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PT e a Social-Democracia – Parte III

E no terceiro post da série publico o segundo capítulo do livro-ensaio “O PT e a Social-Democracia: de um programa de ruptura à administração do capitalismo”, escrito por mim em 2004 como trabalho de conclusão do curso de Jornalismo – saiba mais sobre esse livro clicando aqui.

Este ponto do livro procura debater um pouco mais a formação de um programa socialista, ou seja, se trata de uma parte mais teórica que a anterior, que procurou dar um breve panorama sobre a participação socialista na administração de governos capitalistas, ou nas tentativas de ruptura total com o sistema, prevalecendo a primeira na maioria dos casos. Hoje serão apresentadas, de forma resumida, as ideias de Karl Marx quanto a um programa socialista, o chamado “socialismo adaptado” de Eduard Bernstein, que abre caminho para as social-democracias europeias desejarem vencer as eleições e governarem sistemas capitalistas sem “culpa”, além de  uma crítica de Rosa Luxemburgo a esse modelo de Bernstein – ambos eram contemporâneos.

Por fim, um preâmbulo analítico da situação do PT que tenta compreender o porquê que o partido, assim como as social-democracias europeias, abandonou o seu programa radical de seus primórdios e adotou posturas pragmático-eleitoreiras, afastando de sua base social inicial e aderindo à táticas eleitoreiras para alcançar o poder e administrá-lo dentro do atual sistema, se configurando como um partido da ordem. É a partir daqui que a “coisa” esquenta de vez. Boa leitura!

Segundo Capítulo: Marx X Bernstein – Discussões Teóricas para a Formação de um Programa Socialista

 

Na esteira desse processo estão duas teses sobre o socialismo que causaram toda essas reviravoltas na história da social democracia no mundo e que polarizaram a disputa dentro do próprio socialismo: buscar uma transformação da sociedade através da revolução ou dentro dos marcos democrático-burgueses, pelo voto? Essa é uma discussão que existe desde quando Bernstein introduziu suas teses de adaptação do capitalismo, sendo que antes Marx já tinha formulado as primeiras teses de um socialismo revolucionário, de ruptura com o capitalismo. Esse debate sobreviveu aos anos e foi sempre motivo de rusgas dentro dos partidos de esquerda no mundo. Afinal de contas, qual caminho seguir? Que caminhos são esses?

 

O Socialismo Revolucionário de Karl Marx

 

A primeira tese contundente a surgir no socialismo mundial, que levava em conta as transformações históricas das sociedades como instrumento de compreensão e ação do movimento proletário foi o socialismo chamado à época de científico, de Karl Marx e Friedrich Engels, os maiores ícones representantes das teses comunistas revolucionárias.

O primeiro documento de impacto em que constavam as opiniões dos socialistas que planejavam uma ruptura do sistema burguês foi produzido em 1848, como dito no primeiro capítulo e trata-se do Manifesto Comunista. Para Marx, o proletariado assumiria o cetro da governança mundial após as constantes crises capitalistas[1], sendo um caminho natural após a derrubada do feudalismo pela burguesia. Esta havia construído, segundo Marx, os meios de sua própria ruína.

“As condições da sociedade burguesa são estreitas demais para abranger toda a riqueza que criou. E como faz a burguesia para vencer estas crises? Por um lado, reforça a destruição da massa de forças produtivas; por outro lado, tenta conquistar novos mercados e busca uma exploração mais completa dos antigos[2]”. Isso quer dizer que para sair de uma crise ela cria mecanismos para o surgimento de outra pior ainda e assim vão crescendo as crises e os afetados, os trabalhadores, são sempre os mais prejudicados.

Os comunistas, portanto, deixam claros seus objetivos, dizendo que suas intenções imediatas são “a formação do proletariado em uma classe, a derrubada da supremacia burguesa, a conquista do poder político pelo proletariado” (Marx e Engels, 2001, p. 30). Outro ponto evidente no manifesto está na abolição da propriedade privada, dada que ela é forma de concentração de bens da burguesia e deveria ser eliminada, dando um caráter social à propriedade, ou seja, de interesse comum a todos.

Os comunistas desejavam mudar o caráter vil do trabalho no estado capitalista. “Queremos apenas abolir o caráter miserável desta apropriação, sob a qual o trabalhador vive, meramente, para aumentar capital e permite-lhe viver somente o quanto o interesse da classe governante requer” (Idem, p.32-33).

De acordo com o manifesto o início de tudo para a revolução do proletariado está em conduzi-lo à posição de classe governantes. “O proletariado usará a sua supremacia política para arrebatar, gradativamente, todo o capital da burguesia, para centralizar todos os instrumentos de produção nas mãos do Estado” (Idem, p. 42). O mais curioso está no manifesto apontar que, de princípio, a retirada dos direitos de propriedade e das condições de produção burguesa não deveriam ser retirados de forma despótica, isto é, à força, e sim, através de medidas que fariam o trabalho de forma gradativa e dentro da ordem. Ao mesmo tempo que coloca desta forma, o manifesto indica, em outro ponto, que a  tomada do poder se dará de forma agressiva: “Declaram que seus fins só podem ser atingidos pela derrubada violenta de todas as condições sociais existentes” (Marx e Engels, 2001, p. 63).

De qualquer forma, o manifesto elabora um plano de 10 medidas que giram em torno da: abolição da propriedade na terra, de um imposto de renda progressivo, a abolição do direito de herança, o confisco das propriedades dos emigrantes e rebeldes e a centralização do crédito nas mãos do Estado, apenas para citar alguns. Este mini programa era a forma de encarar o processo evolutivo de lutas que a classe proletária conquistaria e implantaria até sua total dominação e a conseqüente extinção das classes.

Se alguns pontos ficam límpidos como um copo d’água, outros deixam o copo mais sujo do que lodo em dia de chuva. Para Norberto Bobbio[3] a formulação de uma teoria de Estado por Marx, e até mesmo o programa comunista se limita aos fragmentos citados do próprio documento inicial.

A questão da teoria do Estado, de acordo com Bobbio (1983), ocorre por conta da confusão entre extinção de estado, com as idéias de Marx sobre uma fase de transição, sob o controle do Estado. Bobbio (1983) crê que, quando o pensador alemão trata disso, quer dizer que essa fase de transição é rápida e deve-se passar o governo à mão das massas proletárias o mais breve possível. Isso fica evidente quando Marx fala que o controle deve ficar nas mãos do Estado até que sejam eliminados os antagonismos de classe, fato que a nova classe dominante, o proletariado, não será reinante, pois não haverão mais classes.

O teórico socialista italiano crê ser necessário discutir uma teoria de estado socialista, por conta da “persistência do provisório”, referindo-se à União Soviética e demais países do leste europeu que a seguiram e não eliminaram a ditadura do proletariado, dando o poder par ao povo. A única experiência mais próxima de uma análise de Estado dentro de Marx está na Comuna de Paris, citada no capítulo inicial deste livro, em que o teórico alemão detalha certas particularidades daquele governo constituído pelos trabalhadores de Paris.

Como Marx coloca que a idéia da Comuna não era de destruir a unidade da nação francesa, mas sim, “de organizá-la mediante um regime comunal, convertendo-a numa realidade ao destruir o poder estatal, que pretendia ser a encarnação daquela unidade[4]”. Exemplo disso estava na forma da democracia do sufrágio universal. Ao invés de eleger de tempos em tempo a classe dominante ao poder, o sufrágio universal deveria servir “ao povo organizado em comunas”, de forma idêntica ao “sufrágio individual”, que serve aos patrões que buscam trabalhadores para seus negócios, mencionou Marx (1986).

Marx afirmava que a simples existência da Comuna implicava como um regime de autonomia local, tornando o poder estatal e sua forma de governo inúteis.”Outro fator importante está na economia tão desejada pelos burgueses e feita tranqüilamente pela Comuna ao acabar com dois fatores de gastos no governo: o exército permanente  e a burocracia de Estado” (Marx, 1986). Para ele, a Comuna formou uma República com bases de instituições democráticas.

Marx aponta a Comuna como uma forma de governo flexível, ao contrário das formas anteriores. “A Comuna era, essencialmente, um governo da classe operária, fruto da luta de classe produtora contra a classe apropriadora, a forma política afinal descoberta para levar a cabo a emancipação econômica do trabalho” (Marx, 1986). Marx diz que sem essa condição, este regime teria sido impossível. “A dominação política dos produtores é incompatível com a perpetuação de sua escravidão social. A Comuna devia servir de alavanca para extirpar os fundamentos econômicos sobre os quais se apóia a existência das classes e, por conseguinte, a dominação de classe”, defendeu (Marx, 1986).

O Socialismo Adaptado de Eduard Bernstein

Já nos fins do século XIX, com Marx morto em 1883 e a social democracia alemã crescendo em uma proposta que nem lembrava na prática os posicionamentos firmes da dupla Marx-Engels, surgiu um teórico a esquematizar toda a proposição nova que se achegava ao mundo naquele período. Eram as teorias de adaptação ao capitalismo de outro alemão, Eduard Bernstein. Como já dito na primeira parte do livro, Bernstein escreveu uma série de artigos denominados Problemas do socialismo para a revista do SPD, a Die Neue Zeit.

No ano seguinte ele lançou o livro As premissas do socialismo e as tarefas da social democracia em que apresentava o caminho das reformas para trazer o socialismo à realidade, transformando os meios[5] em seu próprio fim, ou seja, a luta pelas reformas como um fim em si próprio a ser buscado a todo o momento pelos trabalhadores, começados a serem chamados de operários, e não mais somente de proletariado, como nos tempos de Marx.

Para Bernstein (1997) o socialismo seria um “aprimoramento do sistema democrático-representativo”, que nada mais é que uma ligação dos ideais socialistas ao ideário liberal, como sendo seu “herdeiro legítimo”, segundo o próprio teórico. Para Bernstein (1997) não há socialismo científico, nem materialismo histórico, pois o socialismo é um ideal moral e como tal deve ser perseguido de forma a um ideal a ser alcançado e não algo estabelecido pelas mudanças provocadas pelo motor da história.

