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Arquivo para a categoria ‘Contos’

A luta não mais continua, companheiros

Aqui vai um conto escrito em 2003, na redação do curso de jornalismo da Unicsul, escrito à toque de caixa, pois foi solicitado para ser entregue na mesma aula. Ou seja, 50 minutos para escrever um conto relacionando com algum autor ou obra favoritos. Já na época eu não lia quase nada e só me veio à cabeça Karl Marx e seu “Manifesto Comunista”, feito em parceria com Friedrich Engels. Portanto, peço a gentileza que relevem prováveis erros infantis. Mas vale pelo fervor juvenil, inexistente nos dias de hoje, talvez por causa ddessa desesperança de que trata o próprio conto, escrito já há sete anos. Boa leitura e até a próxima.

Ele caminha desolado por entre as ruas. Parece não acreditar em tudo que seus saltados olhos vêem. Os pingos batem em seu casaco preto e surrado, fazendo pesar a roupa permeável. De repente um susto. Algo passa apressado, quase a derrubá-lo. Era um garoto entregador de frangos que estava atrasado em sua missão. O bom velhinho não entendia o porquê de tanta pressa. Mesmo que temesse que um dia isso viria a acontecer, não imaginava que seria tão devastador.

Após duas horas caminhando comigo pela cidade, vagando totalmente sem destino pelos becos, favelas, bolsas de valores, centros empresariais, e tudo o mais que significava a vitória–derrota acachapante do capitalismo canibalesco, ele parou. Avistou um grupo de meninos nus, saindo de um barraco feito de madeira velha e podre. Olhou em volta e avistou putas, padres, bêbados, comerciantes e táxis. Inclinou sua cabeça para o chão e fez sinal de negativo com a mesma. De repente disse: “porque aceitei este convite?”. Nosso autor se referia a minha solicitação para trazê-lo de seu profundo, clássico e tranqüilo descanso para conferir o que acontecia depois de quase duzentos anos de luta por uma vida mais justa e igualitária. “É o fim”, dizia ele. “E eu que pensei que o capitalismo teria fim um dia, derrotado pelo socialismo, que faria a transição para um sistema único e para todos, estou vendo exatamente o contrário: o triunfo do capital sobre as pessoas”.

Finalmente Karl Marx sentia, depois de mais de um século, o fracasso. Nada do que escrevera antes, nem o “Manifesto Comunista”, com seu amigo Engels, nem com a Gazeta Renana, jornal onde relatou suas opiniões e posições durante anos. Muito menos sua principal obra, “O Capital”, em que a crítica, embasada em argumentos claros e transparentes deixava urgente a necessidade de uma atitude que alterasse o quadro tenebroso que ele vivia na época e que, na entrada do novo milênio ele não imaginava encontrar. Nem a Revolução Russa com Lênin, nem Cuba com Che Guevara, nem nada que se tentou após a vida de Marx resultou em pleno êxito. Agora tudo se baseia no neoliberalismo, na abertura de das economias, no lucro levado as últimas conseqüências, na mais-valia, detectada por nosso pensador, como a fonte para a desigualdade de renda e exploração de mão de obra. Os meios de produção totalmente nas mãos de quem ele sempre combateu, com teses que servem de base até hoje na História da Humanidade.

Apesar de muitos chamarem-no de ultrapassado, velho e arcaico, suas idéias ainda fervilham nos pensamentos de muitos admiradores de seus escritos. O problema é, como mostrou-se ao autor, que seus “seguidores” se perderam em seus textos e esqueceram de agir, se perdendo em palavras e situações inúteis, destruindo toda a possibilidade de um caminho melhor, contra aquilo que se criou com Hayek e seu livro, “O Caminho da Servidão”. O definitivo socialismo científico criado por Marx não mais satisfaz os hipócritas social-democratas que não desejam perder de vista seu capital. Os atuais esquerdistas se perdem na corrupção conservadora da direita, e calam-se ou enturmam-se com as conspirações vindas da burguesia. Quem pretende mudar comove-se com tudo que vê, mas nada faz para alterar esse modus vivendi.

Para Marx restaram as lágrimas e o pessimismo, a constatação da deturpação de tudo que ele criara e direcionara no passado. Foi a verificação de um fim para aquilo que convencionou chamar de marxismo. O começo do fim está nas mãos do capitalismo neo liberal-canibal, que está fazendo bem o trabalho, quebrando todas as correntes de resistência. Muito diferente do que Marx idealizou na “ditadura do proletariado”, onde o povo tomaria o poder e mandaria nas ações e rumos do governo. Sem políticos escabrosos, nem empresários oportunistas, apenas o povo e sua comuna, como em um mês de 1848 em Paris. Mas isso tudo era longínquo e efêmero em demasia, como sua estada, que chegara ao fim. A contemplação do fracasso da humanidade que amargara Marx profundamente neste dia, encerrava-se. Chegara a hora de partir de volta para casa. O momento era de despedida e desprendimento, mas com uma ponta de esperança. Talvez, um dia, isso chegue a tal ponto destrutivo, que as pessoas poderiam pensar em viver para si no todo e não somente para si e seu lucro.

Cartas

Aqui vai um conto meia boca escrito, acho, que em 2006. Não revisei,  nem o li por completo, vai como foi concebido à época, um período distante…

Cartas

Quando o medo aprisiona a mente de um louco…

Esta era a décima carta que Maurício das Flores escrevia para algum amigo distante com quem havia perdido o contato. Mais folhas eram escritas a esmo, já que ele não tinha a menor pretensão de enviá-las. Tinha medo. Engraçado, pois o medo da solidão o fazia passar horas na internet enviando emails, conversando com pessoas desconhecidas nos bate-papos da vida, sem falar nas já citadas cartas. Tudo feito para espantar a frígida escuridão que, à noite, enegrecia a janela de sua casa.

E era esse mesmo medo, agora apontado para outro lado, que o fazia não enviar as cartas a seus amigos mais íntimos, com quem desenrolou anos de amizade e cumplicidade. Esse outro lado era a simples vergonha de se expor e alguém rir de algum pensamento ou palavra má colocada, das lágrimas borradas nas letras azul-bic. Anos e anos de vivência e agora isto, o medo. Simples, único, presente, forte, machucando cada centímetro do coração e da mente do escritor de cartas, como um vento cortante que fere o fraco sistema imunológico de alguém gripado.

Seu pequeno quarto é o ambiente em que permanece quase a totalidade do tempo. Uma cama de solteiro no canto esquerdo, a escrivaninha no lado oposto, defronte da janela, para poder observar as árvores, pássaros, pessoas, carros, passando pela rua onde mora. No sentido da porta, uma televisão 14 polegadas velha e um cômodo de quatro gavetas para guardar suas roupas surradas pelo tempo e não substituídas pela falta de dinheiro. Acima do cômodo um som com tocador de CD, já um tanto fora de moda perante a atual tecnologia de mp3 e ipod.

Mas é na escrivaninha de madeira que escrevia suas cartas para afastar o tédio dos dias longos e o medo das noites intermináveis. Madeira maciça, velha, caindo aos pedaços e, mesmo assim, recebia o peso do microcomputador. Este era de bom porte, claro, afinal, é sua principal ferramenta de trabalho, além de sua mente para pensar e mãos para digitar no teclado as idéias. E o micro precisa de uma capacidade adequada para agüentar as quase 168 horas semanais ligado ininterruptamente. Sim, pois das 24 horas de cada dia, Maurício fica acordado pelo menos 18 horas. Vai dormir apenas às 6 da manhã, para acordar lá pelas 11, meio-dia no máximo.

Ah, esqueci de contar: ele é escritor, aposentado forçosamente devido à sua pouca adequação ao mercado. Na verdade, ele nunca teve nada publicado, que lhe frustra até os dias de hoje. Deu aulas durante alguns anos, até ser aposentado por invalidez, aos 30, quando sofreu uma série de crises nervosas que quase o mataram. Hoje, aos 35 anos, vive do resto do INSS e de alguns bicos de tradutor e revisor que costuma fazer em casa. Sua saúde está em farrapos, debilitada por problemas respiratórios que degeneram seu organismo.

Apesar de tudo isso, “seu Flores”, como o jornaleiro costuma chamá-lo, gosta de acompanhar o noticiário pelo rádio e televisão, apesar de não ler jornais, “para não perder a paciência com as mentiras que eles publicam”, resmunga sempre, com razão. Livros, ele tem poucos, até pela pouca verba, mas já leu bem mais que hoje, quando tinha vontade e vigor físico de sair de casa em direção à biblioteca situada na região central da cidade.

Mas seu convívio mesmo é com os escritos políticos, poéticos, sobre o cotidiano, além das cartas… Ah, essas cartas já tomam um espaço significativo no seu quarto: desde quando se aposentou juntou duas caixas de sapato com folhas escritas para os poucos parentes distantes que possui, amigos, ex-namoradas, colegas da internet, pessoas por quem se apaixonava, mas nunca tinha coragem de dizer. Enfim, as cartas tomavam um longo tempo de sua parca vida.

