda negativa, mas também na arrecadação de fundos. Quando haverá isso aqui?
Como já disse, houve um predomínio de propaganda negativa. Mas a mobilização nas redes sociais foi também intensa. Esta é a grande chave, no futuro, para aumentar o impacto da web nas eleições.

Qual foi o saldo da contratação de técnicos que trabalharam na campanha da web de Barack Obama?
A participação deles ficou praticamente restrita à transferência de tecnologia e de ferramentas. Não participaram da estratégia nem da conceituação da campanha em nenhum nível. Mas são profissionais bem competentes em sua área.

Teria sido possível eleger algum outro ministro técnico como Dilma usando a mesma estratégia?
Acho que seria muito difícil. A escolha de Dilma foi uma das maiores provas da intuição e da genialidade política do presidente Lula. Eu tive o privilégio de ser uma das primeiras pessoas a saber da decisão do presidente e a fazer estudos sobre isso, a pedido dele.

Desde o início ficou claro que a transferência de votos se daria de forma harmônica e fluídica. Está provado que a transferência, na maioria das vezes, se dá mais pelas características do receptor do que do doador. De todos os possíveis candidatos, Dilma reunia as melhores condições para isso. Era mulher, ocupava um papel-chave no governo, tinha passado e presente limpos, era competente, firme, corajosa, combativa e tinha fidelidade absoluta ao presidente.

Além disso, por causa do tipo de personalidade de Lula, era muito mais natural e com maior poder de sedução junto ao seu eleitorado, ele pedir voto para uma mulher do que para um homem.

Em 2014, os parâmetros de exigência da população estarão elevados para outro patamar e o Bolsa Família terá menos importância?
Primeiro é bom esclarecer, que no campo da psicologia do voto, o Bolsa Família é percebido pelos seus beneficiários como um detalhe importante, porém um detalhe, de uma coisa ainda maior e mais forte para eles que é o olhar social do governo Lula.

O programa, em si, tem apelo eleitoral? Tem. Porém menos do que se apregoa. E, como já disse, não funciona de forma isolada. Acho que poucos governos, como o do presidente Lula, e, tenho certeza, o da presidenta Dilma, reúnem tantas condições de poder acompanhar o que você chama de elevação de parâmetros de exigência da população.

Na verdade é mais do que isso. Quando o governo Lula retirou 28 milhões de pessoas da miséria e levou 36 milhões para a classe média estava, ao mesmo tempo, dando vida digna e cidadania a estas pessoas, elevando seu nível de vida e, simultaneamente, elevando os seus ‘parâmetros de exigência’. Ou seja, as políticas públicas de Lula e de Dilma são maiores do que qualquer tipo de pragmatismo eleitoral.

Se quiser vencer, o que deve fazer a oposição daqui até 2014?
Não me sinto apto a dar conselhos à oposição. Ela tem consultores mais competentes do que eu para isso.

O sr. foi convidado a continuar prestando assessoria de imagem e marketing para Dilma Rousseff?
A presidenta eleita não me falou nada sobre isso e eu tenho uma agenda internacional carregada, nos próximos três anos, que atrapalharia bastante um trabalho deste tipo.

Uma ala do PT, entre os quais José Dirceu e Fernando Pimentel, desejava a sua saída e a volta de Duda Mendonça. Como foi essa disputa?
É natural que na política, nos negócios e no amor as pessoas queiram se associar com quem têm afinidade. Até hoje, não sei exatamente quem participou dessa articulação. Só sei que foi um grupo muito pequeno e que não contava com o apoio da cúpula da campanha nem do PT. Lula e Dilma sempre me apoiaram integralmente. O ex-presidente do PT Ricardo Berzoini e o presidente atual da legenda, José Eduardo Dutra, sempre me deram todo apoio.

Quais são os seus planos profissionais a partir de agora?
Eu tenho muitos clientes fora do Brasil e provavelmente me dedique mais a eles, nos próximos dois anos. Estou examinando também, com carinho, uma proposta de sociedade de uma empresa americana de marketing político para atuação junto ao eleitorado latino, nos Estados Unidos.

Quero ver, também, se tenho tempo de terminar dois livros que estou escrevendo, um romance e outro sobre marketing político. Além disso, quero ver se volto a me dedicar à música.

Quanto o sr. cobrou para fazer a campanha de Dilma Rousseff?
O custo total da área de propaganda e marketing, incluindo as pesquisas qualitativas e as quantis estratégicas, foi de R$ 44 milhões.

O Brasil é o país latino-americano no qual as campanhas políticas são as mais caras?
O custo das campanhas no Brasil está diretamente relacionado ao tamanho do eleitorado, à força de sua economia e à qualidade e sofisticação do seu marketing eleitoral. Sem dúvida, um dos melhores do mundo.

Continua a existir uma imagem negativa dos marqueteiros. Esse é um problema de marketing que os principais envolvidos não conseguem solucionar?
Acho que esta suposta imagem negativa está circunscrita a determinados setores da sociedade que não entendem –ou não querem entender– o verdadeiro papel do marketing político.

Para a maioria da população ocorre exatamente o contrário: há uma profunda curiosidade e atração pelo nosso trabalho. Assim como somos um país com dezenas de milhões de técnicos de futebol, estamos também nos transformando num país com milhões de marqueteiros.

É incrível como hoje todo mundo discute e “entende” de marketing político. Chega a ser pitoresco, nos grupos de pesquisa qualitativa, como eleitores de todas as camadas sociais comentam, opinam e desvendam os segredos do marketing. É uma escola de prática de política.

Há semelhanças entre a transferência de poder do russo Vladimir Putin para Dmitri Medvedev, em 2008, e agora no caso dos brasileiros Lula e Dilma?
Li sobre isso na mídia internacional. É um equívoco absoluto, uma leitura caricata e ligeira. A democracia no Brasil é mais complexa e sofisticada. Mas isso me faz lembrar uma história curiosa.

Como a eleição brasileira chama a atenção em vários países, no início de maio, um emissário não oficial do governo russo mandou um recado para a campanha de Dilma. Essa pessoa queria oferecer o que seria uma técnica que dizia ser infalível de transferência de votos baseada na experiência exitosa de Putin para Medvedev.

Demos muita risada e é claro que recusamos. Mas tenho a impressão que um ou outro integrante da nossa campanha chegou a ficar tentado em pelo menos ouvir o que os russos tinham a dizer. Mas é óbvio que nenhum contato foi feito, embora o episódio demonstre como era imprevisível para alguns a capacidade de Lula de transferir votos para Dilma.

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