Ele supera a tese marxista sobre as crises, ao afirmar que não haveria crise catastrófica alguma que colocaria no esquecimento o capitalismo. Para isso ele recorre ao fato que o número de proprietários crescia gradativamente na Alemanha da década de 1890. “O enorme incremento de riqueza social não é acompanhado por um número decrescente de grandes capitalistas, mas por um aumento do número de capitalistas de todos os graus” (Bernstein, 1997, p. 24). Por isso ele define que todo homem da sociedade burguesa é cidadão, eliminando qualquer distinção de classe entre burguês e proletário. A definição de cidadão para toda e qualquer pessoa não é a toa e é vislumbrada sim para igualar uma condição que, na visão dele, realmente acontecia.

Ao colocar desta forma ele reforça a necessidade de fazer das lutas por conquistas trabalhistas o motor da classe operária, pois, só assim, de acordo com Bernstein, as condições de melhorias podem avizinhar-se, e não com a luta pela revolução, considerando o proletariado uma classe sem força e maturidade para tomar tal decisão. Isso faz com que ele aborte a questão dos operários no poder: “Não está em discussão a necessidade de que as classes sociais obtenham o controle do governo” (Idem, p. 26).

Bernstein coloca que é impossível o Estado tomar para si grandes empresas e os mercados que eles estão envolvidos: “O estado não poderia mesmo encarregar da totalidade das empresas médias e pequenas, nem as autoridades locais, como elos de ligação, poderiam fazer grande coisa par auxiliar na intervenção estatal” (Idem, p. 94). O teórico alemão coloca como solução a esse problema o controle econômico através das associações cooperativas de consumo. “O armazém cooperativo dos trabalhadores tanto é uma espécie de caixa econômica como um meio de combater a exploração que o comércio varejista significa às classes trabalhadoras” (Idem, p. 102).

Ele questiona a ditadura do proletariado em um tempo que todos os representantes da democracia social se colocarem “na área de trabalho parlamentar, se declararem favoráveis à representação proporcional do povo e pela legislação direta” (Idem, p. 115). Ele provoca se isso é compatível com a ditadura. Bernstein diz que a ditadura de classes é pertencente a uma civilização menor “e deve ser apenas encarada como uma reversão, um atavismo político” (Ibidem). Para Bernstein, o socialismo só é possível ser articulado através dos marcos institucionais democrático-burgueses, pois, para ele, o socialismo só existe por meio da democracia e suas lutas uterinas. “A conquista da democracia, a formação dos órgãos políticos e sociais da democracia é a condição preliminar indispensável à realização do socialismo” (Bernstein, 1997, p. 125).

Para Bernstein (1997) deve-se crer a democracia social, os trabalhadores, “um partido democrático, socialista, de reforma”. Para ele a democracia social é um “partido que luta pela transformação socialista da sociedade, pelos meios da reforma democrática e econômica” (Bernstein, 1997, p. 144), declarando que a evolução independe da revolução, qualificando-a como meramente especulativa e desprovida de porquês, crendo que com ela ou sem ela a evolução levará ao socialismo.  Bernstein esclarece as diretrizes que a social-democracia deve possuir: “Toda a atividade prática da democracia social está dirigida no sentido de criar circunstâncias e condições que tornem possível garantam uma transição (isenta de erupções compulsivas) da moderna ordem social para outra mais evoluída” (Idem, p. 115).

Reforma ou Revolução? Uma Crítica de Rosa Luxemburgo ao Modelo Bernsteiniano

A revolucionária alemã Rosa Luxemburgo escreveu uma obra chamada Reforma ou Revolução? em que questiona os pontos levantados por Eduard Bernstein para a formação de um estado socialista baseado  em reformas de caráter atenuador das crises capitalistas e não uma superação do sistema capitalista gerador de crises. O livro trata-se de uma tentativa de resposta, cruzando os pontos levantados por Marx crer na revolução como forma do alcance da sociedade socialista e de Bernstein e sua crença na via reformista, tendo ela criticado este último.

Para Luxemburgo a consciência de classe se torna “impedida” pelos meios de adaptação deste sistema[6], pois parte para uma forma idealista de sociedade. Para ela, ou os meios de adaptação não conseguiam minimizar o problema e a transformação socialista se faria necessária, ou, então, esses meios de adaptação atenuariam as crises, acabando, entretanto, com a possibilidade histórica do socialismo ser pelo “desenvolvimento material da sociedade”.

Segundo ela, o teórico alemão Bernstein coloca os sindicatos, as reformas sociais e a democratização política do Estado como condições progressivas ao socialismo. Só que essa divisão, para Luxemburgo, está na sociedade feudal, de divisão dos direitos adquiridos através de esquema jurídico antigo. Trata-se de uma produção da propriedade e não o fim dela. “O controle social das sociedades por ações, absolutamente nada tem em comum com uma participação do direito de propriedade, com uma suposta ‘propriedade suprema’” (Luxemburgo, p. 31). Para ela os sindicatos e política devem atuar na divulgação de conhecimento, na consciência do proletariado.

Bernstein fala de uma passagem do Estado para a sociedade, segundo a evolução progressiva para o socialismo. Ocorre que como é um estado de classe, está organizado por e para a classe dominante, seu desenvolvimento não reflete seus próprios anseios. Só que há um porém: “Quando este desenvolvimento tiver atingido certo nível, os interesses da burguesia, enquanto classe, e os do progresso econômico começam a chocar-se, mesmo no sentido capitalista” (Idem, p. 32). Para Luxemburgo, isso já ocorria na época com a política alfandegária (de proteção de escoadouros de um grupo capitalista contra outro) e o militarismo (a guerra como fonte de desenvolvimento e doença capitalista).

A luta  pelas reformas sociais no capitalismo não faz evoluir para o fim em si do socialismo, perdendo seu caráter, além de não se sustentar: “A conseqüência direta será a doação de sua ‘política de compensações’” (idem, p. 37). Luxemburgo diz: que “o revisionismo reduz o movimento operário a um simples movimento compensatório e reformista, encaminhando-se naturalmente para o abandono do ponto de vista de classe” (Ibidem).

A concepção bernsteiniana não descarta as contradições do capitalismo, mas não se baseia na “supressão dessas contradições” como fim de seu desenvolvimento próprio. Para Rosa o revisionismo está no meio de 2 opostos: “Não visa levar à maturidade as contradições capitalistas e suprimi-las por meio de uma transformação revolucionária, e sim atenua-las, suaviza-las” (Luxemburgo, p. 38). Como as contradições da sociedade “são simples resultados do modo de produção capitalista” e a idéia de Bernstein é atenuar essas contradições que o capitalismo cresce e agrava de forma constante, Luxemburgo classifica a teoria de Bernstein “uma cessação do desenvolvimento capitalista”, por tentar barrar o crescimento desordenado deste sistema.

Aqui, Luxemburgo refuta a tese revisionista que os capitalista estavam aumentando na Alemanha. “Como explicar que Bernstein considere, ao contrário, precisamente como esmigalhadamente e não como concentração de capital, o fenômeno das sociedade por ações, e veja a extensão da propriedade capitalista precisamente onde Marx via a ‘supressão desta mesma propriedade?’” (Idem, p. 47). Para ela, isso ocorre porque Bernstein incorre no erro de “não entender por capitalista uma certa categoria da produção, mas sim do direito de propriedade, não uma unidade econômica, mas uma unidade fiscal, e por capital, não um fator da produção, mas simplesmente certa quantidade de dinheiro” (Ibidem). Por isso que a “difusão das pequenas ações” são para ele o fato cabal que o mundo “cresce” em capitalistas.

A revolucionária alemã diz que o erro de Bernstein está na “base teórica de uma vulgarização do socialismo”. Ele transporta a discussão de capital e trabalho para ricos e pobres, ao fazer essa parte das relações de produção (quem detém grande parte dos meios) para a propriedade (que possui só uma pequena parte).

Para o revisionismo, a democracia é a principal condição política, assim como os sindicatos e as cooperativas. Para Bernstein, a democracia é a “etapa inestimável da sociedade moderna”, configurando-se nos preceitos burgueses de democracia, no mesmo modo de pensar do liberalismo. Para Rosa isso se mostra errado, pois a democracia existiu em períodos anteriores. Para ela, “as instituições democráticas esgotaram completamente o seu papel no desenvolvimento da sociedade burguesa” (Luxemburgo, p. 65), isso, por conta da criação dos grandes Estados modernos, em fins do século XIX.

Luxemburgo define bem a questão da reforma e da revolução num ambiente teórico. “É inteiramente falso e contrário à história representar-se o esforço pelas reformas unicamente como a revolução desdobrada no tempo, e a revolução como uma reforma condensada. Não se distinguem uma transformação social e uma reforma legal pela duração, mas pelo conteúdo” (Luxemburgo, p. 62).

Luxemburgo, partindo da teoria revisionista conclui que ela não pretende a realização da ordem socialista, mas sim reformar a ordem capitalista, ou seja, não suprimir o salário, mas diminuir a exploração, é uma “supressão dos abusos do capitalismo e não do próprio capitalismo” (Ibidem).

Para ela, a diferença da sociedade burguesa é que ela está calcada em relações econômicas, enquanto que as anteriores estavam em questões jurídicas. Ou seja, o salário não está estipulado em lei, isto é, escravidão pelo salário, e não há como acabar com ele, pois não é uma figura pura e simples. “Cada vez mais tem a produção um caráter social. Mas de que forma se exprime esse caráter social? Toma a feição da grande indústria, da sociedade por ações, do cartel, que agravam ao extremo, em seu seio, os antagonismos capitalistas, a exploração, a opressão da força-trabalho” (Luxemburgo, p. 64).

Finalmente, por Bernstein rejeitar a teoria do desmoronamento capitalista, Luxemburgo afirma que a tese revisionista desmoronou, pois ele abandonou as teses do socialismo científico. “Sem desmoronamento do capitalismo é impossível a expropriação da classe capitalista” (Idem, p. 69). Bernstein renuncia, então, à exploração, para estabelecer como finalidade do movimento operário a realização progressiva do “princípio cooperativo”. Acontece que, no “seio da produção capitalista” hão há possibilidade de acontecer a cooperação, aponta Luxemburgo.