E ele tinha medo. Medo de alguém ler aqueles textos pessoais demais para serem enviados a alguém. Ali, toda a sua decepção em relação ao mundo, a dor de viver em solidão por tanto tempo, o reclame das visitas cada vez mais exíguas de seus amigos, o amor que deixou de sentir há muito e ainda o preocupa, etc. Tudo que envolvia seus sentimentos era tema das cartas.

Mas ele tinha medo. O medo nada mais era do que confirmar a frustração de sua vida não ter um sentido (que tão poucos buscam para si, pois preferem saborear a monotonia do dia-a-dia), não ter valido a pena, não ter feito tudo o que desejava fazer, transformar o que desejava, amar e ser amado como ele sempre viu nos cinemas. Comédias românticas que só servem para iludir a cabeça dos jovens a acreditar que no fim das contas a mocinha da história vai aceitá-los e ambos viverão juntos e felizes para sempre.

Esse tipo de ficção devia ser banido da humanidade, ponderava ele, apesar de que, em cada ato vivido nas telonas, em cada personagem com problemas de relacionamento e, por conseqüência, solitário no seu caminho, Maurício sempre viu um pouco de si. Talvez por isso, ele dizia aquele tipo de coisa, pois, apesar de tudo, gostava de ver que, ao menos no filme, o rapaz que tinha um pouco de seu temperamento alcançava o objetivo e ficava com a garota.

Medo. Sempre presente, desde a infância, quando evitou a todo custo andar de skate em pé, já que sua mãe dizia ser “perigoso demais”. Medo na adolescência, de chamar as meninas para sair, de ser motivo de chacota dos colegas de sala, de sair para beber e fazer alguma bobagem, afinal, não tinha muito controle (e nem queria ter) frente à bebida. Medo no primeiro emprego, de conversar com os outros, de errar em alguma atividade. Até medo de morrer ele já tivera.

Mas agora, frente a seu estado de saúde definhando, nem ligava mais para isso. Nem mais medo de perder seu amor, quando foi abandonado e sentiu o gosto amargo de ter sido preterido, nojo que nunca deixou sua boca, seu corpo, sua alma. E nesse momento, do que poderia ter medo? Não era mais criança para ser ameaçado pelas barras da saia da mãe, não era mais jovem para ser motivo de chacota da sala nem de sair com as meninas ou beber, já que este último nem podia mais. Não trabalhava e só esperava o tempo que os problemas respiratórios agravassem. Então, o que temer?

“Tudo”, pensava Maurício. De ser motivo de chacota dos vizinhos do prédio, dos conhecidos e amigos da internet, de alguém desprovido de bom senso que fosse até a casa dele e visse seu estado deplorável. Das cartas. Sim, ele tinha medo das cartas. Na verdade a culpa não era delas, mas sim do que ele expôs ali. Sua vida estava escrita naquelas páginas – algumas até amareladas pelo tempo – como se fossem uma autobiografia. Nem a escuridão o atormentava mais. Apenas a solidão o afetava mais que o medo de suas cartas.

Talvez por isso que, um dia, Maurício resolveu enfrentar o problema e foi até a caixa de sapatos. Estava disposto a pegar carta por carta, folha por folha, e lê-las todas, com o objetivo de enviar aos seus devidos destinatários. A idéia fixa já estava na mente dele e nada poderia demovê-lo: ia mandar a todos para que seu ego de escritor fosse finalmente realizado. Ele pretendia se matar após a limpeza das caixas, sem antes avisar a todos com uma carta de despedida trágica e lamuriosa sobre suas intenções, para que os amigos, parentes e outros, realizassem, após a sua morte, sua vontade de publicar o conteúdo das correspondências.

E começou. Primeiro foram as cartas endereçadas ao amigo Rafael, que sumira há uns dois anos. Casou, arrumou emprego em outra cidade e esqueceu todo mundo. Olhou aquelas confissões e achou tão fora de propósito que desejou rasgá-las todas, mas sentiu que o motivo histórico do período em que o texto foi escrito o obrigava a mantê-las vivas. Separou todas as cartas do amigo sumido e fez um texto novo, explicando o que se tratava e o motivo daquelas mensagens tão antigas estarem sendo enviadas com tanto atraso.

A próxima da lista foi Marisa, uma ex-namorada com quem só conversava esparsamente pela internet, mas sem assuntos muito profundos. Cartas a ela havia umas doze, todas enraivecidas, logo após o período da separação, quando a moça decidiu seguir seu caminho sozinha. Hoje está casada e nem se importa, como antes, com as opiniões de Maurício. Nosso escritor leu um a um os textos e fez o mesmo procedimento: escreveu uma correspondência nova, contando que havia escrito tudo aquilo em outros tempos, mas que agora não sentia nenhum ódio e que desejava a ela toda a felicidade do mundo, avisando apenas que queria que Marisa guardasse aquele material como parte da lembrança da união dos dois, omitindo, claro, seu objetivo final.

Teve também Adriana, uma velha amiga, daquelas que a pessoa tem mais como irmã do que como amiga. Residente de outro estado, essa foi praticamente a única que Maurício manteve contato, seja por carta ou email, durante todos os últimos e longos 5 anos. O relacionamento de amizade entre ambos nunca foi abalado, mesmo pelo tempo e distância. A falta de comunicação por alguns meses logo era retomada por um dos lados. Mesmo assim, Maurício deixou de enviar vários escritos, no eterno medo de se expor demais, o que no caso era um tanto exagerado. Ambos tinham um amor incondicional pelo outro, que transpassava qualquer barreira egoísta. O respeito e a amizade sempre estiveram acima de tudo entre eles.

E, com explicações e textos antigos, dezenas de colegas, amigos, conhecidos eram presenteados. Mensagens de incentivo, de felicitação por aniversários e outras datas comemorativas, desabafos, confissões, xingamentos, notícias, tudo estava naquelas caixas de sapatos guardados há anos e só agora vinham à tona, já um tanto sem porquê. Até que chegaram as cartas de Alissa. O grande amor da vida de Maurício que nunca foi correspondido. Na verdade, ela nunca soube realmente se ele gostava ou não dela. Eles até tiveram algum contato mais próximo durante a faculdade, mas os caminhos foram rumados a portos diferentes.

Maurício nunca escondeu a frustração de ter perdido algo que nunca teve. Sua falta de ação perante a garota, a timidez, o medo de tomar um “não”, tudo confluiu para o fracasso que ele sempre tentou apagar de sua mente. Porém, naquele segundo, a caixa de sapato mostrava o passado de forma inexorável na sua frente, apontando uma interrogação para o futuro. O medo de enviar e mesmo ler aquelas cartas vinha com maior vigor. Maurício jogou as folhas no chão e foi para a cozinha. Abriu a geladeira e tomou uma garrafa de água gelada quase num gole só. Ao pôr a garrafa em cima da pia sentiu o exagero e tossiu tanto que caiu no chão e quase desmaiou.

Depois de passar algumas horas no sofá da sala, assistindo televisão e evitando o encontro crucial para se libertar de toda aquela dor, Maurício tomou coragem e voltou para o quarto. Já eram onze e meia da noite. E Maurício leu as correspondências de Alissa repletas de borrões, lamentos e paixão. Sim, pois, apesar de todo o recato desse sentimento, o amor que Maurício nutria pela garota era intenso e profundo.

Interessante que, com o passar das páginas, ele começou a ver que tudo aquilo não passava de bobagem e aqueles sentimentos não iriam fazer sentido para Alissa, como já não faziam para ele. Talvez esse conformismo oportunista de jogar para o outro a responsabilidade da ação – ou da falta dela – tenha salvado a vida de Maurício, que resolveu enviar todo o conteúdo para seu amor platônico, mas sem temer a reação dela. Seu medo, por fim, terminara. E, portanto, a razão para o suicídio também. E graças a um ato que aliou a coragem do envio das cartas com uma razão bastante covarde: a de achar tudo aquilo perda de tempo, só para sufocar uma paixão reprimida. Mas enfim, daqui por diante, Maurício pode viver seus últimos dias de vida em paz. Nossa existência é muito irônica mesmo.

Cotidiano de Alguém Sozinho

São onze horas da noite e Júlio se despede de seu último amigo na faculdade, encaminhando-se para o ponto de ônibus, à espera do circular que o levará até sua residência. Ah, que saudades de casa! Depois de trabalhar o dia inteiro em outra cidade e ocupar o tempo noturno com mais trabalhos e reuniões na universidade, agora Júlio se reencontraria com seu descanso: sua acolhedora e confortável cama.

O jovem rapaz sentia-se cada dia mais exausto, com menos forças e ânimo para seguir em frente com seus objetivos. Andava também confuso, é verdade, perdido em pensamentos e amores frustrados. Mas naquela hora tudo que Júlio pensava era em seu simpático beliche, com o colchão de espuma sobre o estrado de madeira velha e barulhenta. Sim, à medida que ele se remexia na cama a madeira “estralava” num ruído chato, irritando seu velho pai no outro quarto. Mas o costume era tanto que só em dias muito irritados para Júlio xingar aquele velho estrado e almejar uma cama de casal em seu pequeno quarto de solteiro.

