5. Conclusão

O Mercosul nasce após anos de tentativas de integração no continente, especificamente na segunda metade do século passado e revela também um esforço brasileiro em trazer para sua área de influência a Argentina, que, de inimiga mortal passou a ser uma parceria estratégica tanto do ponto de vista econômico como até mesmo geopolítico na América do Sul.

O bloco surge no início da década passada dentro de um contexto liberal e globalizante, que, para se proteger deste cenário, é ressuscitada a tese do regionalismo, sob uma égide mais aberta, sem deixar de fortalecer em blocos regionais, e obter negociações multilaterais vantajosas no plano internacional. Apesar de seus avanços do ponto de vista do aumento do fluxo de comércio entre os quatro países do bloco e da criação de uma institucionalidade que, em boa parte, atende ao andamento do processo de integração, várias outras medidas, nos dois campos e em outros, faltaram para que o Mercosul aprofundasse a integração entre os Estados-membros, fato que acabou gerando descontentamentos internos, pondo em risco até mesmo o destino do bloco.

A partir do novo milênio, com a chegada à presidência de grande parte dos países da América Latina de governantes preocupados mais com o desenvolvimento social, alguns possuindo até uma base social diversificada ou até mesmo popular, propiciou que o Mercosul, bem como a região recebesse maior atenção interna, trazendo o tema da integração de volta à baila. Ocorre que, também, trouxe divergências quanto ao que se pretender integrar, qual o objetivo e como. Por exemplo, a entrada da Venezuela no Mercosul traz uma discussão pertinente a respeito de qual caminho o bloco deseja seguir, já que o presidente venezuelano tem pretensões de reforma do Mercosul, atenuando seus aspectos econômicos em prol de maiores preocupações sociais e políticas, ao mesmo tempo em que leva adiante a Alba, um processo de integração aparentemente não-jurídico, mas de força política e ideológica importante no atual cenário subcontinental.

No fundo do discurso chavista, no entanto, os objetivos não são tão diferente, quanto, por exemplo, a proposta lulista, o que ocorre é a forma mais radical e, por vezes, atabalhoada, com que Chávez faz suas proposições. Mas, independentemente disto, o apoio de seu país ao Mercosul está claro diante do que já foi exposto neste artigo e ele não tentará sobrepor a Alba sobre o bloco do Cone Sul, pois ambos os processos de integração são importantes para sua manutenção no poder (LOPES, R. H. ; HITNER, V., 2009), mas poderá levar os objetivos da primeira à segunda. Sem falar na Unasul, que pode ser um agregador de todos esses processos de integração, ampliando para temas como defesa, integração política, investimentos, cultura, etc., mas também pode ser apenas mais uma proposta que mudará de nome no futuro, como já aconteceu com a Comunidade Sul-Americana de Nações (CASA) que virou a Unasul.

Aliás, essa é uma característica marcante dos governantes latino-americanos: muitas intenções, proposições, mas, em termos práticos, pouco se avança em busca do que os discursos presidenciais costumam falar de uma união sul-americana ou latino-americana que vá além de uma liberalização comercial e busque um desenvolvimento equitativo entre os países, beneficiando todos os seus povos. Em síntese, as contradições entre desejos, declarações retóricas, acordos vazios de conteúdo, conflitos entre países, demandas de política interna e até mesmo externa, colocam uma enorme barreira para a integração na América Latina.

Será preciso compreender também como serão as relações daqui pra frente do Mercosul com os Estados Unidos, que cerca o bloco com acordos de livre comércio entre vários países vizinhos, em uma espécie de Alca às avessas, partindo de acordos bilaterais até uma provável, iminente e sem volta zona de livre comércio continental, já que praticamente todos os países da região terão algum tipo de acordo deste tipo com os EUA. Talvez uma forma de se proteger neste sentido seria a retomada das negociações com a União Européia para a criação de uma zona de livre comércio, dando maior autonomia em uma variedade de produtos, diminuindo os possíveis estragos desse “cerco” estadunidense. Isso seria interessante para o Brasil, um grande mercado que não sofreria tantos impactos com um acordo desta envergadura; resta saber como Uruguai e Paraguai seriam inseridos nesse processo. Sem falar nas relações com a Argentina, costurada a duras penas por décadas, mas que vive de recuos e avanços. Por fim, unindo todas essas negociações no âmbito da OMC, que o Brasil aposta, enquanto EUA e China, como já dissemos, têm avançado de forma agressiva nos acordos bilaterais.

O Mercosul e o Brasil, portanto, se vêem em um momento peculiar, com aparente empenho dos seus participantes em avançá-lo e simpatia dos vizinhos, mas também num momento crucial, em que a aposta no multilateralismo e no regionalismo aberto tem se mostrado o caminho inverso do mundo no momento, necessitando, portanto, ou de uma revisão em seus objetivos, ou de uma atuação mais firme para que seus anseios não esmoreçam diante do atual cenário que privilegia as relações bilaterais, em detrimento das relações entre blocos de um lado e de outro que busca sobrepor objetivos sociais, políticos e ideológicos aos econômicos.

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Artigo em partes

1.Introdução

2. Breve e sintético histórico da integração latino-americana

2.1 Brasil x Argentina: do conflito à cooperação

2.2 O modelo liberal do Mercosul

2.3 Mercosul volta à cena

2.4 A Venezuela e o Mercosul

3. Alba x Mercosul

4. Alca, União Européia, OMC e um impasse

5. Conclusão

Fim do artigo. Espero que todos tenham curtido, qualquer debate, só deixar um comentário para trocarmos figurinhas.

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