Uma proposta de caminho…

Todo esse ínterim teórico é para fundamentar a trilha aberta da discussão que pretendemos fazer que é trazer a social democracia e sua mudança programática ao longo de sua caminhada histórica, de um programa revolucionário, de ruptura com o capitalismo e a criação de uma nova sociedade, a socialista, para a adoção de programas cada vez mais distantes das teses marxistas e mais próximos de adequações e submissões ao capital, reformando-o, administrando-o e radicalizando-o, dependendo do período histórico, como vimos há pouco.

O exemplo destacado para fazer tal análise é o Partido dos Trabalhadores, por ser o maior partido de esquerda da América Latina, com significativa representação perante toda a esquerda latino-americana e grande representatividade dentro da classe trabalhadora brasileira. O PT, ao nosso ver, também efetuou esse processo de transformação, de um partido nascido da classe operária do ABC paulista e de suas lutas, com um programa de ruptura com vários pontos do capitalismo, como ao pagamento da dívida externa, rompimento com o Fundo Monetário Internacional (FMI), reforma agrária radical, entre outros pontos a serem estudados com maior acurácia no próximo capítulo.

Ao passo de hoje trata-se de um partido afastado de suas bases, comandado, sem diálogo e sem possibilidade de divergências, essencialmente pelo grupo dirigente que o levou a, chamada pelos políticos e teóricos de esquerda, direitização do Partido dos Trabalhadores, com um programa de governo amplamente voltado a burguesia nacional e ao capital internacional.

Essa mudança processou-se ao longo de toda a sua história, com um a deteriorização de seus quadros cada vez maior com o passar dos anos, devido a busca excessiva pela via eleitoral, transformando a tática em estratégia, muito debatida pelos socialistas de todos os tempos e criticada por Rosa Luxemburgo e Vladimir Lênin, mencionada por Valério Arcary em sua análise do revisionismo[7] de Eduard Bernstein.

Bem, essa verdadeira mutação provocada dentro do partido tem um porquê, não é mesmo? Nós achamos que o cerne da discussão está na alteração de sua base social em conjunto com a ampliação do arco de alianças – como conseqüência da estrategização da tática eleitoral – com os partidos da ordem burguesa – na verdade a mudança da base, segundo a possibilidade levantada, levou a todo o resto – o fato maior para essa mutação petista.

Mas falemos um pouco mais sobre a questão da base social, colocada como hipótese a ser verificada neste trabalho, assim como a questão do arco de alianças com os partidos burgueses. De acordo com nossa percepção, o partido sofreu uma modificação significativa de seus quadros operários desde sua fundação até os dias de hoje. Grande parte de sua base ascendeu à máquina estatal com o PT alcançando administrações municipais, estatais e agora federal. Sua burocracia – fonte de uma renda de contribuições compulsórias importante – cresceu e causou uma luta pela manutenção de interesses próprios, o que teria causado uma institucionalização do partido e uma conseqüente cegueira para o movimento socialista das crescentes lutas do operariado, em prol da disputa eleitoral para garantir de cargos públicos.

O caráter dessa base social teria mudado, ascendido, como mencionou Francisco de Oliveira em seu “Ornitorrinco[8]”, a administração de fundos de pensão, se desligando de suas germes sindicais cada vez mais, minando qualquer tipo de movimento de base, dada a preocupação com a manutenção de sua vida útil dentro da maquina burocrática do partido, fato que acabou afastando o grupo dirigente do partido de suas bases, e, na verdade, inexistindo hoje qualquer movimento popular das bases petistas.

É com essa hipótese que o trabalho está fundamentado e seguirá, a partir de agora, para uma análise aprofundada do programa de governo petista e outros documentos de sua fundação e a Carta ao Povo Brasileiro e o programa de governo para as eleições presidenciais de 2002, que já foi abandonado em muitos pontos, em prol de políticas econômicas mais austeras, o que faz a pesquisa ampliar o horizonte deste último programa. Se faz necessário para a formulação do debate posterior a respeito de compreender que caminhos levaram o PT a essa transformação e como eles foram transpostos passo a passo,  para entender sua forma atual tão próxima de um partido como qualquer outro como nunca esteve, de esperanças eliminadas por muitos atores que participaram da história do PT.


[1] Isso porque, segundo Marx, esta era a única classe possível de derrubar a burguesia: “De todas as classes que se põem frente a frente hoje com a burguesia, somente o proletariado é uma classe realmente revolucionária”. In MARX e ENGELS, Karl e Friedrich. O Manifesto Comunista. 7º edição. São Paulo: Paz e Terra, 2001, p. 25.

[2] MARX e ENGELS, Karl e Friedrich. O Manifesto Comunista. 7º edição. São Paulo: Paz e Terra, 2001, p. 18.

[3] BOBBIO, Norberto. Qual Socialismo?. 3º edição. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.

[4] MARX, Karl. A Guerra Civil na França. São Paulo: Global, 1986.

[5] Bernstein deixa bem claro seu ponto de vista: “para mim, o que geralmente se chama fim último do socialismo é nada, mas o movimento é tudo”, In BERNSTEIN, Eduard. O Socialismo Evolucionário. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997, pg. 140.

[6] LUXEMBURGO, Rosa. Reforma ou Revolução? São Paulo: Flama, p. 15.

[7] ARCARY, Valério. Há cem anos, Bernstein abre o debate sobre época: a estrategização da tática e a teoria dos campos progressivos. In obra. Sobre a transformação da tática em estratégia pelo SPD alemão, Arcary escreve: “Bernstein fez, pela primeira vez, no campo do marxismo, o que depois seria recorrente, pelos mais diferentes e inesperados caminhos: a estrategização do que antes era somente uma tática (a ‘tática alemã’ tão elogiada por Engels, porque tinha transformado o partido operário em um partido com influência de massas), a utilização da legalidade, como um álibi, da adaptação ao regime da democracia. Esse era o eixo central de sua estratégia política: a participação eleitoral, as coligações, o fortalecimento dos sindicatos, etc…, estavam subordinados a uma escolha programática prévia e confessa; respeitar os limites da democracia monárquica prussiana”, p. 02-03.

[8] O ornitorrinco trata-se de um texto lançado no livro Crítica à Razão Dualista, do mesmo autor, em que ele compara o Brasil como um ornitorrinco, isto é, um ser totalmente híbrido, desfigurado por tantas atribulações decorrentes do capitalismo e da dependência do país ao capital e a tecnologia estrangeira. “O ornitorrinco é uma das sociedades capitalistas mais desigualitárias, apesar de ter experimentado as taxas de crescimento mais expressivas em períodos longos”.  Oliveira define que isso é causado pela “combinação do estatuto rebaixado da força de trabalho com dependência externa”. Para ele essa sociedade foi “a primeira a sustentar uma fórmula de acumulação que financiou a expansão, isto é, o subdesenvolvimento”, conduzindo-se hoje a um mercado consumidor de cópias e não criador de suas próprias matrizes tecnológico-científicas. Oliveira escreve: “O ornitorrinco é isso: não há possibilidade de permanecer como subdesenvolvido e apresentar as brechas que a segunda Revolução Industrial propiciou, não há possibilidade de avançar, no sentido da acumulação digital-molecular: as bases internas da acumulação são insuficientes, estão aquém das necessidades para uma ruptura desse porte”, restando apenas as acumulações primitivas, como no caso das privatizações, mas hoje elas são apenas “transferências de patrimônio”, indicando que o ornitorrinco submeterá tudo a uma financeirização sem limites. “O ornitorrinco capitalista é uma acumulação truncada e uma sociedade desigualitária sem remissão”, Os trechos citados estão na obra OLIVEIRA, Francisco. Crítica à Razão Dualista. Rio de Janeiro: Boitempo, 2003. p. 143-150.

Ajuda em pesquisa

Amigos,
Preciso da ajuda de vocês.
Preciso entrevistar leitores dos jornais escolhidos para a minha pesquisa de dissertação no Prolam/USP sobre as políticas exteriores de Brasil e Venezuela sob os governos de Hugo Chávez e Lula. Logo, preciso arrumar pessoas que leiam regularmente a Folha de S. Paulo.
Não precisa ser assinante, nem ler todo o santo dia. Mas o cara tem que acompanhar o jornal com certa regularidade. Não será uma amostra representativa, mas sim aleatória, só pra saber se a mensagem chega no leitor.
Se vocês puderem repassar isto para quem vocês conhecem e me indicar umas pessoas, agradeço muito.
É só mandar um e-mail apra: rodrigo.herrero@gmail.com.
Será uma entrevista aberta, não questionário fechado, mas é coisa simples, uns 15 minutos e tá ok.
Abraços!

Rodrigo Herrero

Festival de Cinema Latino-Americano começou hoje

O quinto Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo começou oficialmente hoje com uma apresentação apenas para convidados do filme “Água Fria do Mar”.

Mas a enxurrada de mais de 100 películas grátis começa mesmo na terça-feira e é aberto a todo o público.

O festival vai até o próximo domingo, dia 18.

Para ver a programação, acesse o link abaixo:

http://www.memorial.sp.gov.br/memorial/index.jsp

O primeiro tijolinho…

Olá.

Gostaria de compartilhar um momento de felicidade com vocês.

Ontem vi no site do Prolam (Programa de Pós-Graduação em integração da América Latina), no qual curso mestrado, que saiu na revista do programa um artigo de meu nome, em parceria com uma colega de estudos. É meu primeiro artigo acadêmico, oficial, produzido dentro do mestrado e reconhecido como tal. Foi uma alegria imensa, uma emoção realmente, enfim, mais um tijolinho colocado na construção desta casinha chamada mestrado/academia.

Já tomei muita porrada neste um ano e pouco de programa, a maioria com vistas a meu aprimoramento. Mas é sempre difícil você ver o lado positivo das críticas, ponderações e considerações e, ao mesmo tempo, se enturmar em um ambiente que você nunca participou. Sem falar na desesperança para ultrapassar metas, conseguir bolsa, etc. Angústias, medos, irritações, dúvidas, são bastante comuns nesse processo, em que se aprende e se sofre muito. Em contrapartida, são poucos os momentos de regozijo.