Após longos minutos aguardando a condução, pois dois coletivos passaram batido pelo ponto, não ligando para o braço estendido do menino, finalmente um ônibus parou para recolhê-lo rumo a seu destino. Momentos dispersos no interior do veículo: reflexões duras sobre o andamento de seus projetos de vida e sérias dúvidas quanto ao amor que desejava atormentavam-lhe a mente enquanto o motorista corria livre pela Avenida São Miguel.

Na descida do ponto final, Júlio lembrou de uma canção que há muito não saia de sua cabeça e que naquele dia a ouvira uma dezena de vezes em seu trabalho, enquanto cumpria suas obrigações no emprego. Era uma música de uma banda que acabou no final da década passada, que falava de sangue, lágrimas, desesperanças, dor, mas no fundo, no fundo, ela retratava o amor, mesmo sendo por uma pessoa que tinha ido embora. Júlio pensou, penou aquela poesia, louco de vontade de chegar em casa e ligar seu antigo som para ouvi-la novamente.

No caminho de casa Júlio reparava nas luzes dos postes de iluminação, nas árvores escurecidas pelo manto negro da noite, os carros passando e ainda as poucas pessoas voltando para suas moradas já próximo da meia-noite. Ele relacionava tudo aquilo com os faróis que a letra da canção sinalizava, com as percepções vazias de um momento que ele mesmo desejava esquecer, mas que não podia evitar de relembrar. Sim, eram velhos momentos de seu coração novamente partido que entoavam forte dentro de sua alma.

Júlio saiu recentemente de uma decepção amorosa e busca no trabalho sua fonte da juventude, para recuperar-se enquanto o mundo parece roubar-lhe o chão. Aquela sagrada música o faz relembrar todos os dias dos tormentos e descaminhos vividos, os enganos, que naquele momento eram bons, o amor dado sem retorno e tudo aquilo que sempre pensou ser real. Até o momento em que tudo se foi no mesmo piscar de olhos que chegou para Júlio, e aquilo que o fazia forte o fez ruir completamente.

O que restou para ele foram a canção e as memórias de sua mente. “Cadê as chaves?”, pensa alto Júlio, enquanto procura o molho de chaves em sua bolsa rasgada. Entra no prédio, olha resignado a cor de salmão ridícula pintada na fachada do condomínio e percebe a Lua límpida e brilhante no céu, vista de longe por uma estrela ou planeta grande. Nem ele sabe o que é, mas acha bonito. Sobe os vinte e quatro lances de escada, até chegar em seu andar. Mas antes, olha pela janela da escada do seu bloco a paisagem bucólica de uma noite comum: prédios escuros, uma favela iluminada ao canto, escuridão e mais escuridão; apenas a Lua a iluminar “qualquer coisa que o valha”, como diz com raiva o rapaz.

Júlio adentra em sua casa. Todos estão dormindo, afinal, era muito tarde e todos acordam cedo em sua casa para trabalhar. De tão cansado, Júlio prefere deixar o banho para quando acordasse. Foi direto à cama, trocando de roupa já deitado e com a colcha em cima de seu corpo cansado. Percebeu que o controle do som estava jogado do outro lado do quarto e xingando aos montes resolveu pegá-lo para ligar o som. O mau humor corroía-lhe a pacata personalidade de alguém que não teve um bom dia.

Aproveitando que estava em pé, pegou o CD com a música e colocou em um volume baixo para não incomodar ninguém. Ouviu em respeitoso silêncio, até a primeira lágrima cair de seus pequeninos olhos pretos. A partir daí Júlio começou a cantar com maior força, até chegar no final da canção que pergunta: “aonde foi o seu coração?” O jovem perguntava para si mesmo o que tinha-lhe acontecido, mas preferia esquecer toda a dor e todas as garotas que amou. Júlio seguia agora seu caminho como sempre vivera, no final das contas, sozinho.

Novo, velho conto

Aproveitando a proximidade com as festas de fim de ano, aquui vai um conto que é mais um desabafo, uma reflexão sobre vários assuntos. Aproveitem, critiquem, debatam, leiam!

Ah, a propósito, o conto de ontem não foi o primeiro do ano, escrevi “Lembranças de um tempo perdido” esse ano direto no blog, portanto, não o tinha nos meus arquivos, logo, havia descartado-o. Mas, revisto o erro, vamos ao novo, velho conto!

Conto de pensamentos desconexos

Num feriado remoto, um jovem estudante vê o mundo desabar em sua cabeça

Mais um feriado idiota no calendário. A ausência de movimento num dia considerado santo, em que a falsidade puritana recobre as aparências de boa parte da população, enquanto você procura entender o real sentido para sua angústia.

O mais engraçado é que na segunda-feira você fica na expectativa de que a semana passe rápido para que o feriado chegue e você possa se livrar do cotidiano imbecil e agressivo dos dias chamados úteis, mas que você faz de tudo para que pareçam inúteis. Nada na cabeça, as tarefas parecem entediá-lo cada vez mais, enquanto nenhuma música lhe toca o coração como antigamente. Nenhum amor toca seu coração como antigamente. Nenhuma dor, nenhuma alegria faz sua vida se movimentar para um outro caminho, que não seja para frente, ou para trás, isso depende do estado de espírito.

A véspera da folga chega, mas não há planos do que fazer com esse dia a mais de descanso. E os eternos pedidos para um dia considerado inútil perdem sentido, pois não há lado nenhum para correr. O famigerado dia chega e o desânimo acomete de vez a alma do pobre coitado que não sabe mais o que pensar. O tédio domina suas ações e nada além do alienante cotidiano o move para algo satisfatório. A cabeça está vazia, o coração está vazio, tudo aquilo que sempre pensou é questionado por todos, e por si mesmo.

Seus ideais ligados ao passado querem sobreviver ao bombardeio do presente, mas sofrem com tamanha descrença, desunião e hipocrisia dos seres humanos. Nada mais do que falam se acredita ou vale para alguma coisa. Você diz: isso eu não faço. Mas basta alguém mandar você fazê-lo que tudo é esquecido. Por quê? E aí alguém diz que você também fará o mesmo um dia, pois quando você ficar velho, tua família, teu status, tuas obrigações o farão ser igual aos outros.

Mas se você não se enquadra ao que todos são, é taxado de bitolado, antiquado, alguém que não vai crescer. Contudo, o que significa crescer? As pessoas se esquecem que o que pode ser importante para um, pode não ser para outro. Se não fizermos algo para mudar, qual sentido fará nós estarmos aqui? Que algo é esse que trará alguma razão? Será que existe alguma razão para tudo isto?

O ser humano é de extrema mutação. Porém, o que ele pretende mudar é a si mesmo, enquanto o mundo que se espatifa em suas brincadeiras de guerra e de justiça. Quando alguém quiser fazer alguma coisa, que vá a rua e faça por si mesmo. Cadê aquele espírito jovem de união e desejo de um mundo melhor? Não se faz nada sozinho, mas também ninguém quer fazer, apenas aparecer.

O mundo é uma eterna briga entre o novo e o velho, entre o justo e o certo, entre o buscar e o esquecer, entre o ser e o agora. E você, nesse mundo caótico, vê as pessoas se dominarem por dizeres dos outros, crêem com uma fé cega em uma coisa que nunca viram ou sentiram de verdade, e pensa ser mais fácil isso do que se deparar com a vida como ela é, com a impossibilidade das coisas. É mais preferível ao ser humano culpar alguém, aceder a uma entidade superior que decide por nós, do que encarar o mundo de frente e perceber que somos todos culpados pelo que somos, e somente nós.

Porque quando você encara a vida de forma independente, você sente que nada faz sentido, que o certo e o errado são abstrações humanas de compreensão improvável. Nota, portanto, que sua vontade de fazer se perde no desejo de todos em deixar como está, pois o ser humano não é piedoso. E aí vem a depressão, o tédio, a raiva, a letargia, e você acredita ser um maluco doente que só resmunga, enquanto a vida corre a rédeas soltas lá fora, como sempre desejou que fosse realmente, mas que apenas aparenta ser, enquanto todos crêem ser livres.

* Escrito em 2005.

Em branco

Olá. Há muito não apareço por aqui. Mas hoje venho com algo diferente: o primeiro conto que escrevo esse ano, em meio a um mestrado que me conseome avassaladoramente. Espero que gostem. Até mais.

Em branco

Hugo Luiz enxerga a sua direita uma pilha de livros caindo da cadeira da cozinha que serve de apoio em seu quarto. Sem esboçar a menor reação, continua observando um a um os livros irem de encontro ao piso gelado: uma rajada de vento vinda da janela foi a responsável pela quebra da harmonia no quarto de Hugo Luiz.

Concentrado, olhos fixos para a tela do computador, aturdido, não foi capaz de fazer qualquer movimento. Sua preocupação é outra: a falta de inspiração que lhe aflige há dias, impingindo uma angústia enorme em si ao permanecer com olhar petrificado para a página em branco do editor de textos.

