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O que é o Iluminismo? – Immanuel Kant

Mais um texto do curso Modalidades do Pensamento Político Moderno, discutido recentemente. O texto desta semana é “O que é o Iluminismo”, de Immanuel Kant. Lembrem-se: é só uma leitura livre do que apreendi do texto, não é uma resenha técnica, muito menos precisa do conteúdo.

No texto que procura responder a esta pergunta, Kant traz à baila a idéia do período Iluminista, do conhecimento, do livre pensar e criar, ou seja, o fim da chamada “era das trevas” para a vivência da “era das luzes” tanto na vida acadêmica, artística, bem como da sociedade, liberta do jugo dos padres e dos reis. Ele coloca que o Iluminismo é o caminho para o homem sair do que ele chama de “menoridade”, que ele especifica como sendo a “incapacidade de se servir do entendimento sem a orientação de outrem[1]”. Ou seja, se esta é a menoridade, o Iluminismo é a capacidade do homem pensar e agir por si mesmo, de forma livre, sem os indicações ou imposições de uma outra pessoa ou instituição.

E como se está vivendo em uma época em que a liberdade de pensamento e ação estão em voga, Kant critica e ironiza o ainda servilismo com que boa parte dos homens permanecem nas suas relações, delegando a outros o que devem pensar, dizer, discutir, fazer, enfim. “É tão cômodo ser menor. Se eu tiver um livro que tem entendimento por mim, um diretor espiritual que tem em minha vez consciência moral, um médico que por mim decide da dieta, etc., então não preciso de eu próprio me esforçar[2]”. Ele complementa, indicando ser realmente difícil passar de menoridade para a maioridade, daí o medo e a apatia para dar esse passo à frente.

Toda essa reflexão é importante, dentro do contexto da formação dos Estados, do pacto social para a criação de uma sociedade regida por leis, pois, se todos não estão mais sob os desejos e desvios de um rei, seguindo, agora, um corpo de leis e representantes que atuam para o bem da sociedade, não há mais nada para o homem comum fazer, a não ser cuidar da sua própria vida, já que há alguém para cuidar de sua segurança, criando leis que impeçam que hajam excessos na sociedade. Dentro da perspectiva de Kant, no entanto, isso acaba sendo nocivo, pois a participação dos homens nos debates e no pensamento é minada pelo comodismo de uma vida em que suas atitudes, no plano da razão, estão na mão de outro.

Voltando à análise do texto, Kant afirma que a liberdade é fazer o uso público da sua razão, mas que esta é ameaçada pelo momento contrário que desmotiva que isso ocorra. Mas, o que seria uso público da razão? Ele explica: “Por uso público da razão entendo aquele que qualquer um, enquanto erudito, dela faz perante o grande público do mundo letrado[3]”. Existe também o uso privado da razão, que Kant coloca como o uso da razão em um cargo público ou em alguma função específica.

Ocorre que, em muitos casos, os assuntos de interesses de todos acabam sendo resolvidos de forma passiva, sob a forma de uma “unanimidade artificial”, tendo a orientação do governo, causando o impedimento de raciocinar e, mais, apenas e tão somente obedecer ao que foi definido. Ele ressalta que não é possível a insubordinação ou não-cumprimento das normas ou leis estabelecidas, mas que faz sentido que se as questione, de forma erudita, por meio de escritos, dirigindo-se a um “público genuíno”, declarando sua insatisfação sobre determinado tema. Como esclarecimento, este seria um uso público da razão, enquanto que, uma palavra de um professor sobre qualquer tema seria um uso privado, por se tratar de um público restrito e direcionado.

O papel de um governante seria o de tornar o povo livre para pensar e escolher seus próprios caminhos, no que diz respeito à consciência, principalmente quando o tema é religião, já que, como diz Kant, nas ciências e nas artes, os governantes não desejam exercer tutelas sobre seus governados, sendo a tutela religiosa mais prejudicial e até desonrosa. Sendo assim, “um príncipe que não acha indigno de si dizer que tem por dever nada prescrever aos homens em matéria de religião, mas deixar-lhes aí a plena liberdade, que, por conseguinte, recusa o arrogante nome de tolerância, é efetivamente esclarecido e merece ser encomiado pelo mundo grato e pela posteridade como aquele que, pela primeira vez, libertou o gênero humano da menoridade, pelo menos por parte do governo, e deu a cada qual a liberdade de se servir da própria razão em tudo o que é assunto de consciência[4]”.

O autor afirma, ao dizer que sua época ainda não era uma “época esclarecida”, apesar de já se viver num período do Iluminismo: “Falta ainda muito para que os homens tomados no conjunto, da maneira como as coisas agora estão, se encontrem já numa situação ou nela se possam apenas vir a por de, em matéria de religião, se servirem bem e com segurança do seu próprio entendimento, sem a orientação de outrem[5]”. Isto é, o caminho para se desvincular do outro, principalmente dos clérigos, símbolos da supremacia eclesiástica na “era das trevas” ainda parecia árduo.


[1] Kant, Immanuel: A Paz Perpétua e Outros Opúsculos. Lisboa: Edições 70, 2004. Página 11.

[2] Idem, p. 11-12.

[3] Idem, p. 13.

[4] Idem, p. 17.

[5] Idem, p. 17.

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