Portanto, a publicação deste primeiro artigo na Revista Cadernos Prolam/USP é o motivo de comemoração. É a coroação de um primeiro passo em muitos que precisarei dar ainda. Mas um de cada vez. E hoje é dia de estar contente com o trabalho feito até aqui.

Para acessar a edição eletrônica da revista, com os artigos e seus respectivos autores, clique aqui.

Para acessar diretamente o link do artigo, clique aqui.

Até mais.

5. Conclusão

O Mercosul nasce após anos de tentativas de integração no continente, especificamente na segunda metade do século passado e revela também um esforço brasileiro em trazer para sua área de influência a Argentina, que, de inimiga mortal passou a ser uma parceria estratégica tanto do ponto de vista econômico como até mesmo geopolítico na América do Sul.

O bloco surge no início da década passada dentro de um contexto liberal e globalizante, que, para se proteger deste cenário, é ressuscitada a tese do regionalismo, sob uma égide mais aberta, sem deixar de fortalecer em blocos regionais, e obter negociações multilaterais vantajosas no plano internacional. Apesar de seus avanços do ponto de vista do aumento do fluxo de comércio entre os quatro países do bloco e da criação de uma institucionalidade que, em boa parte, atende ao andamento do processo de integração, várias outras medidas, nos dois campos e em outros, faltaram para que o Mercosul aprofundasse a integração entre os Estados-membros, fato que acabou gerando descontentamentos internos, pondo em risco até mesmo o destino do bloco.

A partir do novo milênio, com a chegada à presidência de grande parte dos países da América Latina de governantes preocupados mais com o desenvolvimento social, alguns possuindo até uma base social diversificada ou até mesmo popular, propiciou que o Mercosul, bem como a região recebesse maior atenção interna, trazendo o tema da integração de volta à baila. Ocorre que, também, trouxe divergências quanto ao que se pretender integrar, qual o objetivo e como. Por exemplo, a entrada da Venezuela no Mercosul traz uma discussão pertinente a respeito de qual caminho o bloco deseja seguir, já que o presidente venezuelano tem pretensões de reforma do Mercosul, atenuando seus aspectos econômicos em prol de maiores preocupações sociais e políticas, ao mesmo tempo em que leva adiante a Alba, um processo de integração aparentemente não-jurídico, mas de força política e ideológica importante no atual cenário subcontinental.

No fundo do discurso chavista, no entanto, os objetivos não são tão diferente, quanto, por exemplo, a proposta lulista, o que ocorre é a forma mais radical e, por vezes, atabalhoada, com que Chávez faz suas proposições. Mas, independentemente disto, o apoio de seu país ao Mercosul está claro diante do que já foi exposto neste artigo e ele não tentará sobrepor a Alba sobre o bloco do Cone Sul, pois ambos os processos de integração são importantes para sua manutenção no poder (LOPES, R. H. ; HITNER, V., 2009), mas poderá levar os objetivos da primeira à segunda. Sem falar na Unasul, que pode ser um agregador de todos esses processos de integração, ampliando para temas como defesa, integração política, investimentos, cultura, etc., mas também pode ser apenas mais uma proposta que mudará de nome no futuro, como já aconteceu com a Comunidade Sul-Americana de Nações (CASA) que virou a Unasul.

Aliás, essa é uma característica marcante dos governantes latino-americanos: muitas intenções, proposições, mas, em termos práticos, pouco se avança em busca do que os discursos presidenciais costumam falar de uma união sul-americana ou latino-americana que vá além de uma liberalização comercial e busque um desenvolvimento equitativo entre os países, beneficiando todos os seus povos. Em síntese, as contradições entre desejos, declarações retóricas, acordos vazios de conteúdo, conflitos entre países, demandas de política interna e até mesmo externa, colocam uma enorme barreira para a integração na América Latina.

Será preciso compreender também como serão as relações daqui pra frente do Mercosul com os Estados Unidos, que cerca o bloco com acordos de livre comércio entre vários países vizinhos, em uma espécie de Alca às avessas, partindo de acordos bilaterais até uma provável, iminente e sem volta zona de livre comércio continental, já que praticamente todos os países da região terão algum tipo de acordo deste tipo com os EUA. Talvez uma forma de se proteger neste sentido seria a retomada das negociações com a União Européia para a criação de uma zona de livre comércio, dando maior autonomia em uma variedade de produtos, diminuindo os possíveis estragos desse “cerco” estadunidense. Isso seria interessante para o Brasil, um grande mercado que não sofreria tantos impactos com um acordo desta envergadura; resta saber como Uruguai e Paraguai seriam inseridos nesse processo. Sem falar nas relações com a Argentina, costurada a duras penas por décadas, mas que vive de recuos e avanços. Por fim, unindo todas essas negociações no âmbito da OMC, que o Brasil aposta, enquanto EUA e China, como já dissemos, têm avançado de forma agressiva nos acordos bilaterais.

O Mercosul e o Brasil, portanto, se vêem em um momento peculiar, com aparente empenho dos seus participantes em avançá-lo e simpatia dos vizinhos, mas também num momento crucial, em que a aposta no multilateralismo e no regionalismo aberto tem se mostrado o caminho inverso do mundo no momento, necessitando, portanto, ou de uma revisão em seus objetivos, ou de uma atuação mais firme para que seus anseios não esmoreçam diante do atual cenário que privilegia as relações bilaterais, em detrimento das relações entre blocos de um lado e de outro que busca sobrepor objetivos sociais, políticos e ideológicos aos econômicos.

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VILLA, R. D. . Limites do ativismo venezuelano para a América do Sul. In: Revista de Política Externa, vol. 16, São Paulo: Revista de Política Externa, 2007.

Artigo em partes

1.Introdução

2. Breve e sintético histórico da integração latino-americana

2.1 Brasil x Argentina: do conflito à cooperação

2.2 O modelo liberal do Mercosul

2.3 Mercosul volta à cena

2.4 A Venezuela e o Mercosul

3. Alba x Mercosul

4. Alca, União Européia, OMC e um impasse

5. Conclusão

Fim do artigo. Espero que todos tenham curtido, qualquer debate, só deixar um comentário para trocarmos figurinhas.

4. Alca, União Européia, OMC e um impasse

É importante fazer uma breve, embora superficial, descrição sobre a relação do Mercosul com alguns processos de integração ou tentativas de zonas de livre comércio que poderiam ou ainda podem provocar um impacto profundo no bloco, mostrando também a dificuldade em se colocar na prática os anseios da integração durante as negociações multilaterais ou entre blocos regionais.

Em primeiro lugar, cabe comentar sobre a Alca, uma proposta que partiu dos EUA na Reunião de Cúpula das Américas em 1994 em Miami, sendo bem vista pelo Brasil, num contexto em que a aplicação de políticas neoliberais estava em voga, como destacamos anteriormente. A criação da área de livre comércio continental se daria até 2005, no mais tardar. Almeida (2004) crê nessa visão positiva brasileira em decorrência do pouco tempo de Plano Real naquela época, sendo, só mais adiante, a partir da assinatura do Protocolo de Ouro Preto, onde se observou um grande desenvolvimento do Mercosul, é que foi-se perdendo o interesse na Alca ao longo dos anos. Isso se tornou mais evidente com Lula na presidência do Brasil, que, como já vimos, enfatizou o Mercosul como prioridade na do país região, relegando a Alca a um segundo plano em 2004, principalmente após atuação popular forte que se mostrou contrária à criação da Alca, aliado a grupos de esquerda por toda a América Latina que se aliaram em oposição ao acordo com os EUA.

A aproximação de uma negociação entre os blocos Mercosul e União Européia, passou a ser mais vantajosa do que ser atrelado ao uma zona de livre comércio com o “Gigante do Norte”, interferindo e muito na estrutura econômica, nos empregos, no mercado brasileiro. Já a negociação com os europeus passou a ser vista com bons olhos.

O Mercosul e a União Européia assinaram, em dezembro de 1995, o “Acordo-Quadro Inter-regional de Cooperação”, instrumento de transição para uma futura “Associação Inter-regional” entre ambos, cujo fundamento seria a implementação de um programa de liberalizarão progressiva de seus respectivos comércios. A Primeira Comissão Mista Mercosul-UE aconteceu em 11 de junho de 1996, em Bruxelas (Bélgica) e a Subcomissão Comercial Mercosul-UE reuniu-se, pela primeira vez, no Brasil nos dias 5 e 6 de novembro de 1996.

Trata-se de dois projetos distintos de integração, mas que possuíam algumas semelhanças institucionais e, mais que isso, desejavam convergir no aspecto comercial. O problema aparece na negação da UE em abrir suas barreiras agrícolas para a entrada de produtos, principalmente, brasileiros, e, por outro lado, a oposição do governo brasileiro a inserir no acordo temas como compras governamentais, propriedade intelectual e serviços, fato que acabou por travar as negociações UE e Mercosul, levando tais impasses para a OMC, com algumas das questões a serem discutidas na Rodada Doha, ainda em vigência.

Na OMC o Mercosul é reconhecido por ter sido constituído dentro do âmbito do GATT, fazendo com que esteja integrado ao órgão que regula o comércio internacional por conter os princípios: cláusula da nação mais favorecida; não discriminação; sistema geral de preferências. “Dessa forma, a integração do Mercosul na OMC, foi possível face à sua conformidade a essas normas de direito internacional, o que seria de se prever antes da aprovação final” (BAPTISTAb, 1998, p. 107). Isso torna possível que o bloco negocie com outros países e blocos econômicos para criar acordos de cooperação e zonas de livre comércio. Mas, o que se vê até o momento no Mercosul, é, ao contrário, sua incapacidade de firmar acordos práticos, a maioria das negociações é feita individualmente no âmbito da própria OMC, contendo até divergências entre Brasil e Argentina em alguns temas, quando o que se tem por objetivo de um bloco regional é a manutenção de uma mesma posição para obter vantagens em negociações com terceiros.