Mesmo assim, fugiu de sua tormenta mental e recolheu todos os livros de volta à cadeira. Mas se deteve em um em específico: um livro sobre política que falava sobre esperança, determinação, ação. Folheou um pouco, lembrou-se da parte da sua vida que estava atrelada àquelas páginas e se estremeceu com o que lhe vinha à memória. As crenças mais simples quando se é jovem e a vontade na ponta dos cascos não passava do que hoje é um conceito genérico de um teórico francês.

Hugo Luiz, num balançar rápido de cabeça para afastar tais pensamentos, voltou-se para sua tela em branco: já estava há quatro dias sem sair daquele quarto, sem idéias, sem perspectivas, sem o que preencher aquele espaço em branco. Desligara-se do mundo e, com ele o Msn permaneceu fechado, assim como o Google Talk e o Skype. O Orkut abria apenas para ver suas próprias fotos antigas de vez enquando, como que em um arroubo patético de querer voltar àqueles momentos e congelá-los para sempre, sem viver a dor cotidiana da rotina e da negação a amedrontar sua alma.

Apenas o Twitter continuava aberto, para prosseguir com o ritual insólito desta humanidade em saber o que se passa com a vida dos outros, o que as pessoas fazem, com quem saem, o que lêem, o que escrevem, como se já não bastasse cada um preocupar-se com a própria vida. Mas se ocupar do microcosmo do cotidiano de celebridades e pessoas comuns serve como uma ótima droga para narcotizar-nos enquanto esquecemo-nos das mazelas desta sociedade mal construída. De repente, um recado em “caixa alta”: “vou comprar o celular tal, tô super feliz”. Outro perfil transcreve o pronunciamento do presidente e “ainda bem que não há mais perfis on line, assim não me ocupo com essas baboseiras a cada aviso do programa”, alivia-se Hugo Luiz, pois até em seus momentos toda essa encheção chateia, entedia os viciados por desinformação.

Sentia-se deslocado, descolado de tudo aquilo. Esse sentimento de não-pertencimento fazia mal dentro de si. Não conseguia sentir-se parte nem de sua própria vida ou de seu corpo. Sentia-se despedaçado por dentro, como se tivesse tentado lutar tanto para sair dali e alcançar outro espaço que o preenchesse.

Após passear seus olhos cansados pelos perfis dos outros, Hugo Luiz volta para sua tela em branco para tentar dar seqüência à sua missão, apesar de não saber mais de onde buscar para preencher uma linha que seja daquilo. Ao mesmo tempo, uma ansiedade consome seu coração e mente, na espera de um e-mail que pode facilitar ou complicar sua vida. Enquanto não chega, a ansiedade transforma-se em uma angústia virulenta que quase o leva a uma depressão desesperada.

E entre e-mail e o editor de textos, entre uma agonia e outra, o tocador de música repete insistentemente a mesma voz, as mesmas notas, a mesma canção de 15 minutos durante toda a noite. O violão é repetitivo, a voz é aguda, a qualidade é baixa também por ser uma gravação ao vivo do que parece um bar. Há muita gritaria e conversação. Mesmo assim, a canção permanece vitoriosa no tocador, falando de uma garota má e de conversas de bar, da cidade, das ruas, de qualquer coisa que ele não entende.

De repente, o Twitter começa a infernizar com tantos avisos de mensagens novas. E, como forma de fuga, Hugo Luiz volta-se a todo o momento para a página do programa para saber quem escreveu o quê e porquê, como que em uma necessidade obsessiva de se desviar do que precisa fazer, mascarada por uma pseudo-preocupação em obter novas informações, alguma novidade, ou notícia importante sobre qualquer coisa.

O desespero é tanto que ele fecha o programa para tentar se concentrar no seu dilema. Muda a canção no tocador e finalmente obtém uma centelha de inspiração, alguma idéia passa por sua mente e ele a segura com todas as suas forças, fazendo daquilo seu momento máximo em dias. É uma música que fala de amor, mas não é isso que chama atenção. O que lhe importa é o retorno da sensibilidade e gana necessárias, por um instante, para voltar a escrever. E começa.

14 de dezembro de 2009.

“O Incidente” – Parte II

Hoje publico a parte II do conto. Só agora que notei que fiz a divisão errada, não cortei no meio, mas sim antes! Mané! Enfim… Bom proveito!

“O Incidente” – Parte II

No dia seguinte, ele se arrumou melhor e foi pro bar por volta das 15h, sob um sol de rachar, que fazia escorrer suor pela sua testa vermelha. Comprou um suco e esperou Jussara. Ela veio, já pelas 18h. Descia a ladeira e, em frente ao boteco, acenou discretamente para Zé Fernando, que, levantou-se e foi em direção a ela, e disse: “Quer tomar um suco comigo?”. A pergunta, surpreendente, assustou a tímida jovem, que se esquivou e recusou o convite: “Tenho que ir para a casa agora, estou cheia de coisas para fazer”, respondeu, apesar de saber que ia passar a noite assistindo novela e ouvindo reclamações de sua mãe. Mesmo assim ela foi, apressando o passo. Zé Fernando se irritou e berrou para o dono do bar: “Troca essa merda de suco vagabundo por uma pinga agora mesmo”, exclamou, abandonando seu corpo à cadeira.

A partir dali, desandou de vez. Ia para o bar logo cedo e não saia dali enquanto não fosse carregado para casa. Sentava-se com a cadeira para o lado oposto da rua onde poderia passar Jussara. Via agora uma rua calma, repleta de caminhos de madeira, com árvores em tamanho médio, de não mais que dez anos de vida. Parecia se fixar num pé de amora. O dono do boteco deixava o pobre infeliz afundar na inércia de suas mágoas até meia-noite, quando não agüentava mais e fechava o bar, empurrando o bêbado para a calçada. “Zé, tá tarde. Preciso sair e já faz uma hora que devia ter fechado isso daqui. Vai pra casa hômi”.

Tropeçando em lamúrias, Zé ia sem falar uma palavra, sem mexer um músculo da face. Seus parentes não entendiam o que acontecia. Francisco só resmungava, praguejando para que o bebum fosse embora. Isabel, preocupada com o irmão, não recebia respostas dele e se desesperava: “mas ele tinha parado de beber pinga. Mal bebia cerveja. Por quê?”, indagava, em vão. Maria morria de medo e se trancava no quarto, indo dormir só quando o tio se estatelava no sofá. Temia que ele quebrasse a casa ou algo do gênero. Já se passavam 13 dias e a situação continuava insustentável: da casa para o boteco, de lá para a casa, com o fedor de pinga e de suor aumentando, já que ele não tomava banho há dias. Zé não percebera, já que sentava de costas para a outra rua, mas Jussara, desde o “incidente”, não passara mais por ali.

No décimo quinto dia Pedro tentou fazer com que Zé desistisse de curtir essa dor e falou: “Rapaz, já faz seis dias que a moça não passa por aqui. Esquece isso, volta pra e toca a tua vida!”, recomendou, de um jeito veloz e difícil de entender, típico dos moradores daquela região. Mas funcionou. Naquele momento acendeu uma luz sobre a cabeça do pobre homem que se maltratava por causa daquela mulher. Levantou-se, jogou a pinga longe e foi pagar Pedro, que se assustou com o movimento brusco e inesperado de Zé, mas ficou aliviado por se livrar de um homem “que vai se matar se continuar assim e ainda acabariam me culpando”, pensou. Ele comemorou em um grito: “Isso mesmo Zé, toma rumo na vida”, disse. Zé pagou a conta e cumprimentou o dono da espelunca com um aceno de cabeça. Quando virou-se para descer os degraus e pegar o caminho da calçada ficou branco de susto. Jussara passara naquele instante pela rua, mas, ao contrário de antes, olhando para Zé com rosto piedoso. “Mas o velho Pedro garantiu que ela não tinha passado mais aqui”, pensou Zé, espantado com o que via, enquanto Jussara atravessava a rua e ia até ele.

“Zé, eu queria te dizer uma coisa”, iniciou o diálogo a moça, com a voz agitada. “Eu fiquei sabendo o que você fez depois daquele dia que conversamos. Se tu num sabe, sua irmã é amiga da minha tia”, continuou. “Quero que você pare de encher a cara, senão eu acabo me sentindo culpada”, disse. “Mas a culpa é sua mesmo”, retrucou Zé, amargurado. “Eu só te chamei para um suco e você me destratou daquela forma”. “Zé, e lá isso é desculpa pra encher a cara e viver caindo pela calçada?”, indagou Jussara, implacavelmente. “É sim”, devolveu Zé. “É porque eu gosto d’ocê, Jussara”, completou. A moça permaneceu imóvel diante dele por alguns segundos, num silêncio devastador, quebrado apenas pelo farfalhar de algumas folhas de árvores e pelo canto distante de um passarinho. “Mas hômi de Deus, a gente nunca conversou direito. Tu me viu uma ou outra vez. Como pode?”, perguntava Jussara, perplexa. “Não sei, só sei que foi assim. E se você veio aqui só pra passar sermão é bom tomar seu rumo, porque isso não ta ajudando em nada”, respondeu Zé, que complementou: “E fique a senhora sossegada que eu vou embora amanhã mesmo, assim deixo esse fim de mundo de uma vez”. Nesse momento, Jussara fez uma expressão que se assemelhava com algo muito triste que tivesse ouvido naquele segundo. “Eu preciso voltar mesmo ao batente na capital e aqui não consegui descansar nem um pouco”. E assim, Zé partiu para a casa de seus parentes, sem se despedir da amada que o rejeitou. Jussara, enquanto isso, permanecia em pé na frente do bar, sentindo uma leve ponta de arrependimento brotar-lhe no peito.

Zé chegou na casa da irmã, tomou banho, jantou com todos, sem pronunciar uma palavra, até arrumar as malas, quando declarou: “Amanhã à noite eu pego o ônibus das nove da noite, vou voltar porque ta na hora de trabalhar”. A fala miúda de Zé assustou os presentes, ainda mais que o banho tomado e o jantar com eles. “Vai mesmo, Zé? Melhor pra ti guri”, falou Francisco. “Que bom”, exclamou Maria. “Resolveu seu problema, Zé?”, questionou Isabel. “Sim mana, apesar de não ter descansado o que devia, to pronto pra tocar minha vida novamente”, respondeu.

No dia seguinte, Zé acordou bem cedo e com toda a disposição. Cumprimentou a todos da casa , tomou café e foi pra banca pegar um jornal. Voltou pra casa, leu e passou o resto do dia assistindo televisão, passando pela primeira vez o tempo todo em casa. Só lá pelas seis tarde saiu da casa, quando era possível notar o cair da tarde da cidade interiorana, onde ainda é possível ver o céu com clareza, suas estrelas surgindo em meio às violáceas e rosáceas que pintam um quadro belo no céu. Passou no bar do Pedro para comprar um Plaza e se despedir do dono. Na saída, foi surpreendido pela aparição de Jussara. “Oi Zé, precisamos conversar”,iniciou o diálogo. “Não tenho nada para conversar, daqui três horas meu ônibus parte”, retraiu. “Eu sei. Por isso mesmo”, retrucou Jussara. “Então diz logo, diacho”, zangou-se Zé.

Jussara, então, respirou fundo e começou: “Eu gostei de você desde o primeiro dia que te vi”, disparou, fazendo Zé dar um passo para trás, assustado. “Eu passava de cabeça baixa, com medo que me apaixonasse por você. Mas não agüentei e, pelo menos, acenava para ti, até que você resolveu falar comigo”, disse, prosseguindo. “Eu queria muito tomar aquele suco com você, mas eu já sou comprometida, você se esqueceu de saber disso. Meu namorado mora longe e ta viajando. Mas logo ele volta para a gente casar”. Continuava Jussara, dilacerando, em palavras, o coração puído de José. “”Eu gosto muito dele, que foi sempre muito bom comigo. Mas e você? Vem aqui, com data marcada pra voltar, vida resolvida muito longe daqui, com amigos, família, trabalho. E eu também tenho tudo isso aqui, mas com uma realidade muito diferentes da sua. Que história isso ia dar?”, perguntou Jussara. Mas Zé não conseguia balbuciar uma sílaba sequer, ficando paralisado em frente à amada. “Então eu parei de passar aqui, mas senti remorso quando soube de sua bebedeira. Sinto que parta agora, mas talvez seja melhor, antes que essa história acabe mal”, prosseguiu, enquanto uma lágrima despencava da bochecha esquerda de Zé. “Eu só queria esclarecer tudo e falar pra você que adorei saber que se interessou por mim, mas não posso abandonar tudo que tenho aqui por você, pois sei que você acabaria pedindo isso, todos que vêm da cidade grande pedem isso”, finalizou Jussara, dando um beijo no rosto de Zé, antes de ir pra sua casa.

O pedreiro em férias, recuperado de alguns minutos de torpor, se recompôs e foi pegar suas malas, sem dizer mais nada até chegar à rodoviária, levado pelos parentes. Zé agradeceu a estadia, pediu desculpas pelos incômodos e se despediu deles. Ao sentar no banco sentiu um aperto no coração, enquanto algo parecia ser empurrado de baixo para a cima até à garganta. Francisco e Isabel acenavam  do lado de fora, respondidos por Zé, durante aqueles angustiantes segundos de espera até o ônibus partir. Quando os pneus do veículo começaram a rodar rumo à estrada, a vizinha de banco de José se estranhou ao perceber algumas lágrimas do rapaz. Zé, por seu turno, sentia que aquela pressão na garganta desaguava pelos seus olhos, enquanto uma dor indescritível machucava-lhe a alma. Sua visão, embaçada pelo choro, via a escuridão da mata refletida no céu, entrecortada por algumas estrelas e por reflexos negros das nuvens e da mata rasa. A certeza de que nunca mais veria Jussara doía-lhe fundo. E essa imagem bucólica da noite daquela cidadezinha do interior trazia ainda mais tristeza, pelas lembranças e pela saudade que a viagem cravaria em seu coração pelo resto de seus dias. Após esses instantes de desalento, José tampou a janela com as cortinas e pôs-se a dormir, como se isso fosse fazê-lo esquecer de tudo, enquanto que uma cantiga de amor pulsava em seu velho radinho.

“O Incidente” – Parte I

Olá.

Hoje o dia foi bastante complicado (quem me acompanha pelo twitter sabe bem disso), então fica difícil ter tempo para pesquissar alguma coisa interessante para publicar aqui.

Mas, cavucando nas minas dos meus alfarrábios, eis que acho um conto que acreditava já estar publicado aqui. Trata-se de “O Incidente”, escrito lá pelos idos de 2007 e tem muita relação com A Partida, já publicado no blog (clique no nome do conto para lê-lo).

Ambos recebem influência muito forte de uma viagem a passeio que fiz no fim de 2006 e início de 2007 pelo Paraná, passando alguns dias em Umuarama (noroeste do Estado) e a capital Curitiba. Os cenários, as pessoas, os ritmos, enfim, a vida desses dois lugares interessantes, cada um a seu modo, me inspiraram a escrever esses dois contos, que tratam de amor, amizade, dor, desilusão, e, de certa forma, falam de esperança.

No caso de “O Incidente”, recordo-me que não havia colocado no site por ser extenso e um tanto cansativo. Daí que agora ocorreu-me esta idéia de dividi-lo (de forma aleatória, pela metade nas páginas do Word) para facilitar a leitura. Vamos ao conto! Amanhã tem a segunda parte. Espero que seja do agrado de quem frequenta este espaço. Até mais!

“O Incidente” – Parte I

José Fernando estava na cidade havia cinco dias. Foi visitar alguns parentes que não via há anos. Depois de muito tempo brigado com Francisco e Isabel (tio e irmã, de José, respectivamente) por um motivo que ele nem lembrava mais, as mágoas passaram e eles o convidaram a passar alguns dias na pequena cidade interiorana, há léguas de distância da capital. José Fernando achou de bom grado, pois havia anos que não tirava férias da construção civil desde que pegou aquele hospital público que nunca terminava. Mas, enfim, acabou e ele pôde descansar alguns dias, antes que a próxima obra começasse.

Rumou para lá com uma mochila, uma muda de roupa enfiada de qualquer jeito, três maços de cigarro Plaza e uma garrafa de pinga que era retirada a todo instante para o deleite de seu dono. Isso sem falar no seu inseparável radinho de pilha, permanentemente grudado ao ouvido. Assim, ele pegou o ônibus no maior terminal da cidade e desembestou pela estrada adentro. “Lugar que não chega nunca, diacho”, reclamava José, após 5 horas de viagem, entre um gole e outro de sua aguardente. “Boa para danar”, costumava elogiar seu líquido, vindo de uma cidadezinha distante em outro Estado.

No entanto, o trajeto para o interior era muito longo mesmo: cortava três Estados e passava por mais de 20 cidades. Ia demorar umas 20 horas. “Raio de estrada que num muda. Só vejo mato e boi em tudo que é lado”, resmungava a cada meia hora para a pessoa do banco ao lado, que mal agüentava seu bafo de cana. Nas seis paradas da viagem, ele só descia para urinar, fumar seu cigarro e esticar seu joelho esquerdo que costumava atormentá-lo quando passava muito tempo em pé ou sentado.

Francisco, Isabel e Maria, filha de Isabel, o esperavam na minúscula rodoviária da cidade, que mais parecia uma praça, situada num círculo, com comércio, invariavelmente botecos, no centro e vários espaços para os ônibus estacionarem, mesmo que parasse apenas um ônibus por dia dali. O resto servia mais para estacionamento de carros e parada de intermunicipais. Finalmente, o ônibus de José Fernando chegou: “Êta, pessoar!. Ceis não mudaram nada hein”, disse, em tom brincalhão, típico do interior, para provocar seu tio, enquanto tropeçava em seus próprios pés, quase caindo pela bebedeira do percurso. Francisco pegou a mochila e deu um suspiro de arrependimento. Isabel ajudou a erguê-lo e Maria não entendia, nada, já que era muito nova quando viu o tio pela primeira vez. “Já chega bêbado Zé? Assim fica difícil”, exclamou Francisco.