Outro possível problema é que o Mercosul impede que seus membros firmem acordos independentes com outros países fora do bloco, isto é, o Brasil não pode assinar um acordo de livre comércio com Israel, ele precisa ser assinado entre o Mercosul e Israel, pois os benefícios e deveres do acordo devem ir para todos os Estados-membros. Em contrapartida, Estados Unidos e China têm assinado, cada vez mais, tratados bilaterais de livre comércio (os chamados TLC’s), ampliando sua abrangência em diversas áreas do planeta.

Pensando do ponto de vista de uma integração sul-americana, esses países não poderiam entrar como membros plenos do Mercosul, pois já possuem acordos à parte que não poderiam ser estendidos ao Mercosul, até por não ser do interesse do bloco abrir-se dessa forma a economias gigantescas como China e EUA. Trata-se de um impasse, pois vários países sul-americanos têm procurado acordos desse tipo e até mesmo membros do bloco acenam de vez enquando com essa possibilidade, caso específico do Uruguai, o que o faria denunciar e sair do Mercosul para assinar um TLC com os EUA que, aliás, já tem cercado a América do Sul por meio de vários TLC’s na América Central, Caribe e até mesmo parte do subcontinente sul-americano, caso do Chile. O que pode, portanto, inviabilizar uma integração econômica na América do Sul, colocando em risco até projetos mais profundos de integração, como a União de Nações Sul-Americana (Unasul), que discute temas políticos e de segurança, mas ainda não foi ratificada pelos países e pouco avançou desde sua fundação, em 2006.

Amanhã: 5. Conclusão

Artigo em partes

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1.Introdução

2. Breve e sintético histórico da integração latino-americana

2.1 Brasil x Argentina: do conflito à cooperação

2.2 O modelo liberal do Mercosul

2.3 Mercosul volta à cena

2.4 A Venezuela e o Mercosul

3. Alba x Mercosul

4. Alca, União Européia, OMC e um impasse

5. Conclusão

3. Alba x Mercosul

Interessante notar, porém, que, enquanto tenta ingressar em uma união aduaneira direcionada para a América do Sul, fundamentada nos princípios do liberalismo que vigia na época do Consenso de Washington, a Venezuela impulsiona outro processo de integração, mais voltado à América Central e Caribe, que critica as bases do neoliberalismo, tentando implantar um processo de integração com princípios solidários, de cooperação entre os povos da região, anti-globalizante e anti-imperialista.

Trata-se da Alba, constituída em 14 de dezembro de 2004, com a assinatura da “Declaración Conjunta” e do “Acuerdo entre el Presidente de La República Bolivariana de Venezuela y el Presidente del Consejo de Estado de Cuba, para la aplicación de la Alternativa Bolivariana Para Las Américas”, primeiros documentos oficiais da Alba, que, pelo que nos pode ser percebido, não tem um tratado ou algum documento que possa ser considerado no direito internacional, muito menos que dê personalidade jurídica como uma organização internacional, pois a maioria dos documentos são apenas declarações, acordos, cartas de intenções, atas, memorandos. Seu caráter, portanto, é prático, pouco preocupado em constituir um marco jurídico para o bloco. E seu objetivo é político, de marcar posição e forjar uma aliança anti-capitalista na região, pois, enquanto o segundo documento citado sela vários acordos entre os dois países, o primeiro parte para os princípios que devem reger a Alba, entre outras coisas, promovendo a solidariedade e a cooperação entre os dois povos. E ataca a visão oposta disto:

El ALBA no se hará realidad con criterios mercantilistas ni intereses egoístas de ganancia empresarial o beneficio nacional en perjuicio de otros pueblos. Sólo una amplia visión latinoamericanista, que reconozca la imposibilidad de que nuestros países se desarrollen y sean verdaderamente independientes de forma aislada (…) para diferenciarla de la otra América, expansionista y de apetitos imperiales” (ALBA, 2004, p. 01).

Portanto, os projetos de integração apresentados pela Venezuela, caso mais puro da Alba, liderada juntamente com Cuba, possuem caráter prioritariamente político, sendo motivados por razões de poder, neste caso, aumentando o poder dos Estados do subcontinente e, conseqüentemente, diminuindo sua dependência, além de frear a dominação política e econômica dos EUA na região. Com isso, a Alba procura cumprir um primeiro papel que é fortalecer os países do Caribe e da América Central, histórica área de influência estadunidense, sempre fragilizados devido a seu tamanho e sua pobreza, criando uma rede de proteção em relação ao EUA. Não é a toa que a Alba está assentada em quatro elementos “impensáveis dentro dos parâmetros do capitalismo” (BOSSI, 2005, p. 01): complementaridade, cooperação, solidariedade e respeito pela soberania dos países, em oposição clara à Alca. Um documento chamado “¿Qué es el Alba?”, do próprio site da entidade, evidencia esse caráter político, social e, até mesmo, ideológico:

Mientras el ALCA responde a los intereses del capital trasnacional y persigue la liberalización absoluta del comercio de bienes y servicios e inversiones, el ALBA pone el énfasis en la lucha contra la pobreza y la exclusión social y, por lo tanto, expresa los intereses de los pueblos latinoamericanos. El ALBA se fundamenta en la creación de mecanismos para crear ventajas cooperativas entre las naciones que permitan compensar las asimetrías existentes entre los países del hemisferio” (ALBA, 2004).

Sendo a Alba uma reação à Alca e ao liberalismo, um projeto anti-capitalista que denuncia o imperialismo dos Estados Unidos e propõe uma integração regional baseada na cooperação, solidariedade e aproximação ideológica, como fica a co-existência de um projeto que, indiretamente, ataca o Mercosul, fundamentado em princípios liberais e mercantis? E o mais curioso, o principal líder e motor da Alba, a Venezuela de Chávez, ao mesmo tempo, tenta ingressar no Mercosul, para participar de uma zona de livre comércio e uma união aduaneira imperfeita.

Como já dissemos, a Venezuela precisa do Brasil e dos demais países do Mercosul, tanto para importar seus produtos, já que o país produz muito pouco e, ao mesmo tempo, exportar seu petróleo, diminuindo sua dependência dos Estados Unidos, principal comprador do óleo venezuelano. Além disso, Chávez necessita, para consolidar seu projeto bolivariano, tanto internamente, quanto no plano externo, promover uma integração sem retorno, baseada na questão energética, tendo a Argentina, mas, principalmente, o Brasil, como um ator vital para a continuação do andamento dos processos de integração no subcontinente, mesmo que não partilhando do teor bolivariano incrustado na retórica chavista.

Sendo assim, a Alba parece constituir um projeto dissociado do Mercosul, que Chávez tenta seguir em frente, como forma de criar uma rede de proteção também para si, a partir da América Central e Caribe, com parceiros próximos, trocando petróleo por influência e cooperação em áreas específicas. Trata-se de uma aposta importante para consolidar a Venezuela como um país influente naquela região, partindo dali a liderança de seu projeto bolivariano. Já no caso do bloco no subcontinente sul-americano, se torna vital sua aproximação ao Brasil e à Argentina, agregando forças numa possibilidade de uma união sul-americana (e a criação, até o momento incipiente, da Unasul parece apontar para isto) para que a região tenha autonomia para crescer, se desenvolver e negociar em pé de igualdade com os demais blocos e potências mundiais, como o próprio Chávez diz: “Hoy somos libres, como Brasil es libre y libres caminaremos de la mano, construyendo la gran potencia suramericana, porque todo lo indica: Suramérica va a ser una gran potencia mundial” (CHÁVEZ, 2009, p. 13). Sem deixar de lado seu desejo de “refundar” o Mercosul, até como forma de alcançar esse projeto, mas, de momento, ele não pode renegar um parceiro tão importante que ajude a legitimar suas ações dentro da Venezuela e fortaleça seu país externamente.

Amanhã: 4. Alca, União Européia, OMC e um impasse

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1.Introdução

2. Breve e sintético histórico da integração latino-americana

2.1 Brasil x Argentina: do conflito à cooperação

2.2 O modelo liberal do Mercosul

2.3 Mercosul volta à cena

2.4 A Venezuela e o Mercosul

3. Alba x Mercosul

4. Alca, União Européia, OMC e um impasse

5. Conclusão

2.4 Venezuela e o Mercosul

A Venezuela saiu em abril de 2006 da Comunidade Andina de Nações e assinou sua entrada no Mercosul como membro pleno em 4 de julho daquele ano, fazendo com que o bloco passasse a ter mais de 250 milhões de habitantes, uma área de 12,7 milhões de km², um PIB superior a US$ 1 trilhão e um comércio global superior a US$ 300 bilhões (BACOCCINA, 2006, p, 03). A entrada da Venezuela no bloco só foi possível graças ao artigo 20 do Tratado de Assunção, que abre espaço para entrada de membros da ALADI, confirmado pelo artigo 50 do Protocolo de Ouro Preto.

O Protocolo de Adesão, assinado em Caracas, estabelece como prazo quatro anos para a Venezuela se adaptar às principais regras aduaneiras do bloco, como a adoção da Tarifa Externa Comum e todo o acervo normativo. Além disso, a partir de 2010, Brasil e a Argentina não mais cobrarão tarifas de importação dos produtos venezuelanos, exceto uma lista de mercadorias sensíveis. Em 2012, é a vez das exportações brasileiras e argentinas, também exceto produtos sensíveis, entrarem com tarifa zero na Venezuela. Já Paraguai e Uruguai foram beneficiados com tarifa zero desde a assinatura do protocolo.

No entanto, para que o protocolo seja colocado em prática, é preciso que os parlamentos dos países membros ratifiquem-no, o que continua pendente nos Poderes Legislativos de Brasil e Paraguai. Aprovado pela Câmara dos Deputados e pela Comissão de Relações Exteriores do Senado Federal, a entrada da Venezuela vai agora para votação no plenário, para só então o país ratificar sua entrada, faltando apenas o Paraguai, cuja oposição ao presidente Fernando Lugo é maioria no Congresso, e já avisou que votará contra. Mas, após a aprovação do Brasil, a pressão poderá ser maior para que o pequeno país também ratifique sua assinatura.