Chegando em casa, depois daquela conturbada recepção, Zé foi para o banheiro meio a contragosto. Refeito, Francisco, Isabel e Zé conversaram para acertar os ponteiros definitivamente, deixando, contudo, a situação na mesma: Francisco não gostava muito de Zé e Isabel só o admitia em sua casa porque era irmão. E Zé sabia de tudo isso. Mesmo assim, resolveu ficar, pelo menos uns dias para esfriar a cabeça do ano duro que tivera. Já estava com 35 anos, trabalhara muito e não tinha tempo de sair, muito menos se divertir. Sozinho há dois anos, não conseguia se sentir atraído por nenhuma moça do bairro onde morava. Meio que inconscientemente, decidira ficar só por um tempo, depois de sua relação frustrada com Dorinha, a faxineira que foi sua vizinha por quatro anos.

Zé estava há cinco dias e não entendia o porquê. Achava que três dias eram o bastante. Não tinha nada para fazer ali. Acordava às 10, tomava café preto e comia pão com manteiga. Botava sua roupa e saia a perambular pelas ruas tranqüilas da cidadezinha. Tranqüilas porque não tinha uma viva alma nas calçadas, nem carros pelas vias. “Fim de ano é sempre assim. Todo mundo que pode foge daqui”, contava Maria para o tio. Depois de caminhar, ler jornal, bater papo com algum senhor de idade prostrado na pracinha, Zé retornava à casa para almoçar e tirar uma soneca de umas duas horas na rede que fica nos fundos. Só lá pelas quatro horas, sol ainda forte, ele ia para um boteco próximo tomar cerveja (tinha parado com a pinga, mas “descontava” tudo na cerveja) e fumar seu Plaza.

Passava pelo menos umas quatro horas por ali, olhando absorto para o nada, sem ninguém para conversar, apenas seu radinho de pilha, que lhe evitava a solidão. Pensava na vida enquanto ouvia as modas de viola e as canções “dor de corno” da rádio local. Nada o fazia mover dali. E cerveja atrás de cerveja passava pela mesa dele. No fundo, ele sabia a causa, tanto de sua permanência estendida na cidade quanto de suas bebedeiras, que acabavam lá pelas oito da noite, céu quase todo revestido de negro, quando ele resolvia ir embora, jantar, tomar banho e dormir, sem quase falar com seus parentes.

O motivo para aquilo tudo era Jussara, moça de idade semelhante a de Zé. Jeito simples, pouca instrução, mas de beleza rara. Tez branca, olhos e cabelos negros bem escuros. Tinha estatura mediana e cintura fina. Bem diferente de Zé: alto, cabelo castanho, magricela de dar dó, mas com uma barriga saliente e um pouco mais de estudo. Ela passava por aquela rua todos os dias, voltando de seu trabalho como costureira numa fábrica perto de sua casa. Descia a rua vazia com aquele ar tristonho da solidão, mas bela. Mas como ela não o conhecia, nem o cumprimentava. Seguia de cabeça baixa para casa, sempre com pressa, com um certo ar amedrontado. Apenas após o quarto dia, de rito semelhante, e, percebendo a simpatia do rapaz que bebia no bar e sempre a olhava com um sorriso no rosto e levantava o chapéu, ela reparou e resolveu dizer um “olá, boa tarde” ao desconhecido. Já tinham se passado oito dias pensando o porquê de estar ali remoendo sentimentos, enquanto a moça o cumprimentava educadamente, Zé resolveu agir.

Saudosas Memórias

Mais uma noite de chuva recobria o bairro, enquanto carros corriam de um lado para o outro na pacata rua do meio, fazendo barulho com seus pneus em contato com o asfalto. Após sair de um longo banho quente, Antonino resolvera espiar pela janela de seu quarto. Dava para ver um prédio imediatamente a frente de si, um fragmento de uma favela em expansão à esquerda e a rua onde mora do lado direito, com o privilégio de avistar no condomínio vizinho vastas árvores, de muitos anos já, acolhendo pássaros e expondo a beleza de suas folhas e troncos. Apesar disso era noite e Antonino pouco conseguira enxergar de suas “amigas árvores”, como gostava de chamá-las. No máximo via as luzes intermitentes dos edifícios e alguns transeuntes caminhando despreocupados por entre os pingos.

Sua morada é um destes conjuntos habitacionais, todos iguais uns aos outros, onde milhares de pessoas são empurradas a morar em espaços minúsculos, sem o menor direito ao conforto. Mas o preço barato é convidativo a muitos que vivem de aluguel e não tem o suficiente para pagar por uma casa própria. Esses prédios todos parecidos em sua estrutura, se fossem iguais em cores e certos detalhes, lembrariam os conjuntos de edifícios da antiga Alemanha Oriental, em época longínqua que o comunismo era uma ameaça a sociedade. “Hoje não, nada mais o ser humano tem a temer, a não ser a si mesmo”, pensou alto Antonino, como que lamentando a sua própria sorte.

O velho professor de História, ex-revolucionário dos tempos de guerra fria e ditadura militar, agora sobrevivia de uma aposentadoria mixuruca do Governo e bicos ocasionais de encanador. Tinha conhecimento do ofício pelo seu falecido pai, Horácio, que o ensinara quando garoto. Antonino adorava acompanhar o pai no trabalho, desapertar e apertar porcas e parafusos de canos, movendo pias de lugar e lodo das pias e limpando, consertando. Era tudo tão mais simples que ele chegara até a desejar viver tal vida. Mas não, Antonino, agora com seus 63 anos, tinha ido no caminho do aprendizado, do engajamento, da contestação, da “investigação da História”, como costumava incitar a seus companheiros professores em períodos de planejamento escolar. Deu aulas durante trinta anos em uma escola distante de onde fixara residência. Era na mesma região, mas o bairro era tão imenso que ficava longe por demais de sua casa.

Mas agora tudo não passava de lembranças, no mais, reminiscências desditas que não o levariam a lugar algum àquela altura. Já tinha desistido de  prosseguir na luta, não acreditava mais naquilo tudo que ouvira quando jovem, nas ilusões, muito menos na dura realidade que os acontecimentos lhe impuseram. “Estou velho demais”, dizia a si mesmo sempre que algum questionamento cobria sua mente de dúvidas. Não, não era mais da sua conta, estava idoso, encaminhando-se para a morte, dera tudo de sua vida, suas forças para a educação, tentando abrir os olhos dos jovens para o que realmente acontecera na História do homem, ou ao menos polemizar, discutir o passado e mostra-lhes as perspectivas do futuro, que dependia deles. Mas agora já não devia devoção maior que memórias de algo em estado de putrefação.

Voltou-se aos seus ex-alunos. Os jovens, “ah, os jovens”, disse sorrindo.  Quando ele pensava nos jovens lembrava-se de sua adolescência, de seus sonhos, vontades, lutas, amores. Sim, amores, porque não? Todo mundo ama, ainda mais alguém que buscava a cada dia renovar a esperança de um mundo melhor; que vivia intensamente cada momento e procurava sempre o melhor em tudo o que fazia. Não tivera muitas paixões, mas as poucas que vivera haviam sido sinceras e profundas.

Ah, sim, ele fora casado!!! Durante trinta e três anos. Sua esposa falecera há uns cinco, de câncer no pulmão. Fumava muito. Dois maços por dia. Não há organismo que resista. Juliana era o nome dela. Era professora também, só que de Língua Estrangeira, algo estressante naquele período. Conheceram-se quando ela visitou a escola que Antonino ministrava aulas, em uma palestra-reunião entre professores da rede de ensino. Mas demoraram a trocar palavras, até pelo jeito calado de Antonino. Isso devia-se também pelo temperamento fortíssimo de Juliana, cara sempre amarrada, mas com um olhar perturbadamente sedutor que logo chamou a atenção do professor de História. Mas só depois de longos meses é que os dois começaram a se falar, para no ano seguinte, se casarem.

De repente, um forte estrondo vindo da porta o retirou abruptamente de seus pensamentos. Assustou-se o velho homem, fechando a janela e virando-se para a entrada de seu apartamento. Novo estrondo. Antonino ficara paralisado, sem saber o que fazer. Tomou um fôlego de coragem e iniciou a caminhada em direção à porta. De repente o barulho parou de importunar-lhe e direcionava a outro número, do seu Bernardo, vizinho de andar. Antonino olhou pelo canto da janela que dava acesso a um buraco na parede do prédio, no qual via o corredor. Esse momento pareceu gelar a espinha: um homem grande e forte, devia ter uns 28 anos, batia a cabeça contra o rosto de um garoto de uns 20, no máximo, àquela altura já todo sangue e deformação. A “explosão” à porta era do homem jogando o mais novo contra a madeira de mogno da frente da casa do professor.

O pior de tudo que aquilo era comum em seu condomínio, seu bloco, seu andar. Por mais que a polícia sempre visitasse o obscuro vizinho do andar de cima que ninguém conhecia, e só por ver a cara escura e cheia de marcas, nada lhe acontecia, voltando toda a semana a repetir o mesmo feito, só mudando o pobre coitado a apanhar até quase morrer.