Apesar desse entrave, a Venezuela já faz parte do Mercosul como membro pleno desde a assinatura do protocolo, como esclarece o artigo oitavo, estabelecendo uma categoria não prevista no Tratado de Assunção, que indica primeiro a adequação do país às normas do Mercosul para depois fazer parte do mesmo. Neste caso, o novo membro já integra a delegação nas negociações com os países fora do bloco: “As Partes acordam que, a partir da subscrição do presente Protocolo, e até a data de sua entrada em vigor, a República Bolivariana da Venezuela integrará a Delegação do MERCOSUL nas negociações com terceiros” (MERCOSUL, 2006, p. 03). Uma explicação possível para isto pode estar no próprio texto do protocolo, que afirma “a importância da adesão da República Bolivariana da Venezuela ao Mercosul para a consolidação do processo de integração da América do Sul no contexto da integração latino-americana” (MERCOSUL, 2006, p. 01).

Tanto sob o ponto de vista brasileiro quanto do bloco, a participação da Venezuela no Mercosul amplia o alcance dos produtos dos Estados-membros a um novo país, ávido por produtos, já que produz muito pouca coisa, tendo sua economia baseada no petróleo. Tanto que as exportações brasileiras entre 2004 e 2005 já tinham crescido 51,3%, enquanto que no caso argentino a elevação foi de 17,9% (MARREIRO, 2006, p, 01). Sem falar na possibilidade de uma integração energética, a partir do abundante petróleo venezuelano e também pelo país ser dono de parte importante da Amazônia, o que apontaria para outras fontes de energia, a partir da água de seus caudalosos rios.

Há também uma perspectiva estratégica que deve ser observada nesse ingresso, que é a ampliação a participação do Mercosul na região como um bloco que vai agora da Patagônia até o Caribe, tornando mais forte no sentido de obter mais demandas nas negociações comerciais. O discurso de Lula na cerimônia de assinatura do protocolo vai pelo mesmo caminho:

A adesão da Venezuela ao Tratado de Assunção é mais do que um voto de confiança na força de nosso projeto comum. A expansão de nosso bloco até o Caribe reforçará a percepção de que o Mercosul é uma realidade continental, ajudará a visualizar o Mercosul como a espinha dorsal da integração da América do Sul” (SILVA, Luiz, 2006, p. 01).

Sob o ponto de vista venezuelano, a entrada do país no Mercosul pode ser analisada sob dois aspectos. O primeiro deles é a possibilidade de abrir um mercado importante para a aquisição de produtos dos atores do bloco, com tarifas reduzidas, suprindo parte significativa de suas necessidades, pois seu parque industrial está direcionado, majoritariamente, ao petróleo e seus correlatos. Mas o mesmo vale no sentido inverso: são novos países compradores de seu petróleo, numa tentativa de diminuir a dependência em relação aos Estados Unidos. Isto pode nos fazer acreditar que os esporádicos ataques de Chávez ao Mercosul se dariam muito mais quanto ao projeto político do bloco, desejando reformá-lo, enquanto deseja aproveitar as benesses econômicas do processo de integração.

O segundo aspecto é estratégico: a Venezuela no Mercosul aproxima Caracas a Brasília e Buenos Aires, os dois pilares do Mercosul, sendo, por isso, prioritária essa ligação com o bloco. E principalmente no que se refere ao Brasil, ator pujante no contexto internacional atual. Chávez busca, ao se relacionar com Lula, legitimidade nas ações venezuelana dentro de um contexto maior de integração latino-americana, totalmente condizente, neste sentido, com a política externa brasileira de integrar o subcontinente.

Isso porque, apesar de Chávez ganhar ascendência na América Latina depois da acomodação de Lula com os EUA e o sistema financeiro internacional, a Venezuela depende do Brasil para por em marcha qualquer projeto de integração que reúna todo o subcontinente (CARMO, 2007). Mesmo com sua retórica por vezes áspera, Chávez faz sempre concessões para que o Brasil esteja junto das negociações relacionadas à integração que a Venezuela faça parte, exceção feita à Alba. Do outro lado, Lula, por sua base social e sua origem, não vai contra as iniciativas chavistas, mas acaba por impor um ritmo mais lento, o discurso não é agressivo, tomando uma postura pragmática, incorrendo assim porque, pelo lado brasileiro, não há relação de atrito ou de ameaça com os EUA.

Amanhã: 3. Alba x Mercosul

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1.Introdução

2. Breve e sintético histórico da integração latino-americana

2.1 Brasil x Argentina: do conflito à cooperação

2.2 O modelo liberal do Mercosul

2.3 Mercosul volta à cena

2.4 A Venezuela e o Mercosul

3. Alba x Mercosul

4. Alca, União Européia, OMC e um impasse

5. Conclusão

2. 3 Mercosul volta à cena

No decorrer da primeira década do novo milênio, governantes de raízes sociais mais populares, com preocupações sociais, ganharam democraticamente as eleições em vários países da América Latina[1], mudando um pouco o cenário da região, que, aos poucos, começou a retomar o crescimento, tendo como suporte um cenário internacional que passou a ser favorável após os primeiros anos de crise intensa. Com isso, a atuação política desses novos governos passou a ser mais crítica do modelo liberal de pouca intervenção estatal, fazendo justamente o contrário, aumentando a participação do Estado na economia e injetando boa parte da arrecadação, vinda principalmente dos abundantes recursos naturais, em projetos sociais de redistribuição de renda e reinserção na sociedade de milhares de pessoas que, com as crises econômicas dos anos 90 e a falibilidade do modelo neoliberal, adentraram na linha da pobreza.

Isso fez com que os processos de integração voltassem à pauta regional, como uma forma de aglutinar esforços para que os países se fortalecessem economicamente, diminuindo sua dependência externa, por meio de um aumento da intensidade comercial entre os vizinhos. É dentro desse contexto de boas intenções entre os governos com maior ênfase no social que o Mercosul retoma sua importância estratégica. Mas isso vai ocorrer principalmente com a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições brasileiras de 2003, trazendo definitivamente o Mercosul para o centro do debate, pois a política externa do novo governo elegeu o bloco como uma de suas prioridades, dentro dessa política de promoção do desenvolvimento social, como afirmou o então presidente recém-eleito em discurso em 10 de dezembro de 2002, durante visita à Washington, pouco antes de assumir: “O Mercosul é um projeto nacional e como tal, uma das principais prioridades da política comercial externa brasileira. O meu governo está determinado a preservá-lo e fortalecê-lo” (SILVA, Luiz, 2003, p. 15).

Essa posição fica visível, por exemplo, com a proposta de um acordo de livre comércio com a Comunidade dos Países Andinos (CAN), que reúne Bolívia, Equador, Colômbia e Peru, a inclusão no Mercosul de membros associados com a Bolívia, o Chile, o Peru, a Colômbia e o Equador, além da Venezuela que está em processo de adesão para entrar no bloco, além de iniciativas como a Comunidade Sul-Americana de Nações (CASA), refundada em 2008 sob a o nome de União das Nações Sul-Americanas (UNASUL). A estratégia brasileira para o Mercosul, bem como o que se almejará com o bloco estão explícitas no discurso de transmissão do cargo de Ministro de Estado das Relações Exteriores, em Brasília, em 1º de janeiro de 2003, do novo embaixador Celso Amorim:

No Governo Lula, a América do Sul será nossa prioridade. O relacionamento com a Argentina é o pilar da construção do MERCOSUL, cuja vitalidade e dinamismo cuidaremos de resgatar. Reforçaremos as dimensões política e social do MERCOSUL, sem perder de vista a necessidade de enfrentar as dificuldades da agenda econômico-comercial, de acordo com um cronograma preciso” (AMORIM, 2003, p. 54-55).

Portanto, quando um ator como o Brasil dá sinais de que o Mercosul e, por conseqüência, a América do Sul estão no centro de sua atuação política internacional, essa visão ajuda a provocar uma transformação no próprio olhar da região, proporcionando um clima mais cooperativo, vital para que a integração regional avance. Interessante notar, porém, o recado do chanceler brasileiro de que a América do Sul é a prioridade, não citando claramente a América Latina dentro desse processo. Em outras passagens de membros do governo Lula a região ampliada até surge, mas de forma pontual, no máximo, como um processo posterior, não estando nas principais frentes da política externa do atual governo. Esse abandono, intencional ou não, aos países para além da Colômbia pode ser visível numa interpretação da ausência dos países da América Central e do Caribe na formação da antiga CASA e na constituição da UNASUL, que reforça uma união sul-americana. Talvez as experiências frustradas de Alalc e Aladi colocaram um temor e um freio em pretensões mais ambiciosas, ou mesmo uma percepção da região ser uma zona de influência estadunidense sem retorno, não sendo prudente uma proposta integracionista.

É dentro desse contexto, de boas intenções no campo político, de cenário internacional positivo, mas de poucos avanços práticos no campo econômico do bloco, que um novo ator, polêmico e até mesmo crítico das bases fundamentais do Mercosul, vai procurar se tornar membro pleno do bloco.


[1] Apesar de chamados pela mídia de “esquerdistas”, nem sempre isso corresponde ao real sentido da palavra, que muito pouco significado prático tem nos dias de hoje. De qualquer forma, é dever perceber nos últimos anos a ascensão de presidentes com base social mais popular, possuindo, conseqüentemente, mais preocupações sociais. São eles: Hugo Chávez (Venezuela, 1999), Luis Inácio Lula da Silva (Brasil, 2003), Tabaré Vázquez (Uruguai, 2005), Evo Morales (Bolívia, 2006), Daniel Ortega (Nicarágua, 2006) Cristina Kirchner (Argentina, 2007), Rafael Correa (Equador, 2007), Fernando Lugo (Paraguai, 2008) e Mauricio Funes (El Salvador, 2009).

Amanhã: 2.4 A Venezuela e o Mercosul

Artigo em partes

Artigo em partes

1.Introdução

2. Breve e sintético histórico da integração latino-americana

2.1 Brasil x Argentina: do conflito à cooperação

2.2 O modelo liberal do Mercosul

2.3 Mercosul volta à cena

2.4 A Venezuela e o Mercosul

3. Alba x Mercosul

4. Alca, União Européia, OMC e um impasse

5. Conclusão

Ps: Desculpem pela falta de post ontem, não cumpri o prometido de inserir a foto da semana. Prometo fazê-lo no próximo fim de semana. Até.