Antonino nada podia fazer. Se saísse para acudir o garoto, o grandalhão lhe daria tantos sopapos que morreria espancado. Se ligasse para a polícia, poderia ser descoberto, afinal, ninguém mais acreditara na polícia, nem ela mesma. Então, prostrou-se diante do buraco e viu, enojado, a cena do homenzarrão esmurrando o estômago do jovem, até ele vomitar alguma coisa amarela, que nem mesmo Antonino podia precisar. Neste momento pôs a cabeça para dentro de casa para não dar na vista, e também para ir no banheiro regurgitar, depois de ver cena tão desprezível.

Resolvera voltar para a janela de seu quarto, mas antes pegou uma garrafa de vodka pela metade em sua geladeira. Adorava o gosto do puro álcool descendo-lhe a garganta e o fator estonteante que lhe proporcionava à primeira virada de copo. Desta vez decidira entornar duas vezes o delicado copo de cristal que trouxe para bebericar o líquido transparente. Voltou-se para o lado de fora do vidro, olhando para baixo e apreciando o verde do jardim. Os pingos caiam insistentemente em seu rosto, enquanto perscrutava os vizinhos, em busca de alguma novidade ou arbitrariedade cometida por alguém. Nada muito correto, admitia, mas era o único passatempo de um homem de 63 anos pobre e só à noite.

Nem a televisão lhe agradara, com programas chatos e fora de seu interesse. Nada mais lhe chamava a atenção na tela, a não ser documentários falando de países longínquos, perdidos no espaço do tempo. De vez enquando ligava o rádio para tentar encontrar, inutilmente, alguma estação que tocasse uma música de seu gosto. Apreciava os clássicos da música erudita e isso só conseguia ouvir quando pegava emprestado os discos do Bernardo. E esta era uma oportunidade: Bethoven e Mozart estavam na prateleira da estante, convidando-o para umas notas e movimentos. Antonino encaminhou-se para a sala e deixou-se cair na poltrona. Com movimentos calmos e tortuosos – afinal, a vodka começara a fazer efeito – procurou o disco certo e com cuidado e carinho inseriu-o num velho gramofone que possuía.

Nesse momento fechara os olhos e voltara a pensar em Juliana, seu velho amor, trinta e três anos de vida dedicados a ela. Tempo semelhante dispôs a educação, e mais ainda a seus antigos e desbotados ideais que nem mais possuía desejo de crer. Tudo não passou de fragmentos de felicidade jogados fora em nome de uma desilusão, pensara ele. Estava sendo injusto, naturalmente, com tudo que vivera e evoluíra através do aumento de seus conhecimentos e da própria luta que empregara para defender as próprias idéias. Isso era normal porque, na terceira idade, analisava as coisas por outro ângulo, observando os resultados ou falta deles na vida prática, deixando-se esquecer das pequenas vitórias e da alegria que era ter tudo aquilo, fosse em mente, fosse em mãos. Tudo fez parte dele e iria morrer com ele, mesmo não querendo.

Antonino deu uma golada forte na vodka, pelo gargalo, recostou as costas na antiquíssima poltrona de couro batido e deixou-se dormir por alguns momentos. Quando acordou a chuva se tornara forte e invadira-lhe o quarto, molhando-o. Antonino foi até ela, fechou-a e voltou para a vodka, agora com um livro em mãos. Mais parecia um diário. E era. O velho e melancólico professor abriu-o e, meio zonzo por ter acordado, contribuindo o peso da bebida que se fazia presente, leu para si algumas palavras:

Se eu, que estou aqui hoje
Nada fiz para nossa vida melhorar
Como posso querer vencer o mundo
Se não consigo com as próprias pernas caminhar?

Uma lágrima caíra de seu rosto. E prenunciando uma torrente de outras que por ventura viessem, cerrou rapidamente o diário e voltou-se para o teto de seu apartamento. Começou a refletir porque ainda mantinha aquele diário, se já não escrevia nele há décadas. Era da época de jovem, revolucionário e apaixonado, pela vida e por seus ideais, quando ainda o mundo fazia sentido para ele. Agora, Antonino não via mais objetivo em nada daquilo, mas feria-lhe saudade no coração ao abrir aquele libreto. Tentava fugir, mas não conseguia impedir as lembranças virem à mente. Então, num gesto abrupto, jogou o diário para o alto. Foi em direção a janela fechada, abriu-a e voltou a observar a rua, menos movimentada. Era madrugada.

Avistou um carro passando devagar e uns cachorros barulhentos a latir sem motivo. Permaneceu por uns instantes olhando sem destino, até direcionar suas pálpebras para o alto, em busca de estrelas, mas o céu nublado pela chuva só desferia-lhe pingos gelados sobre a cabeça. Deixou o rosto molhado e, calmamente, orou baixinho, como que procurando paz de espírito. Voltou para a rua, agora deserta. A chuva aumentara novamente, já eram três da manhã e o velho continuava sua via crucis defronte à janela. Até que, no prédio vizinho, uma luz piscava na sala e, de repente, surgira uma silhueta diante do vidro, acenando para o velho Antonino. Eis que este abriu um sorriso e retribuiu o aceno, mesmo sem saber quem era.

Invenções de quem viveu Ilusões

- Olá! Como vai? Que surpresa topar contigo por essas bandas…

- Eu vou bem, e você?

- Ah, estou bem. Estou indo ali na locadora agora. E você, o que faz por aqui?
- Nada. Estou voltando da casa de uma amiga e vou aproveitar e ir na padaria comprar uns pães.

- Como andam as coisas contigo? Faz tempo que não nos falamos…
- É, correria né? Casa-trabalho-faculdade-casa. Quase tou sem tempo de sair pra balada.
- Ah tá. Eu já num tenho muito o que dizer. A não ser que estava pensando em me mudar.
- Sério? Vai pra onde?

- Curitiba, talvez. Tou vendo isso ainda, não é muito certo não. Mas preciso me encontrar.

- Bem, er… é verdade, está certo. Espero que fique tudo bem com você então. Bom, eu tenho que ir. O pessoal em casa deve estar preocupado. Foi bom te ver, até logo.

- Tudo bem então, o jeito é aproveitar esse frio e ir pra casa. Legal te reencontrar também, até.

E enquanto a moça se distanciava, uma lágrima gelada caia do rosto do jovem Bernardo, que via todo o seu esforço em vida e amor sumindo na esquina da rua 14.

Lembranças de uma mente atordoada

Nisso, volta-se ele para seu mundo. Lembra-se que iria para a locadora, mas já sem vontade, preferiu prosseguir a caminhada por seu bairro calmo e silencioso, ainda mais naquele dia em que o frio se fazia presente.

Prostrou-se em frente a uma casa antiga, cheia de árvores, destacando o verde por conta da fina chuva que caía naquela manhã. Ficou olhando a entrada da casa por horas a fio, sem notar as pessoas que caminhavam com ar estranho e curioso, ávidas por saber o que aquele rapaz tanto enxergava naquela velha morada caindo aos pedaços.

Bem, isso na visão dos transeuntes, pois para Bernardo, aquela residência contava-lhe a vida, boa parte de uma existência que ele próprio não sabia se valia mais a pena. Principalmente pelos últimos cinco anos, em que apenas sobreviveu do parco oxigênio de lembranças vividas em épocas totalmente distintas e distantes daquela manhã garoenta.

Parecia um filme épico, em ambiente medieval, com toda pompa e circunstância que merecia uma história como a da vida daquele jovem. As imagens corriam-lhe os olhos com uma velocidade estonteante, mas com uma riqueza de pormenores que impressionaria qualquer escritor. Um filme, um livro, uma história, um recorte de tempo entre o nascimento e àquele momento de relembranças. Tudo pela enésima vez. Sim, aquela pobre alma se prendera em uma janela temporal, noutra dimensão, remoendo seu pretérito como se pudesse, com isso, trazê-lo de volta, com uma energia que não se vê em outras situações da vida do pobre garoto.

Pessoas alegres, festas, família, tudo presente e vivendo harmoniosamente, muito diferente do que o quadro desesperador de um Van Gogh que se pintava naqueles dias tristes e frios. Ele tinha amor, tinha paz, tinha a felicidade em seus braços, possuía tudo e era bondoso com o que recebia, sem se deixar levar pelo labirinto da presunção que o poderia embrenhá-lo na floresta da escuridão. E, em meio a esses pensamentos do passado, se perguntava: “porque eu perdi tudo isso? O que eu fiz de errado para ser como sou hoje?”. Bem, perguntas perspicazes, afinal, neste dia ele não passava de um farrapo humano, a perambular inerte e inofensivo pelas ruas de sua vila.

Mas o que Bernardo não percebera, era o fato de que essas respostas encontravam-se diante de seus olhos lacrimejantes. O que ele nunca notaria era o fato de que tudo aquilo foi um sonho, uma mentira muda de sua mente atordoada. E, quando começou a entender o que se passara com seus últimos anos, foi-se tudo em um passe de mágica e aí sim ele começou a viver a realidade, algo completamente vazio e sem perspectivas, como aliás sempre foi sua vida. Tudo aquilo que pensara ter virou areia e dissipou-se no mar da insanidade. Os últimos cinco anos passaram-se de memórias delirantes que nunca haviam ocorrido.