2.2 O modelo liberal do Mercosul

Todos esses esforços pela integração confluíram no Mercosul,  criado por Brasil e Argentina, com a participação de Uruguai e Paraguai, cujo objetivo era o de fortalecer as relações entre esses Estados. A criação deste bloco não representa uma ruptura histórica de algum processo anterior, mas, como vimos acima, trata-se da continuação de um processo que já vem sendo estruturado há anos, desde pelo menos a criação da Alalc e da Aladi, com o esforço dos países em incrementar o comércio de bens entre si, desenvolver suas indústrias e crescer suas economias.

Por conta disto, o foco, ao menos inicial, do bloco não poderia ser outro que o comércio. A idéia era fazer com que os mercados dos quatro países se tornassem competitivos para concorrer no âmbito internacional e aumentar os superávits na balança comercial, incrementando a verba para investimento em melhorias dos setores produtivos, para gerar mais exportações e, nesse ciclo, mais riqueza para ser investida. Para isso, o objetivo primeiro foi a formação de uma zona de livre comércio, em que todas as barreiras tarifárias e não-tarifárias fossem reduzidas progressivamente entre os membros. Na seqüência, a criação de uma união aduaneira, representada pela adoção de uma tarifa externa comum (TEC) para os produtos a serem exportados e importados entre esses países, mas também em relação a terceiros países fora do “bloco”. Apesar do nome Mercado Comum do Sul, o acordo não prevê realmente essa etapa da integração.

Como se vê, o Mercosul foi criado a partir de uma concepção econômica liberal, em que o mundo vive um processo de globalização, tendo o mercado como o motor do crescimento econômico, não dependendo mais apenas da atuação do Estado. “O Mercosul é, na verdade, uma plataforma de inserção competitiva numa economia mundial que simultaneamente se globaliza e se regionaliza em blocos. (…) Busca a liberalização dos entraves aos fatores produtivos para dentro e para fora do espaço econômico comum” (LAFER, 1998, p. 7).

O cenário de pano de fundo para esta concepção é o fim da Guerra Fria e a vitória do capitalismo-liberal dos Estados Unidos sobre o socialismo-comunista da União Soviética. Vitória que, naquele período, fez com que a primeira teoria fosse adotada como verdade absoluta e colocada na prática por quase todos os países do planeta. No caso latino-americano, os Estados que contraíram empréstimos junto ao Banco Mundial e ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e que, portanto, deviam a eles, foram convidados a adotar as políticas principais deste modelo criadas após reuniões entre acadêmicos e economistas dos Estados Unidos, funcionários do governo, e dos dois bancos citados, cujo documento final ficou conhecido como Consenso de Washington[1], com o objetivo de homogeneizar as políticas econômicas desses Estados.

Com esse cenário internacional liberalizante, de redemocratização na América Latina e de uma necessária aproximação dos países da região para tentar sobreviver nesse novo contexto de globalização, o bloco começa oficialmente com a assinatura do Tratado de Assunção, em 26 de março de 1991, com a participação de Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. No Brasil, o Tratado foi ratificado pelo Congresso através do Decreto Legislativo nº 197, de 25.09.91 e promulgado pelo Decreto nº 350, de 21.11.91. Interessante notar que o Mercosul só foi possível a partir do Acordo de Complementação Econômica 18, feito no âmbito da Aladi, como consta no artigo 10 do Anexo 1 do Tratado, e que fica explícito seu cumprimento no artigo oitavo:

Os Estados Partes se comprometem a preservar os compromissos assumidos até a data de celebração do presente Tratado, inclusive os Acordos firmados no âmbito da Associação Latino-Americana de Integração, e a coordenar suas posições nas negociações comerciais externas que empreendam durante o período de transição” (MERCOSUL, 1991, p. 03).

Entre os princípios que regem o Tratado de Assunção, que orienta a criação do Mercado Comum, que, na verdade, vai se transformar em uma união aduaneira imperfeita, entrando em vigor a partir de 31 de dezembro de 1994, resumimos:

  • Livre circulação de bens, serviços e fatores produtivos entre os países, através da eliminação dos direitos alfandegários e restrições não-tarifárias à circulação de mercadorias;
  • Estabelecimento de uma tarifa externa comum, adoção de uma política comercial comum em relação a terceiros Estados e coordenação de posições em foros econômicos/comerciais regionais e internacionais;
  • Coordenação de políticas macroeconômicas e setoriais entre os Estados-Partes de comércio exterior, agrícola, industrial, fiscal, monetária, cambial e de capitais, de serviços, alfandegária, de transportes e comunicações, etc., com objetivo de garantir condições adequadas de concorrência entre os países do bloco;
  • E o compromisso dos Estados-Partes de harmonizar suas legislações para fortalecer o processo de integração.

Já os instrumentos do Tratado que constam no artigo quinto previam chegar em 31 de dezembro de 1994 com tarifa zero e sem barreiras não-tarifárias sobre todos os produtos. Para isso, estabeleceu-se um programa de liberação comercial, com reduções tarifárias progressivas, lineares e automáticas, eliminação de restrições não tarifárias; coordenação de políticas macroeconômicas; criação de uma tarifa externa comum; além da adoção de acordos setoriais, para auxiliar na mobilização dos fatores de produção. A proposta era de reduzir 7% a cada seis meses as tarifas que incidiam sobre os produtos comercializados dentro do bloco, iniciando com uma redução de 47%, sem deixar de proteger os mercados mais sensíveis, com a adoção da lista positiva de exceções.

Vale destacar o artigo segundo, que trata da reciprocidade de direitos e obrigações entre todos os Estados-membros. Já o artigo terceiro estabelece os mecanismos que procurariam facilitar a criação do que o Tratado chama de Mercado Comum, até 1994, entre eles: um Regime Geral de Origem, Cláusulas de Salvaguarda e uma proposição ainda incipiente inicial de um Sistema de Solução de Controvérsias e, por meio dos anexos II, IV e III, respectivamente. Convêm também mencionar que o Tratado reconhece tratamento diferencial e especial ao Paraguai e Uruguai no Programa de Liberação Comercial.

A estrutura institucional constante no Tratado de Assunção é bastante simples e pode ser resumida por duas instituições provisórias: o Conselho do Mercado Comum e o Grupo Mercado Comum. O primeiro é o órgão maior do Mercosul, integrado pelos ministros das Relações Exteriores e da Economia de cada país, sendo responsável pela condução política e por tomar decisões para que os objetivos e prazos fossem cumpridos para a organização do Mercado Comum. Já o segundo é o órgão executivo de caráter propositivo e é constituído pelos Ministérios das Relações Exteriores. Além destes há a Comissão Parlamentar Conjunta e o professor Luiz Olavo Baptista explica como se dá a relação entre eles:

São dois órgãos de representação oficial dos órgãos dos Estados partes, cabendo ao superior, o Conselho do Mercado Comum, a tomada de decisões e, ao inferior, o Grupo Mercado Comum, a iniciativa e proposição de medidas concretas. (…) o processo legislativo se encontra definitivamente concentrado no jogo de atribuições entre o Conselho e o Grupo, cabendo à Comissão Parlamentar Conjunta do Mercosul, instituída no art. 24 do Tratado de Assunção, o objetivo de facilitar a implementação do Mercado Comum” (BAPTISTA, 1998, p. 265-266).

Cabe esclarecer que esse papel da Comissão Parlamentar Conjunta evoluiu dentro do bloco, pois foi constituído no dia 6 de dezembro de 2006 o Parlamento do Mercosul, substituindo a antiga comissão, sendo, pois, o órgão que representa os interesses dos cidadãos dos Estados-membros. Do Protocolo Constitutivo do Parlamento, assinado em 9 de dezembro de 2005, é importante sublinhar o trecho que aborda a realização de eleições, em que os parlamentares serão escolhidos por sufrágio universal seguindo a regra de cada país, como esclarece o item 2 do artigo 6º:

O mecanismo de eleição dos Parlamentares e seus suplentes reger-se-á pelo previsto na legislação de cada Estado Parte, e que procurará assegurar uma adequada representação por gênero, etnias e regiões conforme as realidades de cada Estado” (MERCOSUL, 2005, p. 06).

Como se vê, o fundamental do Tratado de Assunção está voltado somente para questões econômicas, mais especificamente às questões de liberalização comercial, já que a “ênfase do processo de integração regional está sobre os assuntos econômicos definitivamente em uma ótica ‘neoliberal’” (OLIVEIRA, 2003, p. 71), o que provocou, analisando sob este ângulo, um importante impacto entre os países do Mercosul. Segundo dados da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), as exportações do bloco por região cresceram de 8,86% em 1990 para 24,98% em 1998, ano que evidencia o princípio de sua queda.

Esse aumento dos fluxos comerciais, aliado às estratégias internas de cada país e externas em relação ao bloco, propiciaram uma continuação do aprofundamento da integração regional como meta principal da política externa dos países envolvidos no Mercosul: “Isso correu porque os benefícios do processo, num momento inicial, distribuíram-se pelas sociedades dos países-membros, limitando assim as possíveis resistências dos poucos atores econômicos e sociais afetados negativamente” (OLIVEIRA, 2003, p. 73).

Outro item que propiciou a intensificação da integração em seu princípio foram as concessões feitas pelo Brasil para a Argentina nos primeiros anos do bloco. Apesar do incremento no comércio, a Argentina demonstrava insatisfação devido aos déficits comerciais bilaterais com o Brasil. Isso fez com que a Argentina elevasse, ao final de 1992, com o consentimento brasileiro, a taxa de estatística incidente sobre as importações de três para dez por cento. O Brasil passou a importar petróleo e trigo do vizinho, melhorando a balança comercial daquele. Tudo isso evidencia um esforço para que ocorresse um êxito do Mercosul, principalmente nos primeiros anos do bloco[2], época que também houve um conjunto de fatores que favoreceram a integração regional, destacados a seguir, a partir da:

“(…) existência de interesses mútuos que puderam ser compatibilizados para a criação do bloco; o cumprimento da agenda de integração; a intensificação da interdependência entre os Estados membros em razão do aumento dos fluxos comerciais intra-bloco e da importância do aumento desses fluxos na economia dos Estados”. (SILVA, Laura, 2006, p. 77).

A segunda fase é marcada pelo Protocolo de Ouro Preto, de 17 de dezembro de 1994, em que entra em vigor a União Aduaneira, ainda que de forma incompleta. O Protocolo traz muitas definições quanto à institucionalidade do Mercosul, estabelecendo  seus órgãos decisórios, instituindo um órgão de solução de controvérsias e , por fim, o mais importante: somente a partir daqui o Mercosul adquire personalidade jurídica, como indica artigo 34 do capítulo 2 do protocolo, tornando-se um organismo internacional, entendido como outras pessoas jurídicas de direito internacional público, “estipulando, por seu turno, o artigo 35, ‘o Mercosul poderá, no uso de suas atribuições, praticar todos os atos necessários à realização de seus objetivos’ (…), enquanto que o artigo 36 prevê ‘o Mercosul celebrará acordos de sede’” (CASELLA, 1996, p. 269).

Neste protocolo, tanto o Conselho do Mercado Comum quanto ao Grupo Mercado Comum deixam de ser estruturas provisórias, tornando-se permanentes, de caráter intergovernamental (o que desagradou Uruguai e Paraguai, que preferiam uma instituição supranacional para relativizar o poder e o tamanho de Brasil e Argentina), tendo, a partir daquele momento, capacidade decisória, definindo atribuições específicas para ambos, inclusive, no sistema de solução de controvérsias: “Hoje, o CMC é o órgão de direção supremo de uma organização internacional, mantendo, embora, seu caráter e conferência ministerial, como se vê do art. 3 do Protocolo de Ouro Preto” (BATISTAb, 1998, p. 124).

Outras instituições foram inseridas na organização internacional. Iniciada em 1994, a Comissão de Comércio foi incorporada ao Tratado, sendo responsável por gerenciar instrumentos de política comercial comum. Mas única criação para o protocolo foi o Fórum Consultivo Econômico e Social, com o objetivo de trazer setores da sociedade civil para dentro do processo, agregando empresários, trabalhadores e demais setores da sociedade civil no debate relativo ao Mercosul. Por fim, os subgrupos permaneceram como principais órgãos de assessoria técnica do Grupo Mercado Comum.

Importante demonstrar também como passaria a funcionar o sistema de tomada de decisões, conforme o artigo 37 do capítulo 3: “As decisões dos órgãos do Mercosul serão tomadas por consenso e com a presença de todos os Estados Partes” (MERCOSUL, 1994, p. 09). Ou seja, para que alguma medida seja aprovada, todos precisam necessariamente estar presentes à reunião e concordarem com a decisão, pois, caso haja o veto por parte de algum Estado-membro, não há aprovação. Isso desgostou Brasil e Argentina, que desejavam que a tomada de decisões levasse em conta o peso relativo de cada país, obtendo maior autonomia, mas, Paraguai e Uruguai conseguiram manter a decisão por consenso, que garantem seu poder de veto a algo que os desagrade.

Quanto à solução de controvérsias, o que regia o Mercosul era o Protocolo de Brasília, de 17 de dezembro de 1991, que disponibilizou o uso de meios jurídicos para a solução de eventuais conflitos comerciais, prevendo até mesmo o recurso à arbitragem, com o escopo de garantir a estabilidade no comércio regional. E o Protocolo de Ouro Preto manteve o que foi definido pelo documento anterior, incorporando os artigos 19 e 25 do Protocolo de Brasília às diretrizes da Comissão de Comércio do bloco. No entanto, Casella (1996) critica o protocolo que instituiu o órgão por ser, ao mesmo tempo, amador nos seus mecanismos e de difícil operacionalização, sendo quase impossível cumprir o papel que se imagina de um tribunal[3].

Se o Protocolo de Ouro Preto deu ainda mais base jurídica ao Tratado de Assunção principalmente no âmbito de sua institucionalidade, do ponto de vista econômico não aconteceu um aprofundamento da integração, apesar do comércio continuar avançando no período entre 1995 e 1998. Por exemplo, não houve um acordo sobre a remoção de barreiras não-tarifárias, nem sobre a questão macroeconômica e a própria definição da Tarifa Externa Comum foi um árduo trabalho. E isso pode ter ocorrido por uma possibilidade:

Durante este período, a imagem prevalecente era a de que o Mercosul era tão bem-sucedido que poderia progredir impulsionado tão-somente pelos interesses do setor privado, enquanto a agenda política ficava relegada a segundo plano”. (BOUZA apud SILVA, Laura, 2006, p. 80).

A partir dali o Brasil passou não querer ceder às pressões argentinas em prol da continuidade da integração, mesmo ainda tendo o Mercosul como elemento importante na política externa brasileira. Para piorar, já a partir de 1999[4] o fluxo de comércio intra-regional começou a sofrer um revés e tornou-se menos dinâmico, fazendo com que a falta de acordos aumentassem as pendências e, conseqüentemente, as divergências entre Brasil e Argentina se multiplicassem. As crises econômicas[5] também trabalharam contra o bloco, sendo que esse processo se agudizou a partir de 1999, quando o Brasil desvalorizou o Real sem consulta prévia aos parceiros do bloco, proporcionando a desvalorização do câmbio, que influenciou de forma negativa nos preços dos produtos e na balança de pagamentos dos países. A atividade econômica e o comércio intra-bloco apresentaram um acentuado decréscimo a partir de então, provocando medidas protecionistas, principalmente da Argentina, com medo de diminuir suas exportações para o Brasil e, por outro lado, ter seu país inundado de produtos brasileiros – fato agravado a partir dos anos 2000, quando a Argentina entrou em profunda crise econômica. Dados da CEPAL de 2005 comprovam isto: do total de 35,64% das exportações destinadas ao Mercosul pela Argentina em 1998, esse total chegou apenas a 19,59% em 2004. Do lado brasileiro, de 17,37% em 1998, o percentual de exportações para o bloco caiu para 9,24% em 2004.

As disputas comerciais começaram a se intensificar, com cada país tentando assegurar condições mais substanciais para seus grupos econômicos e sociais atravessarem o período de crise, buscando “promover amplas medidas com a finalidade de minorar os custos de produção, que, conjugadas a uma política de incentivo das exportações, visa obter superávits comerciais que, em última instância, aliviem sua situação” (OLIVEIRA, 2003, p. 85).

As discordâncias alcançaram grau intenso a ponto de o Brasil propor um “Relançamento do Mercosul” no início deste século, a partir de uma reunião entre os ministros das relações exteriores, da fazenda e da defesa de Brasil e Argentina, em que se chegaram a uma série de itens a serem adotados conjuntamente: consultas e coordenação de posição em questões de política externa; coordenação de políticas macroeconômicas, podendo estendê-la à Paraguai, Uruguai, Bolívia e Chile; efetivar avanços na integração dos mercados de capital; aprofundar a integração energética; aperfeiçoar o mecanismo de solução de controvérsias. Isto possibilitou a assinatura do Protocolo de Olivos (assinado em 18 de fevereiro de 2002), que indica a criação de um Tribunal Permanente.

O problema é que boa parte dessas intenções ficaram no papel, a exceção do Tribunal Permanente de Revisão, que acabou sendo criado em 2006, denotando a dificuldade de se aprofundar institucionalmente o bloco. Conforme Laura Silva (2006), a razão desta fraqueza institucional está na existência de normas pouco eficazes para evitar o não cumprimento dos acordos (somente metade das decisões criadas no Mercosul foram internalizadas pelos componentes do bloco), ou ainda medidas com pouco efeito prático.

Ou seja, apesar do Mercosul ter incrementado comercialmente seus Estados-membros durante os primeiros anos, aumentando a interdependência entre eles, não foi suficiente para confirmar o comprometimento dos sócios, submetendo os interesses nacionais aos benefícios do bloco. Isso fica evidente em atitudes já mencionadas como a desvalorização da moeda brasileira, além de medidas comerciais unilaterais argentinas no período de crise.


[1] O documento que ficou mundialmente conhecido pelo seu autor, o economista John Williamson, recomendava, entre outras medidas: disciplina fiscal, taxas de juros positivas e determinadas pelo mercado, câmbio competitivo, abertura ao investimento estrangeiro, liberalização do comércio, permitindo mais facilidades à entrada de produtos estrangeiros, privatização de empresas estatais, desregulamentação do sistema financeiro.

[2] A autora chama esta primeira fase do Mercosul de período de transição e vai de 1991 a 1994.

[3] Talvez até em virtude disto, em 18 de fevereiro de 2002 foi assinado o Protocolo de Olivos, que coloca algumas mudanças em relação ao Protocolo de Brasília, possibilitando uma uniformização de interpretação normativa, pela maior estabilidade dos árbitros. Estabelece critérios para a designação dos árbitros e disciplina o cumprimento dos laudos arbitrais e o alcance das medidas compensatórias. Adotou uma instância de revisão no sistema arbitral ad hoc (o TPR), que poderá vir a ser no futuro um sistema permanente de solução de controvérsias (MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO, INDÚSTRIA E COMÉRCIO EXTERIOR, 2009). Em 19 de janeiro de 2007 ainda houve novas mudanças, gerando o Protocolo Modificativo de Olivos, que alterou os artigos 20, referente ao “Funcionamento do Tribunal”, 43, referente ao “Grupo de especialistas”, além de outras mudanças.

[4] Quando marca o período de crise do bloco, entre 1999-2004.

[5] Após a crise mexicana em 1994, um efeito cascata de crises econômicas atingiu outros emergentes: Ásia em 1997, Rússia em 1998.

Amanhã: foto da semana, volto na segunda com a seqüência deste artigo, com 2. 3 Mercosul volta à cena

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1.Introdução

2. Breve e sintético histórico da integração latino-americana

2.1 Brasil x Argentina: do conflito à cooperação

2.2 O modelo liberal do Mercosul

2.3 Mercosul volta à cena

2.4 A Venezuela e o Mercosul

3. Alba x Mercosul

4. Alca, União Européia, OMC e um impasse

5. Conclusão

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