No entanto, preferia ele mil vezes “relembrar” tais fantasias, que, no entanto, faziam mais sentido em sua mente, do que admitir que tudo não passou de ilusão e sua existência se resumia a um total fracasso. Não restava mais nada a não ser vagar inútil e inexpressivo pelas ruas, não-vivendo os dias que se passavam, até apresentar-se a insaciável morte do espírito, este que tanto lhe gritava a manter-se em pé, mas que não possuía influência alguma em seus loucos devaneios.

* Escrito em 2004.

A Partida

Após sete horas de viagem, o ônibus se aproxima do seu destino pontualmente às seis horas da matina de uma segunda-feira. Sentado no banco, Márcio acorda e sente o frio arrepiar sua pele, coberta apenas por uma camiseta e uma bermuda, afinal de contas, o sol teimava em arder em Cascavel naquele mês de janeiro e agora, em Curitiba, o tempo nublado, cinza e gélido predomina no clima e na paisagem. O garoto pega a sua mala marrom do bagageiro com os olhos repletos de lágrimas. O motorista percebe, mas prefere não se meter: “Já me basta os problemas que eu tenho”, pensa. Enquanto isso, Márcio caminha em direção aos bancos de espera, já que sua estada na capital paranaense irá durar cinco horas. Isso porque, ele encontrou vaga no ônibus que o levará até sua casa em Paranaguá somente às onze e meia. “O que vou fazer nesse intervalo? Já não basta essa tristeza a tomar conta de mim?”, dizia Márcio para si mesmo.

O jovem de 16 anos havia passado um mês na casa se sua avó Olinda, em Cascavel. Mas o que importava mais era Silvia, sua namorada de mesma idade, que mora há pouco mais de cem metros da casa de sua avó. Dona Olinda, de 88 anos, era o motivo da visita do garoto até três anos atrás, quando Márcio conheceu e se apaixonou por Silvia, iniciando um namoro que dura até hoje. Agora ele usa a casa da avó apenas como morada para ficar próximo de Silvia. Duas vezes por ano ele visita sua amada, nas férias de fim de ano e em algum feriado prolongado que ele pega uma folga extra para ir até lá. Já Silvia consegue ir somente uma vez, nas férias de julho da escola. E agora, início de janeiro, em que findam suas férias, ele se vê obrigado a voltar para casa e retomar sua vida, seu trabalho, sua solidão.

Mesmo com pouca idade ele já trabalha, para ajudar a tia Selma, que cuida dele desde que os pais do garoto morreram em um acidente automobilístico, há cinco anos. Sua tia tem 65, está doente e sobrevive com uma aposentadoria miserável. E para complementar a renda, Márcio trabalha como aprendiz num escritório de advocacia. Ele também guarda um pouco que recebe para fazer a tão sonhada faculdade de Agronomia, quando concluir o ensino médio. Daqui dois anos. Vive só com a tia em Paranaguá, pois seus irmãos Téo e Mateus, com 27 e 28 anos respectivamente, dividem apartamento em São Paulo. E lá Márcio não quer chegar nem perto, pelo menos por enquanto. Talvez quando precisar arrumar emprego ele se dirija ao interior desse estado, mas ele não gosta muito do ambiente feroz de cidade grande.

O pensamento tristonho foi-se embora por um reclame persistente do estômago que necessitava digerir algo. Márcio andou pelos corredores da rodoviária antiga curitibana, que mais parece um retângulo furado, pois são quatro corredores de dois andares, em que, no andar de cima, as empresas de viagem se instalam, além das lanchonetes, lojas de doces, presentes, jornais e revistas. No térreo ficam os bancos de espera e as plataformas dos ônibus. Os veículos que chegam e partem a todo o momento ficam na parte central. Mesmo assim, naquele instante a rodoviária estava tranqüila, pelo menos na visão de Márcio que, do segundo andar, percebia poucos ônibus saindo.

Enfim achara um lugar para comer. Pediu um leite com achocolatado e um pão na chapa. Comeu vagarosamente, já que tinha tempo sobrando, enquanto observava as pessoas da lanchonete: dois homens de uns 30 anos de idade, mais ou menos, tomando café e comendo coxinha, conversavam calorosamente sobre um trabalho de servente de pedreiro que iriam fazer. Na outra ponta, uma mulher de uns quarenta anos brigava com o filho, que devia ter uns 10, sobre o que ele devia comer àquela hora da manhã: ele queria um salgadinho e ela desejava dar-lhe pão. Márcio pensou na loucura de fixar-se em cada cena e lembrou-se de Silvia. Nunca imaginou que pudesse namorar tão cedo e por tão longo tempo. Quando tinha uns 12 anos costumava dizer pra todo mundo que só ia querer saber de brincar, farrear e trabalhar, só pensando em namoro depois dos 18. Achava que deveria curtir mais a vida do que se prender com uma garota.

Esse pensamento maduro para uma criança vinha de experiências de seus dois irmãos, que acabaram largando suas esposas depois de um tempo de casados, pois haviam se juntado cedo e viviam reclamando da falta de liberdade. E sempre alertavam o irmão mais novo de que “casar cedo é furada”, “o importante é curtir a vida antes de se amarrar com alguém”. Mas aí ele conheceu Silvia.

Foi engraçado como tudo aconteceu. Era julho, fazia frio e chovia em Cascavel. Os garotos jogavam bola num terreno baldio atrás da casa de Dona Olinda. De repente caiu um raio, que fez todos correrem para suas casas. Ao chegar na sua, Márcio viu uma menina no fim da rua chorando e foi até lá. Ele nunca a tinha visto, parecia ter se mudado recentemente. Ela estava com medo dos trovões e raios, mas seus pais não estavam em casa. Márcio a levou para a avó, que cuidou da menina. Desde então, eles ficaram bastantes amigos e brincavam sempre. Mas, com o passar dos anos as coisas mudaram, a idade dos treze anos já começa a indicar outras coisas, as brincadeiras logo passaram para flerte e, quando viram, já estavam se beijando, começando um namoro puro e infantil, mas que permanecia até hoje.

As lágrimas rolaram pela sua face novamente. Mas dessa vez não esperou que lhe perguntassem nada. Pagou a conta rapidamente e foi ao banheiro mais próximo. Chorou por uns 10 minutos. Depois se lavou na pia e se olhou no espelho. Sentia-se só, perdido numa cidade estranha, desconhecida para ele, que parava de passagem entre uma viagem e outra. Tinha medo. Por isso, nunca saía da rodoviária. Uma vez, durante um fim de ano, precisou ter que esperar 14 horas para tomar o outro ônibus e, mesmo assim, ficou o tempo todo dentro daquela rodoviária bucólica. Já se acostumara àquele cenário triste de pessoas chegando, indo embora, felizes, tristes.

Ao voltar para o corredor de espera, lembrava-se da cena de despedida em Cascavel, com sua amada aos prantos, sempre com o mesmo discurso: “Será que vamos nos ver de novo, Márcio? Eu tenho medo de que nós não possamos manter nosso namoro tão à distância”. Duas cidades, dois corações, separados por aproximadamente 600 quilômetros. Contudo, ele costumava responder com aquelas frases que só jovem mesmo para dizer, sem saber o que os espera pela frente. Ou até para afugentar o futuro. “Acalme-se Silvia. Nós nos amamos e nunca vamos nos separar”, dizia. Mesmo assim, ele lamentava e a sucessão de choros, abraços e beijos desesperados prosseguia até o momento em que o motorista gritava pela última vez, avisando que o ônibus partiria naquele instante.

Voltava os sentidos para a realidade. Uma garoa fina, mas intensa, descia do carrancudo céu curitibano, levando mais melancolia para a escura rodoviária e para os corações dos viajantes. Já eram quase onze e meia e Márcio se via aliviado pelo momento do embarque para sua cidade se aproximar. Apesar de não ter desejado sair da cidade de Silvia, detestava essa angustiante espera entre a chegada e a partida, que se transformava numa verdadeira tortura, por lembrar tudo o que saboreara nos últimos trinta dias e agora se resignava a voltar à sua rotina, distante de seu amor.

Márcio caminha até a plataforma dezessete, em que o ônibus para Paranaguá partirá em instantes. Observa as pessoas que adentram no veículo, entrega o tíquete ao motorista, sobe as escadas e se dirige ao seu lugar. Coloca sua grande mala marrom, que guarda suas coisas e sua história, e senta na poltrona 14. Abre a janela e vê pela última vez aquela cidade ameaçadora. Aconchega-se e fecha os olhos, como que expulsando toda a tristeza de seu interior, numa tentativa de reter apenas as coisas boas e a vã esperança de que um dia essa distância será menor e que ele poderá viver ao lado de sua amada.

Ps: Digitado no computador em maio de 2007, mas escrito, acho, entre janeiro e fevereiro do mesmo ano, com a mente ainda avivada pelo cenário bucólico da rodoferroviária de Curitiba e o coração aplastado por uma longa viagem e uma dolorosa despedida no verão daquele ano.

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